GENE - MEME - SCENE: Um MIL sobre Metal Gear Solid



Uma série única e que precedeu vários elementos nunca antes vistos nos games durante a sua trajetória. A complexidade do enredo, dos eventos que o contam, do gameplay e o do que mais pesa pra nós, a grandiosa interação dos personagens e seus conflitos internos e externos em colisão, são realmente de impressionar.

 Apesar de não ser a primeira nem a única série a trabalhar o lado social e emocional do ser humano de uma forma tão verdadeira, ela é com certeza única em sua forma de narrar todo o emaranhado de acontecimentos e uni-los, finalmente, a um gameplay tão bem arquitetado quanto a sua história.

Pois é, galera, um artigo MEGA ESPECIAL no Blog MIL, onde nós pretendemos abordar a série do nosso jeito, sendo três autores, cada um com suas particularidades e se focando em determinado tema e jogo da série. Mais apresentações são desnecessárias, creio, então vamos direto ao assunto!

Ah, e... SPOILER SPOILER SPOILER!!! Não jogou os games da série? Vai jogar, e se quiser, depois volta aqui. Estejam avisados.

Começando com o Pirata Verde, Vann.

Metal Gear Solid 1 - O destino definido pelos genes





Metal Gear Solid foi um jogo que marcou uma geração e trouxe de volta o gênero Stealth como nunca. Como é de costume da série, a cada jogo que passa só melhorias acontecem, tanto que Metal Gear continua se reinventando até hoje, mostrando mecânicas novas a cada título.


Mas antes de divagar muito sobre o quão esse jogo é importante pra mim, quero falar de alguns temas que Metal Gear Solid aborda, e todo seu significado. Como muita gente já sabe, essa é uma série famosa por sua complexidade, seus temas incríveis, e é nisso que quero focar, quero expor a mensagem que esse jogo nos passa, com o seu tema — mais do que simbólico — GENE.

O que diabos isso significa? Bem... vamos começar se situando no que acontece nesse jogo.

Introdução do Enredo


O jogo começa com o Coronel Roy Campbell dizendo a um certo soldado qual é a situação que ele encara ali. Este soldado é Solid Snake — o lendário herói conhecido por derrotar Big Boss e acabar com Outer Heaven e logo depois a grande base Zanzibar Land — e que decidiu se isolar no mundo e viver uma vida tranquila no Alasca, (com seus cães).

Mas como diria um "certo" alguém...

"A única coisa que satisfaz as suas ânsias... é a GUERRA! Tudo o que eu fiz foi dar um local para isso. Eu lhe dei uma razão para viver."  Big Boss em Metal Gear 2: Solid Snake

Snake é contatado por Campbell para se infiltrar em uma base com armamento nuclear perigoso, (Shadow Moses) que se encontra dominada por soldados rebeldes. Esses rebeldes são os Genome Soldiers — sendo, respectivamente, soldados que passaram por terapia genética — e a FOXHOUND — uma equipe de missões especiais dos EUA, onde se encontra os soldados mais habilidosos até então. Juntos, se auto denominavam "Sons of Big Boss".

A FOXHOUND tem poder militar e 3 reféns, um deles sendo o DARPA Chief, Donald Anderson (guardem esse nome: 1), importante para a tecnologia militar dos EUA, Keneth Baker, presidente de uma produtora de armas e sistemas de segurança conhecida como ArmsTech, e um soldado que se recusou a participar da rebelião. Mas o maior problema de tudo, é que eles também possuem a arma mais destrutiva e poderosa criada até então, a  Metal Gear REX, capaz de lançar bombas nucleares em qualquer parte do globo. Com isso tudo, eles planejam obrigar os EUA a entregar 1 bilhão de dólares, junto do corpo do lendário Big Boss, para assim usarem seus genes em soldados e criarem um exercito dos soldados  perfeitos.



Então a missão de Snake é muito simples e clara, se infiltrar em Shadow Moses, resgatar os prisioneiros e parar o lançamento nuclear de Metal Gear, de alguma forma.

E é ai que o jogo se desenrola, descobrimos que Snake tem um irmão gêmeo conhecido como Liquid Snake, o líder da FOXHOUND, e responsável por tudo isso. Liquid nos revela bastante sobre si mesmo, e sobre o próprio Solid. É através desses dois personagens que o tema GENE se desenvolve de verdade, mas claro que temos personagens que se aprofundam nesse mesmo tema, durante todo o jogo.

Mas o que diabos isso tem a ver com Solid Snake? Tudo é bem arquitetado pra passar uma mensagem aqui, já, já a gente chega lá, mas continuando.

Conhecemos no jogo a Doutora Naomi Hunter, que faz parte do time de apoio médico, e é especializada em genética. Na "briefing" do jogo, é revelado que ela injeta nanomachines em Solid para facilitar a sua missão e lhe dá auxilio por codec — em alguns diálogos, percebemos que ela decidiu estudar esse tipo de coisa para que, através dos genes, descubrisse a respeito de seu passado, sua família, e de quem ela realmente é, já que Naomi era uma órfã e nunca conheceu seus pais de verdade. Ela foi criada por seu irmão adotivo, uma pessoa que ela aparentemente tinha grande afeto, seu irmão, Frank Jaeger, vulgo Gray Fox, vulgo Cyborg Ninja.

Avisamos que ia ter Spoiler a rodo, não venha choramingar.

O sotaque dessa moça em MGS1 me encanta até hoje

Gray Fox e Snake tiveram um conflito em Zanzibar Land, onde Snake saiu vitorioso. Naomi, sabendo disso, criou um grande ódio por Snake, jurando vingança. Claro que a gente não sabe desses acontecimentos logo de cara no jogo (durr), muito menos desse seu ódio a Snake, porém, é uma coisa excelente de se observar,  estar ciente das suas motivações só aumentam mais a admiração por ela, e intensifica nossa interação com o game. Durante o jogo,  Naomi parece não demonstrar tanto assim seu ódio por Solid. Uma mulher que controla suas emoções à MIL.

Moldadores Genéticos - Os personagens

De cima para baixo, Sniper Wolf, Nastasha Romanenko, Naomi, Mei Ling e Meryl, com destaque.

