O anacrônico Samurai Champloo


SAMURAIS!!! Guerreiros habilidosos e disciplinados que viveram absolutos há seculos. Num período onde ser fatiado em dois pedaços no meio da rua não era algo incomum. Onde a honra definia sua vida e sua morte, e por sua vez, o seu legado. Uma era  que mesmo depois de tanto tempo, ainda fascina milhões de pessoas, por sua beleza, filosofia e cultura.

Um tempo bem diferente, o Japão  nem sonhava em produzir coisas desse tipo, por exemplo:




...

Talvez alguns prefiram como era antes...

MAS QUE PO--!
Um dia, alguém se inspirou nesse tema samurai que tanto admiro e uniu com referências de um estilo do qual também admiro bastante: Hip hop! (Hip hop de verdade, não aquele lixo nocivo que costuma a tocar na rádio, por favor).

Não sei o que levou essa mistura... Talvez, as batidas ágeis e os movimentos articulados do hip hop se uniriam muito bem com o estilo preciso e afiado dos samurais — não foi a primeira vez que alguma mídia fez uma releitura do tema usando um estilo mais moderno, mas aqui, isso atingiu um nível nunca antes visto!

Dessa fusão maluca, saiu Samurai Champloo, uma animação muito original dirigida por nada mais, nada menos que Shinichiro Watanabe!

E essa mistura tão impensável ficou boa?

Ora, é disso que vamos falar neste singelo artigo deste singelo blog!

E os avisos de sempre: Spoilers! Tentarei avisar nos momentos certos.

Não que eu esteja prometendo nada...


Samurai Champloo é um anime lançado em 2004, tem 26 episódios, e todos eles embalados ao hip hop! O estúdio responsável foi o Manglobe Inc, que já trabalhou com obras como Michiko No Hatchin, Ergo Proxy e Segonku Basara — e que belo histórico de trabalhos!

Em 2006 o anime ganhou uma excelente dublagem brasileira — apenas alguns erros de nomes em um ou dois momentos, algo tolerável — e acabou passando na Cartoon e na Play TV anos depois.

A dub br não deve em nada a original japonesa, que é ótima também, apesar de eu achar a br melhor.

Mas isso é questão de opinião, correto?

Como já disse antes, o diretor desta maravilha de anime é o Watanabe, e se vocês não o conhecem por nome, talvez vocês conheçam alguns trabalhos desse exímio senhor:

Duas “sides animations” pra Animatrix, ambas fenomenais.



Zankyou no Terror, uma animação recente e maravilhosa, apesar de um pouco atropelada.

Colocando a capa do album da Soundtrack porque ela é uma coisa linda
E Cowboy Bebop, que com certeza está no top animações da minha vida, e que todo mundo deve conhecer, porque quem não conhece é um bobalhão.


Ah, tem Space Dandy também, que ainda não terminei de ver, porém vou muito com a cara, só estou querendo um pouquinho de tempo pra ele... Não sou muito de acompanhar animes hoje em dia, mas alguns realmente merecem uma olhada.

Por coincidência ou não, todas as animações que Watanabe trabalhou estão entre as  que eu admiro com a força de MIL sóis, junto com suas trilhas sonoras, que são divinas também. Passei boa parte da minha vida ouvindo a trilha de Bebop. (Seatbelts é incrível. Já viram um Show ao vivo deles? É magia, aquilo!). E o ultimo ano ouvindo bastante a trilha de Zankyou, por sinal.

Vai ver... Quem sabe, talvez, apenas talvez, Watanabe seja MUITO foda, e tudo que tem o dedo dele, fique no mínimo ótimo. Não só em animação, como na trilha sonora também.

Ok, ok, e Samurai Champloo? 

Vamos por partes, não sejamos apressados.

Conceitos técnicos 

Quando somos apresentados a opening do anime, já dá pra sacar que estamos vendo algo bem único.

Some days, some nights!

Admiro muito animações de todos os tipos, e acho que já disse isso em algum artigo por aqui. Arte em movimento, putz, é um trabalho foda demais. E a animação de Samurai Champloo é soberba!  Pra quem realmente estima esse tipo de mídia, não deve ser difícil ficar feliz com o que vê.

