A beleza da simplicidade de Dragon Quest VIII : Journey of The Cursed King


Já fiz um artigo aqui mostrando como o gênero de jogos de plataforma foi da glória a decadência... e infelizmente os RPGs sofreram do mesmo destino, pelo menos nos consoles de mesa. Ok, temos muito jogo de RPG fazendo sucesso como o maravilhoso Dark Souls, Skyrim, Dragons Dogma, Dragon Age, entre outros por ai. Mas estou falando de um gênero especifico, os tradicionais RPGs de turno, chamado erradamente de ‘’JRPG’’ (até eu já insisti nesse erro, admito) por terem surgido no Japão, mas tal gênero não é restrito a esse país de malucos (Child of Light e South Park estão ai pra provar).

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Mas o que diabos isso tem a ver com o que vou falar aqui? Pois é estou perdendo o foco (algo que pelo visto sou especialista), não vou — até por que não sou o mais apto — falar da decadência dos RPGs nem das diferenças entre o oriente e ocidente, o que quero falar aqui é sobre um dos meus RPGs preferidos de todos: Dragon Quest VIII.

A Jornada do Dragão



Ta, vou confessar. Nunca fui muito viciado em RPG de turno como meus amigos aqui do blog. Mas, com o tempo tenho pegado cada vez mais admiração por esse gênero, ao ponto de Xenogears ficar facilmente no meu top 5 de games preferidos de todos os tempos...ou top3...ou top 2, tá, sei lá.

Esse meu interesse por RPGs foi desperto quando eu conheci um certo jogo chamado Dragon Quest VIII. No começo, com um pé atrás pelas batalhas de turno (que eu tinha um preconceito imbecil na época) mas com o tempo a beleza do game me contagiou, e quebrou qualquer tipo de preconceito que eu tinha com RPGs até então.

No game controlamos um sujeito sem nome e sem memória, que faz parte da guarda real do reino de Trodain. Dhoulmagus, o  bobo da corte de Trodain , cansado de humilhações e sedento por poder resolve invadir as câmaras secretas do reino e roubar um Cetro sagrado com enormes poderes. Então, pensando que virou o deus do universo, Dhoulmagus lança uma maldição por todo o reino, transformando todo mundo em pedra. Protegidos por uma espécie de selo mágico, o rei Trode e sua filha Medea não são atingidos pela maldição... Isso até o fdp do Dhoulmagus lançar outro feitiço diretamente pra eles, transformando Trode –no mestre Yoda- em uma espécie de Ogro, e sua filha Medea em uma égua, (fazendo dela a única mulher do universo a poder ser chamada de égua sem se sentir ofendida).


Então, nosso herói sem nome e sem memória que por algum motivo desconhecido até então não foi afetado pela maldição, embarca em uma aventura com o Rei Trode e Medea, além de seu camundongo de estimação Mouche, para irem atrás de Dhoulmagus, (sinceramente, já to cheio de escrever o nome desse cara, nome esquisito da peste) e acabar com a maldição. No caminho encontram com uma galera que por algumas circunstancias se juntam a eles, como o bandido badass Yangus, a feiticeira gostosa Jessica e Angelo, uma espécie de cavaleiro Templário metido a besta. 

Sim, o enredo tem uma premissa bem genérica e batida — e foi criticado por isso—  mas isso não é nenhum problema pra falar a verdade, pois a história é bem desenvolvida o suficiente pra te deixar interessado. Não temos nada de filosófico ou profundo como em Xenogears ou Breath of Fire por exemplo, mas os personagens são tão legais que eu não vou ser imbecil e criticar o jogo pela sua simplicidade. Até por que isso é o que define esse jogo: Simplicidade.

Quando for criticar algo, temos que primeiro ver as circunstancias e a proposta  desse algo, e no caso de DQ VIII, sua proposta não é e nunca foi fazer algo grandioso em termos de enredo nem algo revolucionário que fosse copiado por todos no futuro, e sim  usar a simplicidade a seu favor para construir uma experiência interessante e RETRÔ de maneira atualizada. Sim, retrô, pois essa simplicidade é típica dos RPGs antigos, lá do inicio dos anos 90 — aqueles que eu chamo carinhosamente e de nenhuma maneira de forma pejorativa de ‘’jogos formiguinhas’’.

Gameplay do cão





E por ter essa proposta retrô, Dragon Quest VIII segue uma formula bem "básicona" de se fazer RPG, como batalhas de turnos comuns sem frescura, encontros aleatórios com inimigos, um mapa gigante pra se explorar com várias dungeons, e claro uma dificuldade INSANA. Pois é, esse jogo é MUITO cruel e frustrante ás vezes, e espere passar muitas e muitas horas evoluindo seu personagem pra passar de um boss, se sentir fodão, e tomar uma sova dos próximos inimigos que aparecerem, repetindo o processo. Isso sem falar de ficar travado por não saber onde tem que ir e ter que conversar com todo mundo das cidades para descobrir. Bons tempos...

