Legacy of Kain: A simbologia e o conceito da realidade na ficção


Legacy of Kain é uma das séries mais impressionantes que existem no mundo dos games, com absoluta certeza. Inspirações sociais da nossa realidade, gnosticismo e muita subjetividade lhes esperam aqui, sem falar de uma boa dose de nostalgia.

Infelizmente, é mais uma daquelas séries fenomenais do século passado que caíram num "quase limbo", indo morar apenas nas lembranças dos jogadores que se divertiram nessa época. Os “analisadores” de videogames não existiam por metro quadrado, eramos livres de coisas como: "Ain, um serrilhado nesse joguinho, que lixo, esse jogo não presta" ou "como assim esse jogo não tem continue e save point por cada passo que dou no cenário?!".

Eu entendo sua raiva, Raziel, mas calma!
Não quero dar uma de velho chato que diz “No meu tempo as coisas eram melhores” – até porque ainda não sou velho, tenho só 72 anos e moro numa ilha deserta com meu brickgame apelidado carinhosamente de Jiban. Mas essas pessoas me entristecem. Apesar de tudo, ignorando certas mazelas do ramo,  o mundo gamer melhorou em VÁRIOS pontos, e isso é mais que excelente.

Enfim, mesmo sendo uma série em "quase esquecimento", ainda possui fãs que a guardam com imenso carinho, principalmente por causa de Soul Reaver. Conheço jogadores “novos” que se interessaram por toda a qualidade do universo da mesma também – não por serem hipsterzinhos de merda – mas por realmente reconhecerem algo bom, independente se é underground ou não, o que é obrigação de TODOS vocês, seus infelizes.

Deixando claro tudo isso, começo a falar dessa maravilha de uma vez, antes que vocês digam que estou enrolando, cof, cof!


Nos anos 90, Legacy of Kain foi planejado para ser lançado no Ps1 e no PC. Os responsáveis pelo primeiro jogo foram os manos da Silicon Knights, e a distribuidora era a Crystal Dynamics. Depois do primeiro jogo, Crystal tocou o carro pra frente sozinha junto com a Eidos (a Silicon vazou, porque batatas).

A série possui um enredo invejável, mais complexo e misterioso do que muitos imaginam, então preparem-se pra mais uma análise pouco convencional desse recinto esquisito na internet . Se não sabem o que lhes espera, no blog tem exemplos, só dar uma conferida. E como pretendo fazer com que o maior número de pessoas se interesse por jogar, spoiler leves, pessoal.

São cinco (seis) jogos ligados a série principal, todos contando determinada parte do enredo geral, não necessariamente em ordem cronológica, vou explicar mais na frente, pois cronologia em Legacy of Kain é um bagulho bem complexo.  Comecemos!

Conceitos do universo

Nosgoth



É o local que se passam todos os jogos. Uma terra misteriosa regida metafisicamente por nove pilares mágicos, cada um representando um princípio que rege a existência, e ligados diretamente com a saúde e equilíbrio de toda Nosgoth.

Montanhas, florestas, campos vilarejos e reinos só são alguns exemplos do quão vasto esse lugar é. Não fica muito claro se "Nosgoth" refere-se a todo o mundo ou só um continente, penso eu que o lugar na verdade é uma espécie de pangeia, já que o mar é localizado mais ao sul (no mapa).

 Existem três planos que fazem parte de Nosgoth. O Plano Material, o Plano Espectral e o Plano dos Demônios. Por mais que sejam separados dimensionalmente, todos eles fazem parte dos limites existenciais de Nosgoth.

Elder God (Deus Ancião)

É um das criaturas mais insanas e importantes de toda a série, inicialmente sendo introduzido em Soul Reaver.
"Razieeeel, você é digno"
Um grande e misterioso ser com tentáculos que habita nos confins de Nosgoth, abaixo da terra. Ele alega ser o motor da vida, a fonte de tudo que existe. Nos jogos, nos é revelado que ele é de suma importância para os acontecimentos de TODO o enredo. Em outras palavras, ele é um ser que guia a roda do destino como bem entende. 

A grande guerra de Nosgoth

Três raças dominavam Nosgoth: Duas com capacidades extraordinárias, os Hylden e Vampiros, e os mais singelos, os humanos.


Bem antes dos jogos, uma guerra entre as duas espécies poderosas foi travada. Os Hylden estavam desenvolvendo uma arma com o poder de acabar com a vida do planeta inteiro, só a existência da mesma já perturbava as leis que regem a realidade de Nosgoth.

Os Vampiros lutaram contra, em uma batalha que durou mais de MIL anos, consequentemente os vencendo e os banindo para um plano de pesadelos e demônios. Foi nessa época que os Pilares de Nosgoth foram levantados para selar os Hylden, que em retaliação lançaram a maldição de sangue nos vampiros, os fazendo sedentos pelo mesmo. Os Hylden foram considerados como um tabu, sendo referidos apenas como "Uspoken", e logo eles deveriam ser esquecidos pelas eras.