Uma coisa que define bem esse anime é simplicidade. Tanto no seu enredo, quanto em vários dos seus elementos, mas de forma alguma isso o torna "raso", mas já, já falo disso.

O design da arte é estilizado, porém, simples. Então, temos partes onde vemos silhuetas dos personagens sem muitos detalhes. Como também há momentos onde vemos seus rostos bem detalhados, com alguns traços mais escuros e fortes. Dá pra observar que a arte do anime é bem inspirada num estilo mais surrealista. Algumas vezes, (poucas) mostrando realmente isso na sua melhor forma:



As cores são bem vivas, uma terapia para os olhos, principalmente quando a direção nos mostra as paisagens características desse belo país.




BAAANZAAAAI!

Mas a direção faz mais do que isso...

Lembram quando eu disse que os episódios são embalados ao hip hop? É mais do que em trilha sonora. As transições das cenas que entrelaçam os vários eventos de um episódio possuem uma característica de “batida”, uma clara referência ao trampo de um DJ de executar o sincronismo de seus ritmos. (DJs de verdade, não esses... Vocês sabem.) Pois é! Mas isso não é feito sempre, claro. Apenas o suficiente pra você sacar a ideia que Samurai Champloo quer passar.

A trilha sonora ficou em cargo de vários artistas do ramo, alguns exemplos são:  Fat Jon, Force of nature, Minmi, Midicondria, todos ótimos. Inclusive um que ouvi mais do que bastante, Nujabes! Já perdi as contas de quantas vezes ouvi as melodias desse DJ fenomenal, e do quão importante são pra mim. Ele foi sensacional em sua vida, o único artista que eu consigo ouvir em qualquer momento, com qualquer humor. As músicas dele realmente afetam meu estado de espírito. Um dia sai um artigo especial em homenagem a esse senhor, podem apostar.

A trilha logicamente combina bastante com a vibe do anime, e demarca bem momentos mais sentimentais, mais sérios ou totalmente descompromissados de humor, durante a sua narrativa. Já falei que gosto de Nujabes? Sério, vão ouvir. E isso vale para todos os citados acima.  Nujabes não é o único que trabalha aqui, todos são bons. Tenho o costume de ler várias coisas ouvindo essas músicas, e tô ouvindo nesse momento enquanto escrevo também, olha só...


Faz bem pra alma.

Conceitos do universo: O anacronismo de Samurai Champloo

Bom, vocês sabem o que é anacronismo? Anacronismo é aquilo que não se adéqua aos usos ou aos hábitos característicos de uma determinada época. Pra exemplificar, em Samurai Champloo temos a cena hip hop estabelecida no convívio social de um Japão há centenas de anos, e essa é bem a ideia do significado dessa palavrinha que eu acho tão legal. Esse anime usa esse conceito da melhor forma que consigo imaginar.



A cidade, os costumes, o dialeto e até a forma de se vestir, sintetizam bem a cultura hip hop, e isso é feito de forma tão natural, que é capaz de você nem perceber tanto, seu subconsciente se familiariza com esses conceitos automaticamente, já que são comuns pra gente. É realmente uma mistura de estilos que de alguma forma acaba dando certo.

Champloo significa “mistura”, e acho que isso combina bastante, huh?


SAAAMURAI!!!!!!!!

Uma observação, os diálogos no nosso idioma são bem fiéis, (na dublagem).  Há palavrões — não de forma descuidada — mas sim nos momentos pertinentes, claro. E cara, como eu admiro isso! Afinal, é bem raro os dubladores terem essa liberdade por aqui, principalmente em animes. Samurai Champloo se passa no período Edo, especificamente na era Tokugawa. Uma época de instabilidade política, perseguições ao cristianismo e de estrangeiros. E há exemplos disso sendo tratados durante o anime. Mas, como o narrador fala:

“Essa obra de ficção não é um retrato histórico preciso. E a gente se importa?! Agora cala boca e aproveita o programa!”

Apesar de tratar de muitos desses assuntos com humor e de forma natural com a narrativa, ainda há críticas bem montadas sobre esses temas, tanto do passado como do presente.