Claro que, se você for oldschool não vai se espantar muito com tudo isso, e é capaz que fique feliz com a dificuldade psicopata do game...porém, por ter saído em 2004/2005 — quando a galera estava começando a perder o interesse por RPGs de turno— DQ VIII, apesar de ser aclamado pela mídia como um dos melhores jogos de PS2, passou meio que despercebido por todo mundo, e foi criticado por muita mocinha gente por ser um RPG muito comum e difícil demais , sendo até mesmo taxado de ‘’um retrocesso para o gênero’’. Ai eu entro de novo naquele mérito de que, as pessoas primeiro tem que entender a proposta do jogo antes de criticar, além disso, pra mim, esse clima retrô é um dos principais charmes do game, um refresco para um gênero que de tanto tentar se reinventar estava aos poucos perdendo a identidade — e se perdendo no processo. Não me levem a mal, eu admiro demais a evolução dos RPGs durante os anos, novidades são SEMPRE bem vindas, mas o que há de mal em voltar as origens? Por exemplo, o sucesso de Final Fantasy IX — o ‘’retrocesso’’ dessa  franquia — é a prova de que as vezes voltar as raízes é bom.

Um level up para a franquia




Mas se Dragon Quest VIII é considerado um retrocesso para o gênero em geral, não se pode dizer o mesmo do que ele representa para a franquia Dragon Quest. Você pode até não acreditar, mas Dragon Quest  é uma das principais franquias de RPGs que existe  — inspirando até mesmo a criação do lendário Final Fantasy, criando assim uma rivalidade saudável entre eles — tendo um sucesso tão absoluto no Japão que dia de lançamento de DQ por lá é quase um feriado. Mas convenhamos, Dragon Quest passou muito tempo longe de ter uma evolução como seu concorrente.

Enquanto Final Fantasy VII revolucionava a porra toda com sua transição para o 3D, popularizando os RPGs de turno de vez por aqui no ocidente, Dragon Quest continuava parado no tempo. DQ VII de PS1 por exemplo, parecia um game de 16 bits... Não que isso seja algo necessariamente ruim (até por que sprites são uma coisa divina) mas tem que se considerar que estava na era 32 bits, onde todas as franquias estavam dando um jeito de transitar para o 3D, e o público estava acompanhando e ansiando por isso, portanto ter insistido em ficar com sprites 2D manteve Dragon Quest obscuro aqui no ocidente (onde era até então conhecido como Dragon Warrior) e vivendo na sombra do rival Final Fantasy.

Se a franquia carecia de uma evolução, Dragon Quest VIII foi o responsável por traze-la. Se não foi na jogabilidade e temática, que continuaram a mesma coisa— seguindo a tradição da série— foi pelo visual que teve uma evolução COLOSSAL, abandonando finalmente os sprites do passado.



Vê, isso daí é lindo até para os dias de hoje, e com certeza consegue peitar muito blockbuster que tem por ai, ein? Alguns podem dar os créditos para a Square por essa evolução sensacional . Vou explicar. Dragon Quest , originalmente era uma série da empresa Enix, rival da Square por muito tempo até a fusão das duas em 2003, formando a atualmente tão famigerada Square Enix, (imagino o reboliço que isso gerou na época) e Dragon Quest VIII foi o primeiro game da franquia fruto dessa fusão.

Mas apesar de talvez ter contribuído, o que faz DQ VIII ser tão especial e disparado o melhor de toda a franquia não é o dedo da Square, e sim da desenvolvedora independente Level - 5. Responsável por ter criado maravilhas como Dark Cloud e Rogue Galaxy, eles tiveram a sábia decisão de não optar por gráficos ''convencionais'' nessa transição da série para o 3D, e sim usar uma tecnologia que eles já estavam acostumados e que combinaria muito mais com o game: o Cel Shading, dando esse clima de desenho animado para o jogo.

Isso fez toda a diferença. Não que eu seja contra gráficos convencionais, mas não consigo imaginar todo o universo de DQ VIII sem essa maravilha de gráfico. Isso só prova que direção de arte competente consegue passar por cima de qualquer limitação técnica.



E já que estou falando da parte artística, o responsável pela arte do game — e o que contribui ainda mais para que os gráficos de desenho animado combinassem com ele — é nada mais nada menos que o lendário criador de Dragon Ball e Dr Slump (ninguém fala de Dr Slump) Akira Toriyama!