Durante a missão, vemos grandes desafios, como os membros da lendária FOXHOUND, ( Genome Soldiers e etc). Snake precisa passar por cada membro para conseguir alcançar seu objetivo principal. Claro que ele conta com auxilio de vários personagens marcantes, além de Campbell e Naomi, temos a bela chinesa Mei Ling, uma analista de dados que sempre foi e sempre será a melhor "savegame" de todas. Também o auxilio da especialista em armas nucleares Nastasha (com um sotaque que acho muito sensual, diga-se de passagem), e de seu antigo mentor e camarada, Master Miller, um cara cujo maior marca são seus óculos.

Um dos importantíssimos auxiliadores de Snake é Hal Emmerich, mais conhecido como Otacon.



O rapaz responsável pelo design de Metal Gear REX, tem boas participações nesse jogo, é um personagem muito sentimental e meio... "durr" também, mas tudo isso faz parte da sua personalidade, ele é muito bem escrito. Sua utilidade principal no jogo é ser o "manjão" do REX e mestre na arte de Hackear. E é bom lembrar que é aqui que começa uma excelente amizade com Snake.

A outra é Meryl, sobrinha de Campbell, e o soldado que não quis se rebelar e acabou preso.


Meryl é a personagem secundária que eu acho mais legal que vemos in-game. É uma iniciante no campo de batalha,  e tem muito desenvolvimento. Também é responsável por mostrar um lado "humano" de Solid Snake, esse que muitas vezes se mostra um cara frio nas missões, começa a expor seus reais sentimentos pela mesma, se importando com ela, e isso é muito curioso de se observar.

E essa Meryl tem uma das andadas mais sensuais da vida, a mina anda rebolando toda hora!

...

Enfim.
Essa dupla > all

E por ultimo temos o misterioso "Deepthroat", que é de grande ajuda pro Snake em momentos perigosos, apesar de não atender ao chamado do Codec por algum motivo. A revelação de quem ele é não é muito surpreendente, ele é o Cyborg Ninja que aparece como inimigo desconhecido no jogo, e também é o grande amigo de Snake. Gray Fox, o qual eu já tinha dito lá em cima.


É, Gray Fox, que Solid havia supostamente matado em Zanzibar Land, — pois ambos SAÍRAM NA PORRADA NUMA PORRA DE UM CAMPO MINADO, e Solid foi o vencedor —  mas a verdade sobre Gray Fox é que haviam lhe capturado e colocado um exoesqueleto, lhe dando essa aparência de ciborgue. Ele é um dos primeiros testes para os Genome Soldier, que escapou de onde o mantinham, e depois simplesmente matou a pessoa responsável por sua "transformação", uma tal de Dra. Clark (guardem este nome: 2) e partiu para onde estava Solid Snake, pois após o trauma, sua vida pertence ao campo de batalha, como o Big Boss dizia: "não existe um mundo lá fora para um soldado, seu lugar é no campo de batalha".

Gray Fox é um dos melhores personagens da série, simplesmente pelo que ocorre com ele, e pelo o que ele passou a ser, e significar, não só a Snake, mas para outros personagens da trama, (Naomi, é um bom exemplo).

"Conflito está em nosso sangue. Não podemos negar isso. Eu nasci no campo de batalha... E eu vou morrer no campo de batalha. Tudo que posso fazer é lutar, Snake... Tudo que eu posso fazer é lutar."

Dando seguimento, aqueles que antagonizam o jogo, a famosa FOXHOUND.



O seu líder, Liquid Snake é o clone com os genes superiores de Big Boss, e segue o sonho de seu "pai", Big Boss, de fazer do mundo um grande campo de batalha. Liquid tem cabelos loiros, um mullet mítico e pele mais escura, somente essas são as diferenças dele para Solid Snake, pois de resto eles são exatamente a mesma coisa, (sem falar na voz).




Outro membro é Revolver OcelotUm rival vivendo uma mentira um especialista em torturas que parece que saiu de um típico filme de bang-bang faroeste, para quem manja mesmo, sabe o quão complexo é esse personagem. Durante o jogo, ele perde a sua mão para o Cyborg Ninja, algo que mais tarde será um fato importantíssimo para a série. Ele também é responsável pelos contatos de Liquid com o mundo exterior, sendo ele uma grande referencia para conseguir contato com nomes importantes em todo o globo.

"Nós vivemos em uma era triste. Imperialismo, totalitarismo, perestroika... a Rússia do século 20 tinha os seus problemas, mas ao menos eles tinham uma ideologia. Rússia hoje não tem nada."


Psycho Mantis: Perito em manipulação da mente, é um personagem muito misterioso que usa uma mascara de gás especial que lhe ajuda a entrar na cabeça das pessoas. Ele tem esse poder desde criança e conseguia ler os pensamentos de seu pai, que o desprezava muito e o culpava pela morte de sua mãe. Graças a isso, ele se revoltou, queimou sua terra natal e matou seu pai. É um personagem muito peculiar, seu passado e seus traumas são tremendos moldando quem ele é agora, essa figura fantasmagórica e bizarra, um homem que sofreu e decidiu usar isso na guerra.

"No momento em que somos jogados neste mundo, nós somos destinados a trazer uns aos outros nada além de dor e miséria"



Sniper Wolf: Uma bela mulher e uma das Snipers mais mortais do mundo. Quando criança foi resgatada por "Saladin" e cresceu vendo este homem como um herói, tendo grande consideração por Big Boss (é, ele é o Salada). No jogo, aparentemente tem um certo "romance" com Otacon, que continua dizendo a Snake não mata-la, que ela não é uma pessoa má. 

"Eu presenciei a brutalidade... a estupidez da humanidade através da mira de meu rifle."

Com a Sniper, ela passou a ver a guerra por outro ângulo, enquanto os selvagens ficavam dentro da guerra, como animais insanos, ela via a guerra de fora dessa loucura, tendo uma visão um tanto diferente e ampla da mesma, personagem 10/10 sem duvidas.
 

Decoy Octopus: Pouco se sabe sobre esse rapaz, apenas que é um mestre no disfarce, e morreu pela FOXDIE de Snake, ainda disfarçado como Donald Anderson, este por sua vez morreu antes nas torturas de Ocelot... por "acidente".

Rapaz estranho...

Vulcan Raven:  Um xamã gigante que carrega uma Minigun enorme, tem várias tatuagens pelo corpo e é capaz de resistir a baixas temperaturas com facilidade.  Tem grande sensibilidade espiritual desde sua infância no Alasca, e é um dos personagens mais curiosos do jogo.

"Você é uma cobra que não foi criada pela natureza. Você e o Boss... vocês são de outro mundo... um mundo que eu não desejo conhecer..."



Se está me perguntando o porquê de eu ter falado desses personagens, e os detalhado, simples. Cada um, de alguma forma, é importante para o crescimento de Snake como personagem, todos eles fazem parte disso.

The Twin Snakes -  GENE, e seu significado

"Eu sempre soube que um dia eu viria a lhe conhecer. O homem que roubou o que era legalmente meu... o homem que roubou o meu direito de nascer." -Liquid Snake




Solid Snake e Liquid Snake fazem parte de um projeto obscuro dos EUA, conhecido como Les Enfants Terribles, onde o objetivo principal é criar copias exatas de um grande soldado, para que estes estejam totalmente a controle do país. Esse "grande soldado" por ventura era Big Boss, o maior herói que o mundo já tinha visto, e o soldado mais temido e lendário de todos. Como Big Boss se rebelou contra o sistema, eles decidiram que ele era importante demais para simplesmente não o ter por perto. Então iniciaram este projeto para criar clones do mesmo... mas o resultado não foi tão satisfatório.

7 clones foram gerados, porém somente alguns deram "certo", apesar de que esse "certo" não fosse tão certo assim. Solid Snake é um desses clones, e é abordado no jogo como o clone com os genes mais frágeis de Big Boss, é ele que possui os genes inferiores do mesmo. Podemos notar algo disso.

Que algo? Calma, carai.

Liquid, durante o jogo, acredita que ele é o clone que possui os genes inferiores, mas como eu disse ali, Solid Snake é o portador deles, e Liquid teria os genes dominantes de Big Boss, sendo assim, geneticamente superior a Solid.

E é aí onde eu quero chegar.

Solid Snake, mesmo sendo tratado como um clone inferior, consegue sempre dar uma volta por cima e terminar a sua missão, passando por tudo aquilo como um verdadeiro gênio.


Liquid: Mulher estúpida! Se apaixonando por um homem que sequer tem um nome.

Solid: Eu tenho um nome!

Liquid: NÃO! Não temos passado, não temos futuro. E mesmo se tivéssemos, não seria nosso de verdade!

Solid Snake manda o "destino traçado pela genética" ir tomar no meio do rabo bem lindo, pois desde o inicio vemos ele sendo um exemplo de superação. Big Boss, em Outer Heaven, manipulava Snake para que a sua missão falhasse, mas mesmo assim, Solid continuou e provou que Big Boss estava errado por subestimar ele, e o derrotou  não uma, mas DUAS VEZES! E ele prova isso novamente em MGS, enfrentando seu irmão supostamente superior, e o derrotando.

Liquid só morre com um vírus que foi secretamente injetado em Snake, conhecido como FOXDIE, (responsável também pela morte de Kenneth Baker e Decoy Octopus). O vírus, quando entra em contato com a nanomachine de tal indivíduo, faz ele ter uma parada cardíaca, morrendo em instantes.

É, simples assim. Bem conveniente, não?

Isso mata Liquid, e Snake escapa de Shadow Moses — com seja lá quem você escolher, Meryl ou Otacon.

Como vocês devem saber, toda a série aborda os mais variáveis temas, um bem fácil de observar em MGS1 é a manipulação. Muita coisa acontece por de baixo dos panos, e esses fatos, vão ficando mais claros a partir do momento em que você avança na série.

Ocelot é um dos grandes responsáveis pelos acontecimentos do jogo, e ele atua como agente duplo para conseguir informações de REX e entregar para o presidente dos EUA. Os motivos disso até então são um tanto desconhecidos. Alguns dias depois o governo dos EUA nega qualquer envolvimento no incidente em Shadow Moses, não revelando as verdades a respeito de FOXHOUND e dizendo que todo o incidente foi resolvido por uma unidade de comando, tudo simples assim, e claro que as pessoas levam como verdade.

A especialista em armamento nuclear, Nastasha Romanenko, lança um livro chamado Na Escuridão de Shadow Moses: A Verdade Não Oficial. Que tem como objetivo revelar a verdade dos fatos, e ainda informa que alguns dos Genome Soldiers sobreviveram na destruição do lugar (lembre-se disso: 3), e isso encerra a rebelião em Shadow Moses, com uma "vitória" de Snake, uma vitória que no fim só deixou mais questões em aberto.



Snake: Até hoje, eu só vivi por mim mesmo. Sobreviver foi a única coisa que eu me importei na vida.

Meryl: Não é só você, é assim que todos são.

Snake: Eu só me sentia vivo mesmo quando eu encarava a morte de frente. Eu não sei, talvez esteja escrito em meus genes.

Meryl: Mas e agora? O que os seus genes dizem sobre o seu futuro agora?

Snake: Talvez seja a hora de eu viver para mais alguém.

Meryl: Mais alguém?

Snake: É. Alguém como você... talvez esse seja o verdadeiro jeito de viver.

(...)

Meryl: Então Dave (Solid revelou seu verdadeiro nome) onde iremos?

Snake: Hmm... Eu acho que essa é a hora de encontrar um novo caminho para a vida.

- Um novo caminho?

- Um novo propósito.

- Nós vamos encontrar?

- Nós vamos. Eu sei que vamos.



Bem, para mim, a mensagem final de MGS é sobre seguir seu próprio rumo, independente de seus GENES. Em outras palavras você, e somente você, traça seu próprio caminho. O humano é além de coisas definidas por eles mesmos, eles são criaturas fantásticas de fato, e podem sempre se superar.

"Você não pode permitir que você seja acorrentado pelo destino, ser governado por seus genes. Seres humanos podem escolher que tipo de vida eles querem viver. O que é importante escolher é que você escolha a vida... e então viva ela...

 Snake,você sendo parte do programa FOXDIE não é importante. O importante é que você escolheu a vida. Então viva!"  - Naomi Hunter

Seguindo, Flames com esse Mindblow que é MGS2.

A mensagem final de Metal Gear Solid 2 


Essa é a sequência direta dos eventos de MGS1 que fez um bando de bobalhão olhar torto pra mesma, afinal, trocaram o protagonista central, (até então) Solid Snake, um exemplo de soldado e testosterona, por Raiden, um "bishounen" que poderia facilmente ser confundido com uma mulher, (onde seria necessária uma "inspeção de choque" para tirar a duvida).

Certo, Sr. Presidente?

Vai ver ele tinha traumas com isso.

Foi então que MGS2 pegou todos os abobados que duvidaram dessa maravilha, eu inclusive, DE SURPRESA! Se mostrando um jogo espetacular e na minha humilde opinião, o mais único de TODOS da série.

“E por que você diz isso seu bob]ao em chamas?” você pode me perguntar.

Ora, mas é justamente disso que iremos tratar agora nesse artigo! Então vamos começar com calma e por partes. Não estou aqui só pra falar de "MEME", ainda tem muita coisa pra se questionar nesta BELEZURA!!!

Introdução do enredo 


Dois anos se passaram desde os eventos de MGS1. E o mundo, dessa vez, vive em uma tensão de “precaução” e medo por parte das potencias mundiais. Ocelot conseguiu escapar dos eventos finais de MGS1, que hoje é conhecido como Shadow of Moses Incident, e comercializou o projeto do Metal Gear com o MUNDO. Agora cada país com tecnologia suficiente possui sua própria versão do Metal Gear, e como é de praxe, muitos deles tentam atingir certa vantagem em relação ao outro, “manipulando a informação“.

Como assim, você pergunta?

Basicamente, eles tentam encobrir certos protótipos de Metal Gears ou qualquer outro armamento insano que eles tiverem da mídia e claro, dos outros países. Mais um caso de conceito da realidade na ficção, huh? Isso define bem toda essa série.

Na tentativa de evitar que toda essa “precaução” dos países resulte numa guerra mundial, organizações especiais são criadas para localizar, identificar e dar um fim de alguma forma nesses armamentos.

Uma dessas organizações se chama Philanthropy, criada por Solid Snake e Otacon. E o jogo começa com um dos seus planos em ação: invadir um navio cargueiro de óleo chamado USS Discovery. Esse que na verdade era só o disfarce para encobrir sua real carga, um fucking Metal Gear!


A missão parece estar dando certo e Snake adentra o navio sem ser percebido, até que ele percebe que ele não é o único invasor. Soldados russos mercenários liderados por Sergei Gurlukovich estão a bordo, juntos de uma mulher um tanto peculiar, Olga Gurlukovich, (sua filha) e ninguém menos que... Ocelot! Que substitui o braço que ele perdeu em MGS1, transplantando o braço do então morto, Liquid Snake.

Mesmo ciente da “festinha” que está pra acontecer no navio, Solid prossegue com a missão, e ao explora-lo, acha uma conferência secreta, onde um capitão da marinha está apresentando o Metal Gear Ray, que foi projetado para ser superior a TODOS os outros Metal gears!!!


Pra variar.

Solid consegue tirar fotos do mesmo e mandar para Otacon, até que a “festa” começa. É aí que Sergei invade a conferência e faz o capitão da marinha (Scott Dolph) de refém. Seu plano é vender o Metal Gear ao mercado negro e arrecadar fundos para reerguer a Rússia com um exército poderoso. Em outras palavras, Sergei é uma "viúva" do auge da União Soviética, e com saudades.

Vish
E é então que Ocelot, chega e mata Sergei e Scott, protagonizando mais uma traição. Ele ativa explosivos posteriormente implantados no navio e foge no Metal Gear Ray.

Avançando mais dois anos, agora estamos em 2009. O incidente do cargueiro (em 2007), acabou gerando um dos maiores desastres ecológicos da história e o governo – manipulando a informação – encobriu os fatos afirmando que o resultado da explosão foi um ataque terrorista do então dado como morto, Solid Snake. Pra tentar conter a destruição ambiental, foi construída uma base de restauração (Big Shell) que se tornou um símbolo de ecologia mundial.

Em 2009, mais um incidente que iria marcar o país, acontece. O Presidente dos EUA, James Johnson, é sequestrado junto com mais 30 agentes da sua proteção pessoal. Todos estão sendo mantidos como reféns no Big Shell, que foi dominado por mercenários que se intitulam "Sons of liberty". Eles querem "só" 30 MILHÕES de dólares pelo resgate e são liderados por uma organização conhecida como Dead Cell.  E pra uma situação extremamente drástica como essa, a SEALs – a maior força especial de operação tática do país – entra em conflito direto com os tais terroristas. E esse conflito vira uma ótima distração para infiltração de um agente secreto da reaberta FOXHOUNDE esse agente é o personagem que encarnamos in game: Raiden.




Guerra de propósitos




Na medida em que avançamos no jogo, conhecemos os personagens e seus propósitos. Todos inteiramente ligados de alguma forma com os acontecimentos mostrados até então. Ficando a par dos acontecimentos e vendo todos os lados, já começamos a perceber o quão grandioso esse jogo vai se tornando, e do quão poderoso ele é como ferramenta para se passar a sua mensagem.

E que mensagem seria essa? Calma, que chegamos lá.

Primeiro temos que entender os personagens e suas motivações, e a narrativa do jogo vai nos passando informações, cuidadosamente. A primeira informação a causar impacto é a de que o Presidente (James Johnson) traiu o próprio país, forjando seu sequestro e se juntando aos terroristas para adquirir poder, para se tornar alguém que realmente mandasse nas coisas.

E quem diabos teria mais poder do que o presidente dos EUA? Os ditadores da manipulação da informação no mundo, e consequentemente os que comandam tudo nele, os Patriots.


Seguindo o propósito de fazer parte dessa "comissão de poder", o Presidente se aliou a Solidus Snake (George Sears), que por ventura era mais um produto do Les Enfants Terrible e estava no comando da operação terrorista no Big Shell. Também foi o ex-presidente dos EUA, e peça chave para os acontecimentos que sucedem o desenrolar de MGS1. Afinal, ele foi o responsável pela tentativa de roubo do Metal Gear Rex (MGS1), que foi frustrada pela ação dos Patriots em explodir todo o lugar, criando a catástrofe conhecida hoje em Shadow of Moses. Fator causador da renuncia de cargo de Solidus e seu desligamento total com a organização.

Solidus apenas usa o presidente para atingir sua vingança contra os Patriots, criando um plano conspiratório para tal. Enquanto o Presidente queria se juntar a eles, Solidus queria os destruir. Mas, como eu disse na intro desse artigo, MGS trata sempre de um emaranhado de acontecimentos.

Resumindo, é coisa pra caramba que está acontecendo ao mesmo tempo!

O design de todo mundo, mas principalmente Fortune e Raiden, são bem melhores aproveitados nas concept arts.
Maldito modelador 3D.
Temos a Dead Cell, formada por Fortune, filha do capitão da Marinha morto no incidente (que teve Snake como culpado pela mídia) e buscando vingança do mesmo. Essa que por sua vez se relaciona com Vamp, um soldado extremamente habilidoso que possui um apelido baseado em sua... opção sexual. Esse que é bem importante aqui por criar uma certa rivalidade com Raiden, algo mais explorado em MGS 4.

Mais um membro é Fatman, especialista em bombas e com uma interação muito bem desenvolvida com o esquecido Peter Stillman. E temos Solidus Snake, o pivô dos acontecimentos da trama, e que eu vou explorar mais em breve.



Do outro lado, Temos o próprio Snake, que agora usa o nome de Pliskin, convenientemente por ter sido dado como morto, e junto com Otacon tenta cumprir seus objetivos. Temos Olga, agora com um suit-cyborg seguindo os interesses dos Patriots, por razões delicadas. Também temos Emma, a irmã de Otacon e que protagoniza uma interação sensacional e emocionante com ele e Raiden. E o próprio Raiden, um agente que apesar de ser extremamente treinado para ser ainda mais eficiente que Snake, está em sua primeira missão real e não tem experiência para tal. Pra finalizar, temos nosso amigo de sempre, Ocelot, supostamente adquirindo a persona de Liquid por razões de... batata. Coisa melhor explorada, também, no quarto título da saga.

Claro, existem mais personagens excelentes e com motivações, mas não vou citar todos aqui, quem sabe em outro artigo com um foco de análise diferente.


Fortune, a moça com a melhor theme da série. E quem discorda é cabeça de melão!

Raiden, o exemplo ideal.

Sua primeira aparição com certeza foi um CHUTE NO SACO da grande maioria que estava jogando. Acredito que se botassem qualquer um ali, teriam uma reação parecida, afinal substituíram o Solid Snake, certo?

Mas pra completar, o design do Raiden não ajudou em nada a sua recepção... Na verdade, o design 3D de MGS2 não ajudou quase ninguém, uma pena.

Oi, me amem

Estranhamente, essa parecia ser uma substituição bem impertinente. Primeiro temos a quebrada de clima descomunal com a apresentação mais nostálgica possível, em elementos para os jogadores de longa data, pra no final revelar outro personagem. E detalhe, os trailers do game mostravam Snake em missões, no lugar de Raiden, e essa sua aparição foi definitivamente uma ingrata surpresa. Seria apenas uma estratagema de marketing e divulgação do jogo, ou algo mais profundo planejado por Kojima?

Estaria ele manipulando a informação, hm?

Enfim, por mais que Raiden não inspirasse confiança como protagonista, ele conseguiu mandar um saudoso foda-se à todos, (eu incluso) mostrando-se mais do que fascinante, e com certeza o personagem ideal pra protagonizar esse jogo e passar a sua mensagem da forma mais impactante e palpável possível.

Por que, você pergunta?

Raiden sintetiza bem a falta de informação, seja sobre o que está acontecendo agora, sobre si mesmo, seu passado e tudo ao seu redor. Inclusive, nas próprias missões, ele  precisa muitas vezes ser orientado por Snake, que observa claramente a falta de tato do garoto pra resolver certas adversidades. 

Coisas que não podem ser aprendidas sem experiência em campo, garoto! Ou sem a memória delas, cof! 

Com o passar do jogo, Raiden tem muitas revelações e esse é começo do raciocínio sobre ele estar vivendo uma ilusão ou não. Primeiro, ele redescobre o seu terrível passado reprimido: recrutado ainda criança pelo assassino dos seus pais (Solidus) ele participou de inúmeros combates em guerra. Foi criado para ser um grandioso soldado, e ainda criança, já tinha matado soldados o suficiente para ser líder do seu próprio esquadrão.

Tal experiência, habilidade e frieza em combate, o deram apelidos como "Demônio Branco" ou o mais conhecido, "Jack, o Estripador". Quando a Guerra Civil da Libéria acabou, Raiden foi “resgatado” por um "grupo de apoio a crianças", e levado aos EUA, onde cresceu e reprimiu suas persona assassina junto de suas memórias passadas, criando uma personalidade totalmente diferente.

Raiden ainda garoto, no Army of The Devil
Mas não para por aí.

Rose, sua atual namorada e auxiliadora em sua missão, revela ser uma espiã dos Patriots, e que seu envolvimento com ele fazia parte de uma missão para que ficasse de olho em todos os seus passos. E apesar de Raiden logicamente ficar PUTO com isso, ela revela que realmente se apaixonou por ele, e ainda estava carregando um filho, do qual ele era o pai.




Também descobrimos que o Colonel, que nos orienta nas missões, é apenas uma IA projetada para iludir Raiden. E posteriormente ainda ficamos cientes que Raiden, na verdade, é fruto do plano S3: Solid Snake Simulation. Um projeto onde sua premissa se baseia em pegar um jovem saudável e treina-lo durante anos, virtualmente, o deixando capaz fisicamente e psicologicamente para cumprir qualquer missão real.

“Resgatar crianças”, sei...

Por sinal, isso, pode ser ligado com Ghost Babel, um jogo da série com enredo próprio lançado para GBC que, EM TEORIA, trata-se de uma VR mission de Raiden, servindo como uma prequel de MGS2, em outras palavras, mais parte da ilusão. Estaria Kojima, usando o conceito de manipular informação, já aqui?

Enfim, é especulação, mas uma que eu particularmente gosto demais.

"Tire uma soneca por enquanto... Jack."

E por fim, nos é revelado que o Big Shell é uma faxada. Na verdade, é um Metal Gear de tamanho família superior a qualquer outro já feito (ah, vá), criado unicamente pra ser uma base defensiva e ofensiva com o poder bélico mais extremo do planeta, com a capacidade de criar Metal Gears em massa e que Solidus pretende usar para atingir seu plano final.

Ok, chega!
Claro, existem mais absurdas revelações durante todo o enredo, se tem uma coisa que esse série faz, é te pegar de surpresa. E talvez esse é que mais faz isso de todos os jogos da mesma... pra fechar o raciocínio com Raiden, vou inserir mais um tópico, que por ventura, define bem MGS2.

A analogia, o controle da informação e a sua definição - MEME 

Isso já foi bem debatido por aí, mas uma definição simples e clara do que é "MEME" seria dizer que é um conceito de informação que se espalha. Informação munida com os costumes sociais de determinado povo, da sua época.  Em outras palavras, sua cultura.


E é aí que o antagonista da trama faz a sua genial analogia sobre tal conceito. Nos momentos finais do jogo, no confronto de Raiden e Solidus, ele discursa sobre o propósito do ser humano como espécie, que é passar seus genes e dar seguimento a sua linhagem.  Lembrando que Solidus era incapaz de fazer isso diretamente, por ser um clone e ser incapaz de ter filhos, ele dá sua versão da coisa.

"Nós nascemos com uma data de validade. Vida não é nada além de um prazo de carência para passar nossa informação genética para a próxima geração.  

Eu e meus irmãos somos chamados de "Les Enfants Terribles", monstros da natureza, com a habilidade de reproduzir convenientemente tomada. Tudo que eu quero é ser lembrado pelas pessoas, pela historia." - Solidus Snake

Então ele queria ser lembrado, ele queria que o seu legado fosse feito por seus atos, e passados pela história, pela informação. Pra completar, é a vez do Colonel IA maluca mostrar um  diálogo incrível, contextualizando para o receptor, (nós) a primeira reflexão da mensagem que esse jogo quer passar, explicando completamente o objetivo dos Patriots.

Desde o início da humanidade, tentamos guardar nossa cultura, passar nossos costumes, nossas informações. Com a nossa evolução, cada vez mais fomos capazes de arquivar nossos conhecimentos, principalmente com a evolução digital. Sendo assim, facilmente passados adiante, tudo que guardamos, acabou ficando a mercê de ser usado por alguém em suas próprias causas mesquinhas, a fim de manipular a humanidade.



Consegue  observar mais um conceito da realidade na ficção? A simples interpretação de algum conhecimento passado, de alguma guerra, morte ou credo, já pode se considerar uma faísca, e o perigo de gerar um turbilhão de acontecimentos é alto. Ora, existem MIL exemplos como esses na nossa história. Podemos nos considerar auto destrutivos pelo simples fato de não sabermos lidar com o que descobrimos.

Veja bem, a humanidade sempre precisou de um guia de comportamento. Somos naturalmente carentes de alguém nos auxiliando, e tendemos a acreditar no que queremos acreditar, no que parece mais confortável.

Mesmo que no fundo achemos que é mentira.

No final, apenas buscamos uma razão, buscamos uma forma de dar alguma substância pra própria existência, ser feliz, ficar em paz, tanto faz. Em outras palavras, somos EXTREMAMENTE manipuláveis, e o controle da informação é a chave mais contundente para nos guiar. Temendo o nosso despreparo para lidar com a "informação", temendo nossa própria ignorância sobre nós mesmos, os Patriots agem como nossos guardiões. Eles querem controlar toda a informação do mundo e de alguma forma nos proteger da nossa própria natureza de se auto destruir.

Segundo eles, não se trata de "censura", mas do gerenciamento do que deve ser passado pelas gerações, o que irá formar a sociedade em sua respectiva época. Esse é o plano central dessa organização.

E eles estiveram sempre no controle da situação, e todos os envolvidos – até mesmo Solidus – foram peças manipuláveis nesse jogo de poder. (Okay, Solid Snake vivo e agindo pela surdina foi algo não calculado por eles, e que com certeza ajudou muito pra frusta-los). De qualquer forma, os Patriots queriam fazer o mesmo que fizeram com Shadow of Moses, e tudo foi manipulado em torno disso, tudo foi simulado. É fácil você notar as similaridades na ilusão. E é incrível a sensação "nostálgica" ao ver os fatos do game, chega a incomodar, até que você entende e... UOW. Mindblow.



Compreendendo a realidade e a mensagem final


Quando Raiden tem seu sensacional embate final com Solidus e o vence, ele se encontra totalmente desolado com tudo que ele descobriu, sobre sua própria existência no mundo e sem saber no que acreditar. É então que Solid Snake aparece e solta um dos plots que mais me inspiram na série.

"Não há tal coisa no mundo como realidade absoluta. Muito do que eles chamam de real, é na verdade ficção.  O que você acha que vê é apenas tão real quanto o seu cérebro lhe diz que é.

Nós podemos falar para as outras pessoas sobre.... ter fé. 

No que tínhamos fé. 

O que nós achamos importante o bastante para lutar. 

Não é sobre certo ou errado, mas sobre o quanto de fé você estava disposto a ter, isso decide o futuro."