Temos um lunático com propósitos egoístas, usando as palavras de “deus” e enganando fiéis ignorantes para atingir seus objetivos, um estrangeiro homossexual buscando a cultura oriental para suas práticas e sendo perseguido por isso e facções antigoverno que buscam dar golpes de estado, entre outros exemplos. E o mais interessante nisso, tudo acontece de forma randômica durante os episódios, histórias fechadas que duram geralmente no máximo 3 episódios, e eu tenho tendência em adorar séries assim. Claro, se tiverem um tamanho adequado.

Geralmente acho perfeito 26 episódios pra animes, (com algumas exceções). 13 episódios deixa tudo atropelado, como vemos em Zankyou no Terror ou Shingeki no Bahamut, os dois únicos das novas temporadas que eu tive alguma vontade de ver nesses últimos tempos. Mas estou divagando aqui, continuemos!



Enredo



Como eu disse, simplicidade define bem esse anime. E a premissa do enredo e dos acontecimentos também. A história começa com Fuu, uma personagem de “peso”, e uma das 3 protagonistas da série. Ela tem o desejo de encontrar um “samurai com cheiro de girassóis”. Ela não sabe como ele se parece, seu nome ou qualquer coisa do tipo. Única informação precisa é que ele mora em outro extremo do país.

Por uma casualidade do destino, Fuu acaba conhecendo Mugen, um habilidoso espadachim que usa movimentos de breake dance e capoeira em seus golpes, uma mistura visual fantástica. E posteriormente Jin, um disciplinado ronin que vaga pelo Japão, com destreza e técnicas precisas, algo que é de praxe dos samurais, ele é bem tradicional nesse sentido, o que sempre acho sensacional.





Afinal, sempre fui fascinado por esse tema samurai, o mangá que cresci lendo foi Rurouni Kenshin, e meu mangá favorito de hoje em dia é Vagabond. E há outros mangás e animes desse estilo que adoro também. Lobo Solitário, Blade of The Immortal, Samurai Seven, Afro Samurai, Hanzo no Mon, Yuki, entre outros que não lembro agora. É, acho que é um tema que guardo uma grande estima, hein... E por incrível que pareça, só me dei conta disso enquanto fazia esse artigo.

Mas, olha só...

Voltando ao assunto. Aqui não temos nenhum enredo com complexidades multidimensionais ou estudos filosóficos sobre o porquê da existência humana. Apenas algo leve, com suas profundidades emocionais, tornando tudo bem cativante. Afinal, vocês sabem, complexidade não define qualidade sempre, lembrem-se disso. E isso vale especialmente para os “pseudos”. Sim, vocês! Ah... Como eu os odeio! Não existe uma linha do que é bom e mal aqui. São humanos agindo como humanos. Às vezes há compreensão, como também às vezes é necessário fazer o que deve ser feito. E certas decisões acabam por trazes consequências, muitas vezes desastrosas.

Então, espere humor, lutas incríveis e... vários feels...

Personagens 


Fuu, uma garota de apenas 15 anos, (lembro de ter ficado impressionado quando descobri a idade) espivitada, e moleca. Mugen, um rapaz de 20 anos, vagabundo, folgado e falastrão. E Jin, também um rapaz de 20 anos, centrado e sério, totalmente o oposto de Mugen. Três extremos de personalidades distintas unidas graças a uma aposta supostamente perdida, onde Jin e Mugen assumem o compromisso com Fuu de achar o tal dos samurais dos girassóis...

Devo dizer que as vozes brasileiras combinaram perfeitamente com eles. O Jin é o Kuwabara, Mugen é dublado pelo mano que faz o BÁTIMA (o novo). E temos a Fuu sendo dublada pela mocinha que fez a Izumi do Patlabor (Filme) — quem conhece Patlabor merece um biscoito — são dubladores excelentes e que fizeram um trabalho digno de palmas.