Os Nove Pilares

Como já disse antes, os Nove Pilares estão diretamente ligados com a saúde espiritual de toda Nosgoth, (ou todo o mundo), são de suma importância para manter o equilíbrio do local, além de servir para aprisionar os banidos do plano material, (os Hylden).

Eles alcançam infinitamente os céus e infinitamente abaixo da terra. São representados por uma ordem de feiticeiros conhecida como o Circulo dos Nove – cada feiticeiro guardião representa um principio dos pilares e também estão  diretamente e espiritualmente ligados um com o outro, (e com seus respectivos).


Pilar do Equilíbrio, do Conflito, da Morte, da Dimensão, da Energia, da Mente, da Natureza, do Estado e do Tempo.

Soul Reaver


É uma espada ondular forjada no inicio das eras. Seu objetivo é se alimentar de qualquer ser vivente que toque sua lamina. Está presente em todos os jogos da série – por sinal, aparece como título de 2 jogos da mesma – e desempenha um papel fundamental em toda a trama. Uma arma criada para drenar o sangue de suas vítimas, tendo sua natureza mudada para devoradora de almas em determinado ponto – mudança gerada ao contato com um ser espiritual em especial, e assim se tornando a Wraith Blade.

No geral, uma arma extremamente excelente in game, e com suas complexidades de gameplay mais exploradas no decorrer dos jogos.



O enredo e as motivações que o guia



Bem, já se perguntaram o por quê dos Hylden e Vampiros guerrearem entre si? O motivo é simples: os Hylden queriam se libertar da roda do destino, e a arma que criaram foi pra destruir o ser que regia tudo isso, o Elder God. Os Vampiros, por sua vez, eram adeptos desse deus, logo, logicamente foram contra. É assim que tudo começa no enredo, e esse fato gera inúmeras consequências.

Após vários acontecimentos, (que não vou contar, vão jogar!) os Hylden conseguem controlar um certo guardião do Circulo dos Nove, e acabam por corrompe-lo com determinadas ações. Tais ações corruptoras foram responsáveis pela insanidade e a desvirtuação de toda a Nosgoth, já que os Pilares eram diretamente ligados à existência espiritual de tudo.

E esses são os fatores iniciais das razões pra quase tudo que acontece no enredo. Os fatos, os personagens, suas motivações e os acontecimentos, tudo isso lhe espera se você for jogar o jogo, então o que tá esperando?

Falando nos jogos, vou dar um resumo básico sobre eles.

Os jogos

Blood Omen: Legacy of Kain



Foi o primeiro jogo da série, lançado pra PS1 e PC lá em 1996. Possui uma câmera de topo, lembra bastante Diablo 1 em seu design e consegue ser tão violento e assustador quanto. (Pois é, diferente de Diablo 3, o 1 dava medo, pra vocês que não sabem.) No jogo controlamos e descobrimos o passado de Kain. Aqui é mostrado como ele se transforma em vampiro, suas decisões, e o inicio da complexidade e das conspirações que cercam o destino dele e de Nosgoth.

Vejo muita gente dizendo que Kain é um "cuzão" ou qualquer mimimi imbecil do tipo, logicamente que são de pessoas que não conhecem o personagem e o quão bem planejado é o drama por trás de sua criação. É um ótimo clássico, com todas suas limitações temporais ainda é impressionante. Talvez exótico pra vocês que não forem acostumados.

Como todo jogo da série, tem um enredo e uma narrativa FENOMENAL, (principalmente pra sua época, digamos que nesse quesito, é um jogo atemporal). Recomendo pra você que for começar a entrar nesse universo.


Legacy of Kain: Soul Reaver



O segundo jogo da série é de longe o mais famoso. Se passa MIL e quinhentos anos depois do primeiro, e narra os acontecimentos de Raziel, um dos "filhos" de Kain, buscando sua vingança. Assim como para muitos, esse jogo é extremamente forte em nostalgia para mim, e uma das coisas mais incríveis dele é a dublagem, que é brasileira... De um game de MIL NOVECENTOS E NOVENTA E NOVE.

E se vocês acham que a dublagem é ruim por isso, olhem só a intro  DESSA MARAVILHA!!! 



Mais uma vez a narrativa mantém-se fenomenal, os gráficos melhoraram de forma providencial. O jogo agora é um plataformer, mantendo o design "darkness" do primeiro jogo. Uma espécie de protótipo de hack'n slash – e se você acha que DMC criou esses parâmetros do nada, se envergonhe.

Aqui a série ganha uma complexidade ainda maior no gameplay e no enredo.

Legacy of Kain: Soul Reaver 2




Continuação direta de Soul Reaver, lançado 2 anos depois. Abrange o universo da série grandiosamente, agora com tramas temporais e mudanças da realidade, começamos a conhecer mais sobre os eventos ancestrais de Nosgoth. Tem uma melhora gráfica notável, e na jogabilidade também, (foi lançado pra ps2 e PC). Aqui também temos o embate final da vingança de Raziel e um conhecimento magistral da roda do destino – infelizmente o jogo não teve a dublagem BR...

Blood Omen 2: Legacy of Kain




Se passa 200 anos depois do final de Blood Omen 1, e aqui voltamos a controlar Kain. Em outras palavras é só um jogo pra conhecer como Kain foi foda e resolveu os problemas de sua ascensão. O que não deixa de ser algo interessante. Em Soul Reaver 2 mexemos diretamente com o tempo, causando paradoxos e criando linhas temporais alternativas, essas que influenciam diretamente o próximo jogo da série. (Blood Omen 2 se passa numa época inerente aos acontecimentos principais de todo o enredo, é bom lembrar disso.)

Legacy of Kain: Defiance


Capa pra atrair fã adoidado
A série teve um declínio de popularidade já nessa geração do ps2 (algo que discutirei mais na frente), então o que os caras pensaram? Lançar um jogo com Raziel e Kain juntos! Fãs malucos correndo atrás, isso era garantido.

Defiance é uma bagunça temporal e dimensional causada por Raziel e Kain durante suas "aventuras", (por algum motivo não acho que essa seja uma boa palavra pra resumir....) o que resultou na busca de ambos em resolver e entender tudo isso. No jogo, podemos controlar os dois de forma alternada, é com certeza o que mais explora o enredo dessa série, graças a toda sua subjetividade e complexidade, além de deixar um ar de "sequência vindo por aí"... ALGO QUE INFELIZMENTE NUNCA ACONTECEU. Pertinente informar que esse é o jogo mais gnóstico de todos eles, talvez o que maior trata disso no mundo dos games.

Nosgoth (O jogo)



Antes dele ser lançado, alguns boatos começaram a sair na internet. Coisas como: "Reboot de Legacy of Kain" ou até mesmo "continuação de Defiance" faziam parte dos vários rumores. Vocês devem imaginar o quão feliz eu fiquei, presumo.

Mas aí, lançaram um free multiplayer com jogabilidade genérica visando apenas vendas e prender pessoas bobas na Steam 15 horas por dia, coisa que nem conseguiram, até porque esse jogo não fez muito sucesso. Filhos da PUT... – ok, o tema do jogo é legal, batalhas de humanos e vampiros de Nosgoth, EM NOSGOTH, isso é legal, sim, mas vão se foderem com esses jogos genéricos, não precisamos de mais deles!

A industria já nos faz o favor de cria-los a cada minuto tentando tirar dinheiro dos menos ajuizados. Não vamos ferrar com as séries legais e originais. Aconteceu com Onimusha, aconteceu com Legacy, e parece que vai acontecer com Breath of Fire também, PAREM.

Conceitos técnicos em geral



Bom, por mais fã da série que eu seja, eu tenho que reconhecer que Legacy of Kain nunca foi referência pra jogabilidade.

Então quer dizer que a jogabilidade é uma bosta?

Não, nem fodendo.

Blood Omen 1 e Soul Reaver 1 de longe são exemplos de ótimos gameplays da sua época (Soul Reaver 2 também, vai). Já Blood Omen 2 e Defiance não possuem uma grande evolução nesse conceito de jogabilidade – em contrapartida a narrativa e o enredo continuam excelentes.


"Então, aonde você quer chegar seu idiota flamejante?", você deve estar me perguntando. Olha, a série de Legacy of Kain começou muito bem, Blood Omen trazia um enredo incrível e original, além de singular desenvolvimento, CGs e uma boa jogabilidade. Soul Reaver, seguiu exatamente essas características. Mas aí chegou a próxima geração, um jogo agora pro ps2, gráficos melhorados, narrativa com a mesma qualidade. Mas e a jogabilidade? Não teve uma evolução tão grande assim.

O que eu quero dizer é: Legacy of Kain teve a grande sacada de ainda na era do ps1, formar um gameplay interessante, um "protótipo de um hack'n slash", como costumo me referir. Infelizmente ele não continuou evoluindo, parou nesse ponto, e ficou atrás em comparação as séries que realmente investiram nesse conceito.

E esse é o maior culpado da perda de popularidade de Legacy of Kain, em outras palavras, ele é uma maravilha que parou no tempo em seus conceitos técnicos, e foi parcialmente esquecido por isso. Por enquanto ninguém teve BOLAS suficientes pra reviver a série, e isso mostra o quão medrosa essa industria é.