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Ta, isso não chega a ser novidade, Toriyama é o responsável pelo design dos personagens de Dragon Quest desde o primeiro game da franquia. Mas porra, com essa evolução gráfica e com o próprio estilo de desenho animado, na minha opinião é nesse Dragon Quest aqui que podemos ter um vislumbre maior da arte do cara, o traço inconfundível e simples dele é perfeito para a proposta do game, sem dúvidas. Além do mais, como não adorar imediatamente a arte que é IDÊNTICA a de DBZ? Impossível.

E falando em obra de arte, não posso de jeito nenhum deixar de falar da trilha sonora desse jogo...trilha sonora de DEUS putaquepariu! O compositor oficial da franquia é o MITO GENIO Koichi Sugiyama, mas foi nesse game que o cara se superou, criando essa obra prima diretamente do paraíso (na verdade foi na Tokyo Metropolitan Symphony Orchestra, mas vamos romantizar oras). Eu mal consigo expressar o quão eu admiro a trilha sonora desse jogo, que provavelmente é minha preferida de todas, tanto pela nostalgia MIL que sinto quando ouço quanto pela própria qualidade divina de cada música.



Então, todas essas qualidades contribuem de forma coesa para que jogar Dragon Quest VIII seja uma experiência inesquecível. O mundo do game, repleto de castelos, colinas, vilarejos, reinos, enfim, dão ao game todo aquele clima de fantasia medieval clássica. Claro que, muitos jogos já exploraram isso, mas poucos fizeram de maneira tão...tão poética quanto Dragon Quest VIII, inclusive dentro da própria franquia.

A beleza do game é tão grande que, pelo menos no meu caso, atropela qualquer frustração que se possa ter durante o jogo. Mesmo eu, que era inexperiente em RPGs e tinha um hate imbecil com batalhas de turnos, mal usava fast-travel, só para poder explorar todo canto do mundo do jogo. Sério, quando penso nesse jogo, não me lembro de momentos frustrantes ou coisa do tipo, o que me lembro é de um sentimento quase infantil, de se sentir em uma verdadeira aventura sabe? Poucos games são capazes de transmitir isso.



O problema de se rotular algo é que você fica só orbitando esse rótulo, e perde toda a beleza que a obra transmite, ou tenta transmitir. Dark Souls, por exemplo, é rotulado como apenas ''um jogo difícil'', e muita gente não percebe que a genialidade do game vai muito além de sua dificuldade. Dragon Quest VIII sofre do mesmo mal, muitas vezes rotulado de maneira pejorativa e imbecil como apenas um ''RPG retrô e difícil'', muitos falham em perceber que apesar de realmente ter uma proposta retrô, o jogo é muito mais que isso, sendo na verdade uma obra de arte. Mas uma obra de arte não por ser impecável tecnicamente ou por ter um enredo profundo e filosófico — isso tudo são qualidades MUITO bem vindas, mas Dragon Quest VIII prova que não são obrigatoriamente necessárias para se criar uma obra de arte, ás vezes apenas a beleza de uma simplicidade genuína é suficiente.

Considerações finais

Percebendo que os RPGs perderam espaço no mercado de consoles e com medo de que um ''DQ VIII da vida'' atualmente não daria certo financeiramente, a Square Enix resolveu transferir a franquia para um mercado muito mais seguro: o de portáteis. 

Assim é lançado Dragon Quest IX para o Nintendo DS, o primeiro da série principal a ser lançado exclusivamente para um portátil. Depois, se aproveitando da modinha  do crescimento dos jogos online, resolve jogar as tradições da série para o quinto dos infernos e lança para Dragon Quest X como um MMO para Wii e Wii U. A estratégia foi genial financeiramente e ambos os jogos fizeram um sucesso enorme, principalmente no Japão. Mas pra quem esperava um sucessor a altura de DQ VIII, é impossível não ficar puto com a nova direção que a série está tomando e com a covardia da Square Enix. A Atlus por exemplo, não tem esse medo, e Persona 5 pelo jeito vai manter as tradições dessa série, independente do risco ou não. Será que a Square Enix vai ter bolas pra fazer o mesmo algum dia? 



E é com essa pergunta que termino esse artigo...que sinceramente foi um dos mais divertidos de escrever pois tenho um tremendo carinho por Dragon Quest VIII. Se ainda não jogou, faça esse favor a si mesmo e vá jogar! Infelizmente ainda não temos essa maravilha na PSN(acho que só na japa)...mas ele ganhou um por para IOS e Android, portanto não tem desculpa, vão jogar.

Fui, volto no dia MIL!

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