Os três são esteriótipos bem difundidos, temos Jin, que usa um óculos sem grau, (apenas por estilo) pra dar um ar mais intelectual pro personagem, que foi treinado em um dojo aos moldes mais convencionais possíveis. Mugen, com roupas mais largas e uma atitude mais agressiva e folgada, que praticamente improvisa sempre em suas lutas — dois gênios em combate totalmente distintos, e temos Fuu, uma garota mais nova, representando um lado mais dependente, porém que ainda assim sabe se virar sozinha em vários momentos, do jeito dela.



A relação dos protagonistas é demais. Um humor ao estilo mais infantil e bobo, porém que sempre me faz rir. Lembro que logo quando eles recém se conhecem, Fuu vai vê-los numa cadeia, no intuito de ajuda-los, claro. 

E o diálogo é mais ou menos esse:

– Ué... Não querem saber por que estou aqui? — Fuu indaga enquanto os dois olham pra sua cara sem perguntar nada.

– Não. – afima o Mugen rapidamente.

– Então tá bom. –  Fuu responde, enquanto se afasta. 

– Espera, espera! Eu tava brincando. – Mugen exclama.

Nos episódios, você cada vez mais se apega aos três, conhecendo suas manias, imperfeições e o background de cada um, e isso não se aplica apenas para nós telespectadores. Os próprios personagens acabam se apegando,  consequentemente criando um elo, e isso é interessante demais de se ver.

Que fofura de arte!

São decisões bem humanas que esses personagens tomam e tomaram durante sua vida, então é fácil se apegar e entender seus dramas. Se você já assistiu e sacou, ótimo! E para vocês que ainda não viram... VÃO LOGO. Nem precisam me agradecer depois!



Até queria falar de todos os episódios, dos três protagonistas e suas relações com outros personagens. Do episódio que o Mugen aprende a escrever, que é uma comédia. Do Jin dizendo "é hora de sair" pro samurai que fala dos vaga-lumes, algo que sempre me mata de rir. Do episodio de baseball, entre outros vários momentos que são mais do que sensacionais. Mas falar disso tudo num artigo seria inviável, quem sabe em outras discussões, talvez.

E hey, saquem só essa cena. Ela é um combo visual muito interessante. Talvez isso seja spoiler, ou faça você pensar que é... Bom, não é. Só veja quando ver o anime, de preferência. Essas viagens que o Mugen tem no limiar da morte sempre são fodas.



 + Adicional

Samurai Champloo também teve sua versão mangá, e assim como a de Cowboy Bebop, a qualidade deixa MUITO A DESEJAR. E eu acabei descobrindo da pior forma, comprando e gastando dinheiro... Afinal, o mangá era lacrado.

Sério, ele foi desenhado com o PÉ!  Porra, Masaru Gotsubo!

Mas, já tenho há tantos anos esse mangá aqui, que hoje até guardo um carinho por ele.

Lembro de nas paginas finais o artista se desculpar pela diferença DISCREPANTE de qualidade entre o anime, pelo menos ele estava ciente disso...

Mas, hey! Temos que ver o lado bom de tudo, as capas dos volumes são demais, olha só uma delas:




Considerações finais


                                             
Aqui termino mais uma análise pouco convencional neste recinto. E bem, fiz de tudo pra não dizer isso no começo, mas vou dizer de uma vez... Adivinhem só qual é o meu anime favorito?

Exatamente!

Eu tentei ser imparcial aqui, ok? Juro.

Samurai Champloo é meu anime favorito, não só por nostalgia de um tempo bom, mas sim porque ele é realmente incrível, e Cowboy Bebop tá bem perto, junto de outras maravilhas, um dia cada um ganha artigo, com certeza.

As endings desse anime sempre são belíssimas, músicas únicas que já perdi a conta de quantas vezes ouvi. E quero encerrar aqui com uma delas. Ora, ver esse vídeo pra muitos pode ser spoiler, então, se eu fosse vocês que ainda não viram o anime, deixaria pra ver depois.


É uma mistura de sentimentos que essa ending me traz...

Me despeço com essa melodia incrível, e recomendo ESSE artigo muito bom também sobre os conceitos de Hip Hop em Samurai Champloo, só clicar AQUI.

Até!


Postar um comentário

[facebook]

Flames

PedroTreck

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget