As MIL faces de um rockstar: Analisando as personas de David Bowie


 Olá leitores, estou de volta para dessa vez  falar de algo que ainda não temos no blog : música! E olhe que nosso humilde e desconhecido blog tem até que bastante variedade, falamos de games, mangás, animes, filmes...mas  ainda não tínhamos nada sobre música.

Mas antes quero deixar claro que não tô aqui com a prepotência de ser um ‘’conhecedor intelectual musical’’ou algo do tipo, pra ser sincero manjo muita pouca coisa de música no geral. Porém tenho o defeito/qualidade/característica  de me aprofundar ao máximo em tudo que eu vicio, pesquisando o maior possível (ou nem tanto) sobre aquilo. Foi assim com Dark Souls, foi assim com os Beatles, foi assim com uma penca de coisa... e o meu mais recente vicio tem sido a obra de um certo artista inglês que tem a fama de se reinventar toda hora: David Bowie, o camaleão do rock ( e o cara que o Flames chama de ‘’cacatua’’, algo que eu ainda não consigo entender mas dou risada mesmo assim).


Apesar de sua genialidade e enorme influência musical ser o que mais importa, é claro, não é ''apenas'' isso que torna Bowie tão fascinante, é todo o contexto. ''Mitologia'' sempre esteve em volta do rock e da música popular em geral — provavelmente desde Elvis — músicos passarem a ser idolatrados como semi-deuses, criaturas enviadas de um plano superior para serem adorados por nós imbecis meros mortais.

Mas Bowie foi o primeiro (a não ser que tenha outro maluco que eu não conheça, vai saber) que usou essa mitologia presente no rock conscientemente a seu favor durante toda sua carreira, misturando a música com sua imagem, estética e ficção científica, criando assim um ambiente ''místico'' e acima de tudo misterioso em volta de si mesmo e dos seus albums.

E muito disso se deve a suas infames personas.

Bowie sempre foi fascinado por ficção e sonhava em se envolver de alguma forma com a dramaturgia (carreira que seu filho seguiria décadas depois, olha só) mas ao invés de enterrar essa vontade do passado nos confins de sua memória, Bowie resolveu mistura-la com seu talento musical criando histórias de ficção em volta de alguns albums e personagens extremamente excêntricos que ele mesmo interpretava (até demais), algo único que marcaria o rock para sempre — tendo inspirado não só a industria da música como também toda e qualquer  mídia de ficção, como filmes, quadrinhos, games, etc.

(E você ai, hipster larápio e do contra, achando exagero quando dizem que a obra dele extrapola a música né não? Eu sei que tem alguém assim lendo, sempre tem).

Mas suas personas malucas e suas esquisitices não foram coisas vazias e sem sentido criadas apenas para chamar a atenção e só isso (tipo usar uma roupa feita de carne, como uma certa popstar de hoje em dia já fez), existe uma profundidade psicológica nisso tudo que é vital para entender o que se passava pela cabeça de uma cara tão misterioso quanto o Bowie. E é disso que vou falar aqui, aproveitando para falar de sua carreira no processo também, é claro. Ah, e prometo que vou analisar isso de forma mais imparcial possível, meu lado fanboy não vai prevalecer aqui, pode confiar.

A Partida do Major Tom

Luke Skywalker, é você?

Perto do fim dos anos 60, Bowie estava longe de ser a lenda que seria anos mais tarde. Seus singles eram um fracasso atrás do outro, e seu primeiro álbum, David Bowie, foi praticamente esquecido da história. Claro, com a ideia genial de lançar o álbum dia 1° de junho de 1967, no mesmo mês que o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos Beatles, só podia dar em merda mesmo .

A carreira de Bowie estava tão lascada que ele estava pensando em desistir e virar um monge budista, e só não virou porque conheceu um cara chamado Lindsay Kemp. Esse cara com nome de atriz drogada praticamente salvou a carreira de Bowie, tirando da cabeça dele a ideia de virar monge, começou a dar aulas de dança e o mais importante, mimica. Sim, mais importante porque, foi com as aulas de mimica que a semente de todas as suas personas dos anos 70 foram plantadas em sua mente. Além disso, as aulas serviram para amadurecer e dar mais criatividade para Bowie.

Outra pessoa muito importante para a criação do conceito de personas foi o irmão de Bowie, Terry Burns, que sofria de esquizofrenia. A loucura era algo recorrente na família de Bowie, e a esquizofrenia de seu irmão, além de abala-lo muito porque...eles eram irmãos, oras — plantou uma paranoia na mente de Bowie que o perseguiu por quase toda década de 70: o medo de ficar louco. Apesar de mostrar simpatia pela loucura e até de certa forma ''romantiza-la'' na sua musica All The Madmen, na realidade Bowie tinha um medo mórbido dela . Talvez ele fez essa música justamente para aliviar esse medo, mostrando simpatia pelos loucos e pela loucura no geral...mas não adiantou.

Bowie então viu em suas habilidades como mímico uma chance de, além de misturar música com dramaturgia, fugir de sua iminente loucura. Assim nasceram as suas personas, uma forma que ele encontrou de escapar de si mesmo e ''transcender'' no processo. Sua primeira persona não foi uma persona na realidade, mas foi... digamos, um protótipo.

Bowie se inspirou em toda aquela vibe de exploração espacial graças ao  filme 2001: A Odisseia no Espaço e a chegada do homem na lua que permeava o fim dos anos 60, e criou em 1969 a canção Space Oditty, o maior hit de sua vida até então e responsável por alavancar a sua, na época, fracassada carreira.

Dizem que 2001 foi um mindblow tão grande para Bowie que ele passou um final de semana inteiro assistindo. Mais de uma vez.
A música conta a história de Major Tom, um astronauta que é lançado para fora da Terra e acaba consumido pelo vazio do espaço... não tendo nada que ele possa fazer.

Há outras teorias para o verdadeiro significado da canção, como uma de que a viagem de Major Tom pelo espaço na verdade era uma representação dos efeitos de heroína, e outra de que Bowie escreveu a música com o sentimento de se distanciar da Terra e ficar longe de suas complicações, e de fato desconexão com a realidade é algo bastante forte nessa música. E isso faz ainda mais sentido porquê Bowie a escreveu depois de ter terminado com sua então namorada, Hermione. Isso somado com a insegurança em relação a carreira, e a morte de seu pai também nessa época, deixou Bowie bastante abalado.

Mas enfim, como eu disse antes, Major Tom não era de fato uma persona, mas a criação desse personagem foi vital para as personas de verdade que surgiriam na década seguinte. Bowie inclusive chegou a encarnar Major Tom em um vídeo promocional — não aquele de 1973 que você deve conhecer, é outro, de 1969 mesmo. Dizem que depois que a gravação do clipe terminou, um dos câmeras saludou Bowie e o chamou de Major Tom. Ele ficou feliz, pois pela primeira vez era outra pessoa. 

A ascensão e a queda de um mito que virou real

Olha só que sujeito normal...


Já nos anos 70, mais especificamente em 1971, Bowie ainda não tinha o reconhecimento que queria. Space Oddity foi um sucesso....mas não se podia dizer o mesmo dos seus dois últimos albums, Space Oddity de 1969 ( que assim como o primeirão, se chamava apenas David Bowie, mas mudou devido ao enorme sucesso da música), e The Man Who Sold The World de 1970, que apesar de ser sensacional, só foi ganhar um certo reconhecimento décadas mais tarde quando o Nirvana fez um cover mequetrefe da música título.

Sim, Bowie ainda vivia na sombra do sucesso de Space Oddity, e temia que se tornasse artista de um hit só.  Isso mudou um pouco com o próximo álbum, Hunky Dory, de 1971. Um álbum muito mais leve, contendo um monte de música usando piano e guitarras acústicas, ao contrário do anterior que era quase metal.

Hunky Dory fez um relativo sucesso, e músicas como Changes e Life on Mars garantiram que Bowie não seria um artista de um hit só. Outra coisa a falar desse álbum é a música Quicksand, que retrata tudo que eu falei ali em cima sobre a paranoia de Bowie com a loucura.

Apesar do álbum ser bom, ainda não era o suficiente.

Então, para o próximo álbum, Bowie resolveu fazer diferente. Ao invés de almejar o sucesso, ele criou uma mitologia em volta do álbum, contando a história de sua primeira e mais marcante persona: Ziggy Stardust, um rockstar bissexual alienígena que já tinha o absoluto sucesso, e mais do que isso, era adorado como um salvador pelos seus fãs, trazendo uma mensagem de esperança para um mundo que iria morrer em 5 anos. Eventualmente Ziggy se deixa levar pelos prazeres humanos e é consumido pelas drogas e putarias, sendo morto pelos seus próprios fãs enlouquecidos em pleno palco durante a ultima música, Rock 'n Roll Suicide (existem outras versões desse enredo...mas vamos fingir que essa é a oficial e absoluta). 

E assim dia 6 de junho de 1972 é lançado o álbum mais emblemático de toda carreira de David Bowie e segundo minha humilde e irrelevante opinião, o melhor álbum conceitual que existe: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars. 

Para alguns, o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band dos anos 70


Para criar Ziggy, Bowie se inspirou em diversas, talvez um músico chamado Vince Taylor sendo a principal delas. Taylor foi um cantor excêntrico que fez um relativo sucesso no final dos anos 50, mas acabou consumido pela auto-idolatria de sua imagem e caiu no esquecimento, completamente louco se dizendo a reencarnação de Jesus Cristo e salvador da humanidade.

Além disso, Ziggy foi criado para ser uma paródia dos excessos dos rockstars da década anterior. É! Os anos 60 e toda a putaria e promiscuidade da contra-cultura, um movimento popular contra o capitalismo e a opressão da sociedade. Movimento esse formado por jovens cheios de sonhos e esperanças, com atitudes nobres, como lutar por paz mundial e não tomar banho. Apesar de  estar zuando, eu até respeito o propósito desse movimento...o problema é que como toda causa séria, foi banalizado por imbecis que não sabiam nem com o que estavam lutando.

Com pessoas como essa o movimento não duraria muito, e o seu fim quase oficial foi durante a música God de John Lennon, onde o pai dos hippies proclama: o sonho acabou. No entanto John estava enganado, Bowie sem querer querendo deu um pouco mais de vitalidade a esse sonho. Isso porque Ziggy Stardust não era só uma criatura excêntrica usando maquiagem, Ziggy era mais do que tudo, um símbolo de liberdade, em todos os sentidos.

Foi então que o mito virou realidade... mas diferente do Ziggy fictício, o real não duraria nem 5 anos

Ao contrário de Major Tom, Ziggy realmente foi encarnado por David Bowie, e os seus shows eram mais que um simples show de Rock, eram como uma peça teatral. Os jovens o adoravam quase realmente como um salvador e os seus shows eram praticamente um culto a ele. Principalmente depois de sua insana performance no programa Top of the Pops em junho de 72 cantando a clássica musica Starman, que marcou e influenciou uma porrada de  jovens da época que viriam a se tornar músicos, principalmente os do movimento post punk do começo dos anos 80. Pra se ter uma ideia, Bono Vox do U2 disse certa vez que o impacto de Bowie na Inglaterra foi equivalente a de Elvis Presley nos EUA.




O problema é que Bowie perdeu o controle sob sua persona,e acabou sendo consumido por ela.

Assim como na história do Ziggy, Bowie acabou caindo no vícios do rock and roll e dominado por sua persona, virava uma paródia dela mesmo. O mito se tornou real... até mesmo a parte ruim do mito. Essa ascensão meteórica somado com as putarias e a fama sufocante fizeram Bowie questionar sua sanidade mais do que nunca. Sua persona, uma arma criada para poder escapar da loucura....acabou virando contra si mesmo e o aproximando do que ele mais queria fugir. Bowie se associou tanto com Ziggy que não conseguia mais ''desliga-lo'' depois que acabasse os shows, tanto que ele dava entrevistas não como David Bowie, e sim como Ziggy Stardust (foi em uma dessas que ele disse ser bissexual).

Isso foi dominando sua vida ao ponto de ele não aguentar mais e em pleno auge, matar sua criação, antes que ela o ''mata-se''.



E então no dia 3 de julho de 73, Bowie anunciou oficialmente o fim de Ziggy Stardust em pleno palco, para o choque de todos, até mesmo da sua própria banda, The Spiders from Mars, tocando em seguida a ultima música, Rock 'n Roll Suicide provando mais uma vez que o mito se tornou realidade.

Mas a influência de sua persona alienígena era tão forte para Bowie que mesmo após anunciar o fim de Ziggy, não conseguiu se desvincular completamente dele...e sua seguinte persona não foi bem uma nova, e sim uma extensão de Ziggy...


Um Mano Insano

Assim como boa parte dos jovens ingleses roqueiros que cresceram nos 50, Bowie sempre foi fascinado pelos EUA, sendo fã principalmente de Little Richard. Dizem que quando Bowie ouviu a música ''Tutti Frutti'' do próprio Ricardo Nanico, ele disse: ''eu ouvi  Deus''. Bowie era tão fanático pelos EUA que quando criança gostava de uma das maiores desgraças da cultura americana, o futebol americano ! Haja fanatismo pra gostar dessa bosta!

Mas enfim, todo esse fascínio pelos EUA se misturou com estranheza e decepção quando Bowie  visitou a América durante sua turnê em 1972, ainda como Ziggy Stardust. Ele por um lado estava feliz por tocar na terra dos seus ídolos musicais, mas por outro queria sair de perto daquelas pessoas estranhas o mais rápido possível. E se a estranheza da sociedade americana chocou David Bowie, significa que era muito estranha mesmo. Essa confusão de sentimentos culminou em uma ''nova'' persona, Aladdin Sane, que na verdade era um jogo de palavras para A Lad Insane (vamos dizer que significa...um mano insano, ok?). Perceberam como, não importa o que Bowie faça, o tema loucura sempre o perseguia?


Uma das capas mais lendárias da história do rock


Dizem que o clássico raio na cara de Aladdin Sane representa essa dualidade de pensamentos...mas também já li que na verdade foi um improviso na hora da sessão de fotos, então não posso confirmar.

Enfim, sob essa persona, Bowie lançou apenas um álbum, com o mesmo nome, Aladdin Sane que saiu em 73. Esse álbum poderia muito bem ser chamado ''Ziggy vai para a América''...porque é isso que ele é, são observações de Ziggy sobre a cultura e a sociedade americana. Outra coisa a destacar nesse álbum é o pessimismo de Bowie em relação ao futuro, a música título por exemplo, tem do lado do nome Aladdin Sane,os números ''1913 - 1938 -197?'', cada data dessa representando os anos anteriores das duas primeiras guerras mundiais...o que significa que Bowie imaginava que a terceira guerra ia acontecer na década de 70.  Ainda em 73 Bowie lança o que pra mim é o seu único álbum descartável dessa década, Pin Ups...que é só um álbum de covers de artistas ingleses que o Bowie curtia nos anos 60...nada demais. Mas a capa é foda.

The Year of Diamond Dogs

Em 1974, após uma tentativa frustrada de criar um musical baseado no livro 1984 (já que a esposa do autor imbecilmente o proibiu) Bowie teve que se reorganizar completamente e decidiu criar uma história própria que seria o conceito do seu próximo álbum. Em um mundo distópico e pós nuclear, uma gangue de moleques selvagens domina o que restou de Manhattan — agora chamada de Hunger City, uma cidade podre e decadente, infestada por mutantes, violência, e talvez por trás de tudo isso, esperança. Essa gangue tinha como líder a próxima persona de Bowie — Hallowen Jack — e eles chamavam a si mesmo de Diamond Dogs.



Se no álbum do Ziggy, Bowie cantava desesperado sobre o iminente fim do mundo em Five Years, na música título de Diamond Dogs ele parece celebra-lo. Começando com uma narração como se estivéssemos presenciando uma história de terror, esse clima é quebrado completamente por uma das frases mais marcantes da carreira de Bowie dando inicio a ‘’festa’’:

This aint rock and  roll! This is genocide!

Abraçando com alegria sua natureza selvagem, os Diamond Dogs eram punks em uma época em que os punks ainda não existiam. De fato, com Diamond Dogs Bowie mostrou que estava a frente do seu tempo ao prever a explosão da cena punk que viria poucos anos mais tarde. As roupas zuadas, a atitude arrogante, tudo isso está presente em Hallowen Jack e no conceito da gangue Diamond Dogs. Se ainda duvida é só assistir esse vídeo da clássica música Rebel Rebel, é uma das raras encarnações de Hallowen Jack que existe por ai, pois a maioria dos shows que Bowie  fez com essa persona não foram filmados e não estão nem nos confins da internet (pelo menos eu não achei).


E falando em shows, Bowie não pretendia por enquanto largar o projeto de fazer musical, só que ao invés de usar o livro 1984, como base, ele resolveu recriar a cidade Hunger City de Diamond Dogs no palco e fazer apresentações teatrais cantando as músicas do álbum. Sim, isso seria foda pra caralho, mas infelizmente nessa época Bowie começou a se entediar com o rock convencional e estava muito desgastado com a maratona de turnês que tinha feito nos últimos anos...além de toda a doidera de suas personas. Com isso, infelizmente o projeto foi vetado, e Bowie tacou um foda-se para  Haloween Jack  no resto da turnê Diamond Dogs Tour, que mudou de nome para The Soul Tour.

Bowie que sempre teve a fama de se reinventar, agora passa por sua mudança mais significativa na carreira: de rock para soul...ou melhor, plastic soul, algo que já poderia ser notado nas últimas músicas de Diamond Dogs, 1984/Big Brother. Esse interesse por soul culminou no seu álbum mais diferente até então: Young Americans, de 1975, que mesmo sendo diferente, fez um relativo sucesso, principalmente com sua parceria com John Lennon, na música Fame. Mesmo eu não sendo fã de soul, eu gosto bastante desse álbum...exceto o cover que ele fez de Across The Universe dos Beatles que é muito...meh.



Mas enfim, não era só o estilo musical do álbum que era o diferencial, outra novidade é que esse é o primeiro álbum desde a criação de Ziggy a não ter uma persona de fato...ta, Bowie mudou sua aparência para um tipico cantor de soul, mas Bowie sempre mudou de aparência durante sua vida, e nem sempre isso significava a criação de uma nova persona. No entanto isso não significa que Bowie tinha.resolvido sua paranoia com a loucura, na verdade era aqui que tudo começava piorar.

A relação de Bowie com as drogas sempre foi estreita...mas nessa época ele desenvolveu um vicio por cocaína que iria atormenta-lo por anos, e apesar de todo o sucesso, se sentia cada vez mais inseguro com sua música, com sua carreira, enfim, consigo mesmo. Isso pode ser visto em uma música perdida de Young Americans chamada Who Can I Be Now?



Eu me pergunto por que diabos essa música foi tirada do álbum, pois não só pra mim é uma das melhores da carreira do Bowie. Talvez ela foi tirada pela letra ser muito pessoal, Bowie questiona se ele pode ser real com com tanta persona e alter-egos diferentes...mas mais do que tudo, a música é um pedido de ajuda de um cara beirando a loucura. Não importa o que Bowie fizesse, quantas personas criasse para escapar, era como andar em círculos, pois sempre voltava de frente com a loucura de um jeito ou de outro. E não demoraria muito para ele ser consumido inteiramente por ela...

De Kether a Malkuth



O interesse de Bowie por ocultismo vem desde o começo da década de 70, como na música The Width of a Circle do álbum The Man Who Sold The World, música essa que tem uma letra bizarra, sobre...invocar e fazer sexo com um demônio, ou um deus, ou um espírito, sei lá, e também na música Quicksand do Hunky Dory, que até mesmo cita uma sociedade secreta fundada por Aleister Crowley, a Golden Down. Mas em 1975, isso passou de apenas interesse para uma completa obsessão.

Bowie nessa época estava morando em Los Angeles para gravar o filme The Man Who Fell To Earth, e vivia em uma mansão de frente para o mar, em completo exílio. Um cara completamente fudido vivendo em um lugar assim, claro que iria surgir lendas macabras de como era sua vida nessa mansão...algumas podem ou não ser verdade, mas independente disso não deixa de ser bizarro: Bowie passava os dias sem dormir, com uma dieta de leite, pimentas e cocaína, guardando sua urina no refrigerador como ''proteção mágica'', assistindo filmes expressionistas alemães , ouvindo discos de bandas krautrock como Kraftwerk e Neu!, lendo compulsivamente livros sobre OVNIs, ocultismo, conspirações, nazismo, gnosticismo, e principalmente kabbalah, desenhando o simbolo da Árvore da Vida em todos os cantos da casa. Eu não sou nenhum manjão dessas paradas, apesar de gostar muito, mas pelo que eu li esse simbolo é um diagrama contendo 10 esferas ou estações chamadas sephiras ( que no plural é Sephiroth), cada uma representando as energias da criação e um aspecto de Deus. Resumindo, a primeira esfera, Malkuth (reino), representa o mundo e a mente material, e a ultima no topo da árvore, Kether (coroa), representa a suprema unidade/paraíso.

Enfim, tudo isso estava permeando os pensamentos de Bowie como um turbilhão, e diferente da música Quicksand de 71, onde Bowie se sentia ''afundando na areia-movediça dos seus pensamentos'', agora em 75 Bowie já havia afundado completamente. E foi nesse estado mental bem legal e descontraído que Bowie criou o álbum mais sombrio de toda sua carreira: Station to Station, começando a gravar pouco depois de terminado as filmagens do filme The Man Who Sold The World.

Mas esse álbum não é sombrio só por suas músicas (tem até uma bem humorada chamada TVC15) o álbum é sombrio pelo contexto em que ele foi criado...que é tudo que eu disse ai em cima. Ah, e também pela música título.

                                         
                                                ''It's not the side effects of the cocaine !
                                                  I'm thinking that it must be love.''

A música Station to Station é o ápice da carreira de Bowie. Sim, eu sei que falar qual música é melhor ou não é bem imbecil, pois isso varia de acordo com o gosto das pessoas...mas Station to Station  é o topo, é um resumo de toda  a história de Bowie durante os anos 70, toda sua loucura, sua paranoia, tudo que ele abordou , desde ocultismo, kabbalah, gnosticismo, Aleister Crowey, Nietzsche, cocaína, budismo,tudo isso em 10 minutos de pura maestria.Ela não é apenas mais uma música do álbum, ela É o álbum. Dizem que Bowie a gravou durante uma sessão ininterrupta em  uma madrugada inteira usando apenas cocaína junto com os outros membros da gravação para mante-los acordados...algo que eu não posso confirmar, mas que aumenta ainda mais o ''misticismo'' em volta da música. Bowie também desenvolveu nessa época um interesse pelo cristianismo como demonstrado na que pra mim, é a segunda melhor música do álbum: Word on a Wing .



Mas estou aqui pra falar de personas, e em Station to Station  temos a criação da persona mais bizarra de Bowie, The Thin White Duke, que é descrito como um aristocrata fascista, um super-homem ariano cantando músicas de amor de maneira vazia e fria, que apesar de ter uma aparência mais ''normal'' do que Ziggy, era muito mais perturbador. Se as outras personas foram criadas para afastar Bowie da loucura, essa aqui é a própria personificação da loucura.

Bowie não conseguia ''se desligar'' de Thin White Duke assim como na época do Ziggy, e dava entrevistas controversas apoiando o fascismo na Inglaterra, e dizendo quase que com admiração, que Hitler foi o primeiro rockstar. E pra aumentar ainda mais as tretas, Bowie uma vez foi fotografado supostamente fazendo o gesto nazista...mas na verdade ele só estava acenando. Mesmo assim, Bowie foi um dos principais alvos de um movimento chamado Rock Against Racism...que era um movimento contra o racismo (avá). Anos mais tarde Bowie desmentiu que fosse fascista, e disse que essa merda toda foi sob influência do Thin White Duke ( a quem ele chamou de monstro) e seu interesse pelos mistérios do nazismo na época.

E pra piorar, Bowie foi preso em 1976 por posse de drogas

Mas apesar da música Station to Station repetir como um mantra que já era tarde demais, não era tarde , não para Bowie, que mesmo todo fudido conseguiu escapar daquele inferno...se refugiando em um lugar que também já foi um inferno no passado , e que vivia um momento de miséria e melancolia : a Alemanha pós-guerra.

A New Carrer in a New Town

Igui Popular e Davi Boi
No começo dos anos 70,The Stooges , a banda de Iggy Pop, estava acabando. Era uma banda boa, tinha energia e talz, mas ninguém dava a mínima pra ela. Ninguém, menos Bowie, que admirava Iggy e via na loucura e esquisitice dele potencial para um futuro astro do rock. Os dois se conheceram, viraram amigos, e Bowie conseguiu fazer a banda se juntar novamente para fazer um novo álbum, álbum esse que foi mixado pelo próprio Bowie. Esse álbum é Raw Power, de 1973,considerado por muitos o primeiro e mais influente álbum de punk-rock. Bowie conseguiu transformar Iggy Pop de um rockeiro fracassado viciado em heroína para um dos maiores símbolos da história do rock...ainda viciado em heroína.

Já em 1976, os Stooges  tinha chegado ao fim de vez deixando um grande legado a ser seguido pelos jovens punks da época...enquanto  a carreira de Iggy estava em decadência...mas seu vício em heroína continuava firme e forte. Já seu amigo Bowie....bem, como disse ali em cima, vive o pior momento de sua vida, consumido pela loucura que o persegue durante anos, além de viciado em cocaína.

Então essa duplinha do barulho resolve partir para a Europa, no caso de Bowie, querendo se distanciar o máximo possível de Los Angeles...''Eu quero que aquela porra de lugar desapareça da face da Terra'', ele disse.

Após passar por diversos lugares da Europa, Bowie e Iggy se estabelecem na Alemanha Ocidental, em um bairro isolado e esquecido culturalmente, chamado Schoneberg. Bowie queria um recomeço, deixando pra trás a fama, o mainstream, suas personas, e principalmente sua loucura, por isso escolheu o lugar mais anonimo e perdido possível...ou talvez o seu interesse pela cultura alemã nos últimos anos influenciou essa decisão.

Mas claro que, não é por ir viver em um lugar totalmente novo com uma nova mentalidade, que todos os seus problemas seriam apagados magicamente. Bowie ainda estava quebrado emocionalmente e viciado em cocaína, mas o sentimento de recomeço aguçou a sua criatividade, produzindo os dois álbuns mais bem sucedidos da carreira solo de Iggy, The Idiot e Lust For Life, (como sempre, Bowie salvando o Iggy) ambos de 1977, além uma parceria com Brian Eno da banda Roxy Music,que resultou em 3 álbuns maravilhosos no que ficou conhecido como a Trilogia Berlin (mas apesar do nome, apenas um deles  foi gravado do inicio ao fim na Alemanha).



Essa trilogia é realmente um recomeço para Bowie, e marca uma mudança no estilo de som tão significante quanto com o álbum Young Americans de anos atrás. As músicas (principalmente dos dois primeiros álbuns) tem bastante influência dos pais da música eletrônica, a banda alemã Kraftwerk. Mas segundo o próprio Bowie, a diferença é que,  as músicas do Kraftwerk são feita inteiramente por máquinas, portanto são completamente sintéticas. Já o som da Trilogia Berlin, apesar dos sintetizadores e efeitos eletrônicos, ainda é um som orgânico feito por uma banda de pessoas...e não por pseudo-andróides como o Kraftwerk. Tá, ele não disse exatamente assim...mas de qualquer jeito isso não foi uma critica ao Kraftwerk, eles mesmos admitem com orgulho que o som deles é inteiramente feito por máquinas, e que pra eles, instrumentos como guitarra são ''pré-históricos''. Ok...

Enfim, o primeiro álbum da Trilogia Berlin...começou a ser produzido em 1976,  na França ! É Low, lançado em 77, pra mim o mais foda dos três. E é o álbum mais depressivo e introspectivo da carreira de Bowie...e talvez por isso influenciou bastante o movimento post-punk/new wave do fim dos anos 70. Por exemplo, Robert Smith do The Cure, disse que esse é o álbum mais marcante de sua vida.

O lado A do álbum é conhecido como ''day side'' pois é mais leve em comparação com o segundo,que é chamado de...advinha? ''Night side !''. Claro que isso não quer dizer que o primeiro lado é só alegria e festividade...as músicas mostram bem como Bowie estava lascado psicologicamente, como por exemplo nessa, chamada Be My Wife:



Ao contrário do que a maioria pensa...não acho que  Bowie fez essa música para salvar seu casamento com a sua então esposa, Angela Bowie. Porra, ele nunca ligou para esse casamento pra começo de conversa, tanto que eu nem mesmo mencionei até agora que ele foi casado ! Essa música pra mim é uma mistura de cansaço, indiferença (perceba como ele mal toca a guitarra no vídeo, tipo, ta se cagando pra isso) mas ao mesmo tempo desespero pra querer sair daquela solidão, portanto a ''wife'' que ele fala na música, não é uma pessoa especifica, ou talvez nem seja uma pessoa no fim das contas, e sim algo simbólico que tire ele daquela solidão. A música é uma mistura de vários sentimentos e emoções contraditórias, mas ao mesmo tempo, é uma musica sem emoção nenhuma. Não é a melhor música do álbum nem é minha preferida... mas é uma das que mais retrata com exatidão como o Bowie estava na época.

Ainda no day side, temos mais músicas ''simbólicas'', como Always Crashing in The Same Car que é uma metáfora para ''cometer sempre os mesmos erros'', e outras mais literais como Sound And Vision. A história dessa música é interessante: Bowie estava em seu quarto sentado em seu piano esperando alguma inspiração para criar uma música...e como a inspiração não veio, ele transformou esse sentimento de frustração  na própria música. Portanto é a letra mais literal do álbum, não é uma metáfora para alguma coisa oculta ou algo do tipo (pelo menos eu acho), é apenas Bowie cantando sobre o quarto ao seu redor, e sobre sua frustração e tédio em esperar inspiração, ou melhor ''os presentes do som e da visão''. Antes de falar do night side, uma informação inútil: essa é minha música preferida do álbum.


Agora sobre o night side...confesso que não sei o que falar. Ele começa com  a música mais ''épica'' do disco: Warszawa

No começo ali eu disse que Bowie passou por vários lugares da Europa antes de ir para a Alemanha certo? Um desses lugares foi a capital da Polônia, Varsóvia, ou Warsaw, ou em polaco mesmo, Warszawa.. Não foi por muito tempo, Bowie passou apenas uma tarde na cidade, mas algo nela mexeu com ele. Uma cidade desolada, em ruínas, devastada pela guerra tentando se reconstruir depois de ter passado pelo inferno.

Talvez Bowie viu na cidade um reflexo de si mesmo, eu não sei, mas ele não batizaria essa música com o nome da cidade atoa. E o clima de funeral que permeia por toda música, com aquele vocal bizarro no final que não pertence a idioma nenhum (alguns dizem que é polaco, mas não é verdade) parece confirmar isso. Ian Curtis era fissurado por ela, tanto que o primeiro nome de sua banda , uma das mais importantes bandas post- punk, Joy Division, era Warsaw em referência a essa música.

Mas Warszawa não está sozinha não sinhô, todo o night side tem esse mesmo clima estranho e ''sombrio''...o que desapontou alguns críticos imbecis, e a gravadora de Bowie, prevendo que Low não venderia bem. De fato não vendeu, mas Low não foi feito pra vender mesmo, foda-se a gravadora.

Low é um reflexo do estado mental de Bowie na época : um homem em pedaços. Mas  agora ele não estava criando personas para fugir dos seus traumas, ele estava os encarando de frente, aos poucos recolhendo os cacos e superando a loucura que tanto o perseguia nesses anos todos.

Talvez por isso os outros dois álbuns da trilogia sejam muito mais otimistas que Low. Heroes, TAMBÉM lançado em 1977 (porra, esse ano foi foda pra música) é mais conhecido pela música título. Eu sei que Heroes é uma das melhores músicas do Bowie, mas ignorar todas as outras do álbum é imbecil, pois esse álbum é foda. Tanto que até John Lennon curtiu, e que cá entre nós, ele era um cara bem chato em questão de música (vivia falando mal de suas próprias músicas da época dos Beatles). Uma coisa interessante sobre esse álbum é que, ele foi o único a ser gravado 100% na Alemanha, e o estúdio onde eles gravaram ficava bem perto do Muro de Berlin , o que inspirou na composição de algumas músicas...como a própria Heroes.


Bowie homenageou Florian Schneider, um dos membros do Kraftwerk, na música acima. E sim, resolvi colocar o vídeo dessa música aqui, e não o de Heroes, como pirraça pela imbecilidade de todo mundo ignorar o resto do álbum. Não que isso vá mudar só por causa desse artigo imbecil...mas enfim.

Lodger, de 78, é o álbum bastardo  não só da trilogia Berlin, mas da década de 70 inteira. Ele nem ao menos foi gravado na Alemanha...mas se encaixa na trilogia para tudo ficar mais fácil. Sua sonoridade é estranha, distante do clima introspectivo dos dois outros álbuns , mas ainda recheado de experimentações, tanto que o nome provisório dele seria '' Planned Accidents'', um nome que combinaria perfeitamente com sua proposta. Lodger surpreendentemente é o álbum mais difícil de se ''digerir'' da trilogia Berlin, e olhe que estamos falando de um período de pura experimentação. Ser considerado parte dessa trilogia custou caro para o álbum, pois ele é totalmente diferente dos dois anteriores, o que causou estranheza em todo mundo (parece que não se acostumaram com a constante reinvenção artística de Bowie) e por isso esse é um dos álbuns mais desprezados de toda a carreira de Bowie...o que é injusto, considerando que esse álbum é...muito bom, apesar de tudo.



Desde o seu inicio com uma literalmente viagem fantástica (e pessimista) na música Fantastic Voyage, passando por cânticos de tribos africanas em Move On, reggae em Yassassin, e até mesmo, uma volta as origens com Boys Keep Swinging, uma música que se encaixaria muito bem em seu período glam de anos atrás (apesar de parecer mais uma paródia ao machismo do que qualquer outra coisa), fechando o álbum de maneira simbólica com a música Red Money, um ''remake''da primeira música em que Bowie trabalhou nesse período em Berlin, Sister Midnight do disco The Idiot de Iggy Pop, encerrando definitivamente o período de ''refúgio'' de Bowie na Alemanha.

Um período que foi bastante importante para Bowie ''se limpar''. Sem mais personas, sem mais cocaína, sem mais paranóias, sem mais loucuras. Apenas música. Mas ao mesmo tempo em que Bowie estava a salvo daquele inferno que passou no meio da década, percebia que a década estava chegando ao fim. A melhor década de sua carreira, onde conquistou um espaço entre as lendas da música, e um status quase ''mítico'' graças a sua excentricidade e genialidade artistica. Mas também a década mais turbulenta da sua vida. Nos anos 70, Bowie viveu o que muitos artistas não viveram em uma carreira toda. E agora, essa década tão especial estava acabando. E quase como um pressentimento de que a década seguinte seria terrível artisticamente, e que nunca mais chegaria ao nível dos anos 70, Bowie resolve acabar a década como se estivesse acabando sua carreira, trazendo de volta o personagem que começou tudo.

Um certo astronauta perdido no espaço...


O Retorno do Major Tom



Como eu já disse mais de uma vez nesse artigo, o movimento post-punk / new wave foi muito influenciado por Bowie. Da androginia de Ziggy a melancolia de Low, Bowie era uma grande influência para os jovens da época. Havia até mesmo boates em Londres, onde jovens se ''fantasiavam de Bowie'' e escutavam suas músicas, um deles chamado Blitz Club. Mas Bowie inicialmente não via essa grande influência com bons olhos...era como se ele fosse um velho descartado, sendo admirado por uma nova geração que estava surgindo para ''passar por cima dele''. Mas por que diabos essa insegurança? Bowie já era uma das maiores lendas da história da música, e acabou de passar por um período terrível de sua vida, mas mesmo assim conseguiu exorcizar seus demônios e sair dessa. Por que se sentir ameaçado por um bando de criança melancólica? Bom...eu tenho certeza que serei muito xingado se algum fã de Bowie ler isso, mas eu não acho que era insegurança...acho era como se ele soubesse que estava chegando ao fim. Não o fim de sua carreira, calma, guardem suas pedras, até porque sua carreira continua até hoje, mas ao fim de seu período mais genial, a fim de uma década quase perfeita artisticamente, e ao fim de suas personas, que contribuíram e muito para o status ''místico'' de Bowie.

E o seu álbum de despedida dos anos 70 e considerado por muitos o seu ultimo álbum genial, é o maravilhoso Scary Monsters, de 1980. Juntando toda sua experiência com ''eletrônicagem'' da trilogia Berlin e um jeito mais convencional de fazer música, Bowie fechou uma década praticamente perfeita com chave de ouro.


Scary Monsters também é um dos álbuns mais pessoais de Bowie, como pode se perceber nos gritos de raiva na primeira música It's No Game e também em sua, talvez, música mais ofensiva de toda carreira, Teenage Wildlife, que é praticamente um ''vá tomar no cu'' para os jovens da new wave, principalmente para Gary Numan, a quem Bowie criticava publicamente.


Mas ao mesmo tempo que Bowie estava irritado com seu iminente ''fim'', ele parecia estar se conformando com isso ao matar os anos 70 de vez com a  música mais importante do álbum,  Ashes to Ashes.


Em Ashes To Ashes Bowie fecha o ciclo, trazendo de volta Major Tom, o primeiro personagem, a proto-persona que lançou Bowie para a fama. Será que ele voltou pra Terra? Será que ainda está perdido no espaço? Ou será que tudo não passou de uma alucinação, fruto de uma viagem muito doida de heroína? Não importa, Major Tom está de volta para enterrar a si mesmo, e junto com ele, todas as personas e loucuras dos anos 70. Mas o Major não está sozinho. Como se pode ver no brilhante e bizarro clipe que marcou a MTV, Bowie está vestido de pierrot, fazendo referência as aulas de mimica com Lindsay Kemp que iniciou tudo isso, andando como se estivesse em um funeral ao lado de uns moleques do Blitz Club , quase como dando o sinal verde e dizendo ''ae pirralhada,  eu tava puto com vocês mas, tranquilo podem continuar o que eu comecei''.

E assim termina os anos 70, uma época em que Bowie, talvez até mesmo para escapar de sua paranoia com a loucura e outros problemas, buscou ''transcender o mundo material''. Ele mesmo já tinha chegado a dizer que queria ser algo ''mais que um simples humano''. E tentou isso através de sua arte, de suas personas, do ocultismo, de religião, do casamento, do amor, das drogas, enfim, da porra toda, mas no fim tudo tinha falhado pra ele. Então pra próxima década Bowie desiste disso tudo, e se vende entrega totalmente ao mundo pop, com seu álbum Let's Dance de 1983, se distanciando de sua audiência mas trazendo uma totalmente nova...e maior,muito maior.

Bowie se torna uma estrela nível MIL, muito mais que na época de Ziggy...lotando estádios e ganhando milhões...mas sem a mesma ''magia''  de sua persona alienígena, ou de qualquer outra coisa que ele fez nos anos 70. Não me leve a mal, eu gosto do Lets Dance até, ele não é um disco completamente vazio, por trás do seu estilo pop dançante feito pra agradar até as vovozinhas de plantão, há uma certa melancolia no álbum. A música onde isso é mais evidente é Modern Love, pra mim a melhor música do disco onde Bowie demonstra claramente sua frustração com tudo que buscou até então.




Mas Lets Dance levou Bowie a um caminho sem volta. Tentando agradar a sua nova audiência, ele criou as duas maiores escórias de sua carreira, Tonight de 84 e Never Let Me Down de 87, além daquele dueto vergonha alheia com Mick Jagger. Foram manchas desnecessárias em sua carreira, ele mesmo admitiu que nessa época ficou perdido, sem saber o que diabos seu novo público queria, e se ao menos eles conheciam seu trabalho antes de Let's Dance.  Mas é admirável que ele tentou se recuperar com sua banda de vida curta, Tin Machine e com alguns álbuns muito bons e ousados na década de 90 e 2000, até mesmo no ano passado com seu retorno triunfal com The Next Day...mas cá entre nós...ele  nunca mais recuperou aquela ''magia'' e ''misticismo'' dos anos 70 que o fizeram  essa lenda que é. Isso  morreu e foi enterrado em Ashes to Ashes, mas continuará marcado eternamente na história não só da música, como da cultura popular em geral, influenciando artistas, filmes, games, quadrinhos, e tudo que for possível.

Mas o mais importante para Bowie é que mesmo sendo difícil, ele conseguiu deixar os fantasmas do passado pra trás, e agora é um cara de boas, completamente são, casado com uma super-modelo e eventualmente fazendo música, sem obrigação nem nada, e sim porque é isso que ele ama apesar de tudo.

Enfim, então aqui termino esse artigo, lembrando que não sou biografo profissional ou algo do tipo e talvez nem tudo que escrevi aqui seja 100% certo, são apenas minhas interpretações baseando-se em tudo que li sobre Bowie e...é isso. Agora com licença que vou escutar pela enésima vez o álbum do Ziggy.

Fui! Volto no dia MIL!

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