Mas ainda guardo esperanças que um dia essa série volte, de uma forma honrosa, claro. Imaginem só uma empresa como a Ninja Theory sendo responsável por ela? Imaginem o gameplay insano que teria... Uow! (Vocês que reclamam do reboot de DMC por causa de um cabelo, se envergonhem.)

O design dos personagens e do universo que fazem parte é bem original. Bem longe do visual "vampiro menina fofa" de algumas séries por aí, huh?


Sobre a trilha, ela sempre combinou bem com a vibe do jogo, do mundo e dos seus personagens. Consegue passar bem a ideia do mistério desse mundo de Nosgoth, sendo fascinante por isso.


Um exemplo dessas maravilhas. Gosto dessa em especial pelas frases citadas durante a música, além da voz combinar com todo o clima do jogo, as mensagens que ela carrega sobre o enredo e seus personagens é fenomenal!

Vampirismo na sua melhor forma 


Talvez vocês já saibam, mas Legacy of Kain é um jogo de vampiros. Sua temática está bem explicita, não é difícil perceber. (Oh really?!) Mas esse jogo não trata de um amontoado de premissas do estilo jogadas na sua cara, unidas a alguma tentativa de formar uma historia em cima, como vemos em certas séries por aí.

Aqui há realmente uma profundidade e um significado consistente. Aqui vemos realmente o drama por trás da criação e da maldição dos vampiros e como ela afeta de forma social toda Nosgoth.

Além de ser extremamente importante narrativamente e acarretando desavenças no destino de todo o universo da trama, ainda carrega um peso dramático e psicológico nos personagens, e é sempre bom ver uma narrativa bem trabalhada sobre um tema que eu sempre admirei tanto, mas que só vivo me decepcionando em séries, jogos e filmes por aí.  Logo, palmas pra Legacy of Kain por ser um exemplo.

A simbologia e o conceito da realidade na ficção

Tudo em Legacy of Kain possui um significado. Seja filosófico, gnóstico ou crítico, está tudo lá, é só observar.




Bom, o Deus Ancião em Legacy of Kain é um "Demiurgo" – que na visão gnóstica é uma entidade arrogante por sua onipotência, que se considera criador de tudo e acha que devemos nos curvar a sua vontade – e é exatamente isso que ele representa na trama.

Para não perder seu domínio, cria guerras que abalam a estrutura de toda a população mundial, não se importando com a vida de ninguém, manipulando tudo e todos apenas para se manter na roda do destino.

Demiurgo é uma visão gnóstica de uma entidade egoísta, e acho sensacional a forma que foi sintetizada em Legacy of Kain.



A ascensão e o declínio do império de Kain, junto aos fatos e as formas de agir, se assemelham bastante com o império romano, e é bem legal notar essa similaridade. Também temos o exemplo do Circulo dos Nove, que remete bem a ideia dos nossos líderes governamentais, que tentam preservar a ordem, mas em vez disso provocam o caos, por sua corrupção.

Existem muitos fatores que se unem com a realidade, e abrangem uma inspiração social ou religiosa bem interessante. Mas falar delas me faria dar mais spoilers, o que pode estragar com a jogatina de quem pretende conhecer essa maravilha. Afinal, eu ainda pretendo faze-los jogar.

O desenvolvimento pessoal de ambos é incrível, durante toda a série.
Kain e Raziel são dois personagens que adquirem conhecimento, com isso se tornam os representantes da luta contra essas forças que nos guiam de forma forçada, um exemplo pra nossa realidade. É uma das mensagens mais fenomenais que consigo observar em Legacy of Kain, e é incrível jogar ciente dessa visão.

+Adicional

Existe uma HQ sobre Soul Reaver, da qual ainda não li, mas pretendo ler em breve, até porque adorei a arte. Informando pra quem se interessar.



Considerações finais

Eu não sou nenhum especialista em Legacy of Kain e em suas inspirações, apenas sou um fã que se fascina por essas coisas, e gostaria de saber se existem mais desses por aí que realmente se importam com essa obra. No mais, espero voltar a falar de Legacy of Kain no blog, e também espero que esse artigo consiga convencer alguns a jogar ou "rejogar" essa maravilha, quem sabe discutir sobre ela de uma forma saudável no futuro.

Também ressalto que  uma analise pouco convencional é uma série do blog e minha forma desregrada de expor minha visão pessoal sobre algo, (como qualquer um aqui do blog) mas, claro, com referência. Qualquer crítica, sugestão ou rage pelas piadinhas, pode colocar aí nos comentários.

E mais uma coisa:


Legacy of Kain é a melhor série de jogos de vampiro que existe!
Ha!

Até dia MIL procês

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