Raiden passou toda a sua vida vivendo uma ilusão, tanto em seus ideias, quanto em seus treinamentos e até mesmo no seu amor. Sua própria persona fria e assassina junto de sua mudança em "selar" essas memórias são subprodutos das decisões de outros. Em toda sua vida, ele apenas acatou ordens e nunca questionou sobre si mesmo, sobre o que estava fazendo. Ele expõe a ideia de manipulação de forma extremamente palpável, certo? É por isso que "Raiden é o personagem ideal". Ele foi propositalmente colocado para o player se familiarizar com a situação. Snake Solid, simbolo de confiança, foi o nosso "guia" e o Raiden foi o reflexo do jogador, da humanidade.

Conseguem traçar um paralelo? Solid Snake, inspira confiança, inspira respeito dos próprios inimigos e mesmo que ele fosse enganado, de alguma forma, ele tinha como lidar com a situação. Mas Raiden não demostrava isso, ele era constantemente duvidável, pelos inimigos, por nós e até por ele mesmo. A sensação que Raiden passa é de insegurança, pela sua falta de traquejo e isso é fácil de observar, de absorver.


Mas tudo que ele viveu, de alguma forma lhe deu uma experiência real. Como o Snake diz, "não tem essa de realidade absoluta", no final, lutamos por algo, mesmo que seja em meio de simples ilusões. Se você segue o que você acredita, se você tem fé no que acredita, então vale a pena lutar. Então esse "algo" pra você é realmente de verdade e isso que vai definir você. E quem sabe o mundo...

Usando o que ele aprendeu de Solidus  o mais próximo de figura paterna que ele teve  de seguir o "nosso objetivo como espécie", passar nossos genes, propagar a vida e nos manter no mundo, Raiden continua em frente com suas próprias pernas. Encontra Rose e pensa no seu filho, o seu legado. Ambos criam um relacionamento de compreensão mutua sobre a vida e protagonizam uma das cenas mais bonitas da série, pra mim. O que nós passamos adiante para a nova geração, são nossos ensinamentos, nossa cultura, parte de nós, usando a "informação", o tema chave que fecha esse ponto da série.

 "A vida é muito mais do que passar os nossos genes, nós podemos deixar muito mais do que DNA."

Agora vão tomar um água, reflitam e continuem com a parte do Uor e MGS3 abaixo.

Metal Gear Solid 3 - A perspectiva faz toda diferença




Mesmo com o final extremamente filosófico de MGS2 deixando muitas perguntas em relação a história e ao futuro dos personagens, KOJINHA Kojima surpreendeu todos de novo, e com MGS 3 decidiu voltar ao passado e revisitar o lendário Big Boss, um dos principais personagens de toda franquia e vilão dos dois primeiros Metal Gears de MSX. Mas dessa vez, nesse período de tempo em específico, Big Boss não era vilão e muito menos uma lenda, ele era apenas um jovem soldado em uma missão que definiria o rumo dos eventos posteriores na história da série.

Essa mudança de perspectiva em relação a Big Boss sintetiza bem o conceito de 'SCENE'', que é o tema principal de MGS3. Mas calma, há muita coisa pra se falar antes de me aprofundar nisso, então bora começar logo de uma vez.

Introdução do enredo 


O jogo se passa em 1964 no auge da Guerra Fria, ou seja, a época em que as duas maiores nações do mundo, EUA e União Soviética, estavam em uma treta sútil que poderia desencadear uma Terceira Guerra Mundial a qualquer momento. E no meio dessa tensão toda estava ele, o azarado Dr. Nikolai Stepanovich Sokolov, um cientista soviético especialista em foguetes que havia desertado para os EUA anos antes, e depois obrigado a voltar para a sua ‘’amada’’ pátria, em um acordo entre os dois países que deu um fim a Crise dos misseis de Cuba. 

Mas por que diabos Sokolov era tão importante a ponto de uma crise dessa proporção acabar por sua causa?

A resposta é simples. Sokolov era fundamental para um projeto secreto que daria vantagem aos soviéticos na balança de poder contra os EUA. Esse projeto era Shagohod, uma espécie de tanque que poderia lançar mísseis nucleares a grandes distâncias. Só que isso chamou a atenção do sádico Coronel Yevgeny Boristovitch Volgin, líder de um grupo de oposição do governo soviético que conspirava pra tirar o Primeiro Ministro Nikita Kruschev do poder e assumir o comando colocando alguém mais... manipulável no lugar. Se ele colocasse as mãos em Sokolov — e consequentemente em Shagohod — poderia conseguir isso e muito mais.



Na verdade, Volgin já tinha se aliado antes a um cientista também soviético chamado Aleksandr Leonovitch Granin — rival de Sokolov — para construir uma máquina de guerra, porém o projeto não estava dando resultados e  foi descartado. Granin eventualmente mandaria o projeto para um certo amigo nos EUA. Esse projeto foi desenvolvido anos mais tarde e ficou conhecido como Metal Gear.

Felizmente (ou não) para Sokolov, os EUA descobriram sobre Shagohod por meio de espionagem e prepararam uma operação chamada ''Virtuous Mission'' para infiltrar no território soviético e resgatar o cientista antes que Shagohod estivesse completo ou que Volgin conseguisse sequestra-lo. O cara escolhido para essa operação foi um agente chamado John (também conhecido como Jack)... que recebeu o codinome de Naked Snake (soa familiar, não?)


Snake era agente da Fox Unit, um grupo da CIA especializado em operações secretas desse tipo. Outros membros desse grupo que auxiliariam Snake, nessa missão, eram o comandante do grupo Major Zero, a fissurada por filmes Doutora Clark (Para-Medic) e o especialista em armamentos e tecnologia Donald Anderson (Sigint). Esse ultimo não fazia parte da missão diretamente e só se junta a equipe de auxilio a Snake bem depois, mas resolvi cita-lo aqui porque não só ele, mas todos os personagens citados nesse parágrafo são importantes DEMAIS pra história em geral da franquia, por isso eu repito o que o Vann disse lá em cima: guardem esses nomes.

Zero e Para-Medic

Enfim, voltando a falar do Snake, ele foi treinado pela lendária heroína americana The Boss, que ganhou esse título fodão e passou a ser considerada a ''Mãe das Forças Especiais'' depois de ter sido fundamental na vitória dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Ela, inclusive, também auxiliaria Snake durante a operação através de um submarino.

A presença de uma lenda como ela com certeza aumentaria muito as chances da missão ser um sucesso né?

...

Né??

Era o que parecia, mas quando Snake finalmente consegue resgatar Sokolov, o impensável acontece: The Boss, a pessoa mais importante do exército dos EUA deserta para a União Soviética e se alia a Volgin, o presenteando com dois mísseis nucleares americanos como prova de sua lealdade. Parte porque é bem inferior a ela, e parte porque estava em choque com tudo aquilo, Snake é facilmente derrotado por The Boss e jogado de uma ponte. Antes de cair porém, ele consegue pegar a bandana dela e a guarda como simbolo da forte conexão com sua mentora.


De uma hora pra outra, a presença de The Boss — que antes aumentaria as chances de sucesso da operação — se tornou o principal motivo de seu fracasso, e com a ajuda dela, Volgin consegue sequestrar Sokolov facilmente. A Virtuous Mission terminava com The Boss ao lado dos soviéticos e Sokolov nas mãos de Volgin... ficar pior que isso parecia impossível.

Mas novamente só parecia.

Volgin resolve usar um dos mísseis americanos que The Boss o presenteou, e explode a antiga base onde Sokolov estava trabalhando. Um peido americano em território russo já seria o suficiente para uma guerra mundial, imagine uma FUCKING EXPLOSÃO NUCLEAR?

O líder soviético Kruschev imediatamente liga para o presidente dos EUA, Lyndon B. Johnson e fala ''que merda foi essa que vocês fizeram cara? Tão doidão?'' (não com essas palavras, é claro). O presidente se defende dizendo que a explosão foi causada por Volgin e pela traidora The Boss. Kruschev estava pressionado a retaliar, mas decide dar uma chance aos EUA provarem sua inocência impondo uma condição: eles teriam que matar tanto Volgin quanto The Boss. Com o peso de uma iminente guerra mundial nas costas, os americanos não tem outra escolha a não ser aceitar e correr contra o tempo para preparar outra operação e cumprir o prometido.

Enquanto isso a Fox Unit estava prestes a ser desmantelada, e tanto Snake quanto Major Zero corriam risco de serem executados pelo fracasso da Virtuous Mission. Mas por ser discípulo de The Boss e consequentemente a pessoa que mais conviveu com ela, o governo decide que Snake é a pessoa ideal para mata-la e dão uma nova chance tanto pra ele quanto para a Fox Unit limparem seu nome. A nova operação é nomeada Cobra Comedor Snake Eater.




O crescimento de Snake como soldado


Snake era um excelente agente, que fora treinado por uma lenda e até mesmo desenvolveu com ela o ''CQC'' (Close Quarters Combat) um estilo de luta único para o campo de batalha. Ele certamente tinha habilidade, porém era ingênuo como soldado, ele sabia fazer o que tinha que fazer, mas nunca havia se perguntado  o porquê estava fazendo aquilo exatamente,  o porquê estava lutando.

Mas agora ele estava sendo forçado a matar sua mentora, The Boss, a pessoa mais importante de sua vida. E qual era natureza da relação dos dois? Algo romântico ou  meramente materno? Essa é uma questão bem difícil... pra mim a relação deles era tão forte e engloba tanta coisa que não da pra definir em uma simples palavra, nem eles mesmos sabiam exatamente o que sentiam um pelo outro. A conexão emocional entre eles era tão intensa que chega a assustar, por exemplo, Snake marcava os anos, meses dias e minutos que ficou sem vê-la, enquanto ela poderia perceber se ele ganhou peso ou não apenas ouvindo sua voz. É algo insano!

E ao ser obrigado a mata-la, Snake estava tendo que enfrentar pela primeira vez o dilema de ser um soldado, de que do outro lado da guerra não havia inimigos genéricos a serem derrotados, havia seres humanos como ele. Sim, eu sei que é meio difícil de enxergar Snake como um cara tão ingênuo assim, e talvez parte disso seja pela presença de Ocelot no game. É, Ocelot está no meio dessa treta toda desde o inicio, mas aqui ainda era um ''moleque'' arrogante que trabalhava para Volgin.



Tanto Snake quanto Ocelot são os únicos personagens que já conhecíamos pelos outros jogos da franquia até então, e ambos aqui aparecem como dois jovens não tão experientes. Porém mesmo assim, Snake acaba se tornando uma espécie de símbolo para Ocelot. No primeiro encontro deles, Snake consegue derruba-lo facilmente e o aconselha a trocar sua pistola por outra arma que combine mais com seu estilo, mais especificamente um revolver. Como vocês já devem ter percebido, Ocelot segue esse conselho durante sua vida toda, e ''Revolver'' até mesmo se torna seu codinome no futuro.

Ocelot no inicio via Snake como um rival de mesmo nível, mas com o tempo esse sentimento de rivalidade infantil se torna admiração, uma admiração que definiria as ações de Ocelot pelo resto da história. Já Snake via Ocelot como um moleque que tinha que aprender muito para amadurecer. Essa suposta superioridade de Snake em relação a Ocelot meio que camufla o fato que o próprio Snake precisava amadurecer como soldado. E quem melhor para ensina-lo do que sua própria mentora?

''O que vai ser? Lealdade ao seu país, ou a mim? Seu país, ou sua antiga mentora? A missão, ou o que você acredita? Seu dever com sua equipe, ou seus sentimentos pessoais? Você não sabe a resposta ainda. Mas cedo ou tarde você vai ter que escolher.'' - The Boss para Snake


Pois é, Snake ainda estava muito abaixo de The Boss, e a cada encontro dos dois durante o jogo ela tenta fazer-lo enfrentar esse dilema de frente e escolher entre seus sentimentos por ela e o seu dever como soldado. Entre uma surra e outra (porque Snake é oficialmente o saco de pancadas dela aqui) ela o ajuda a evoluir para poder enfrenta-la no futuro.

Parte dessa evolução é representada pelo grupo especial que faz o papel de principais chefes do game: a Cobra Unit.

De esquerda pra direita, The Pain, The Fear, The End, The Joy, The Sorrow e The Fury


A Cobra Unit é um grupo de soldados de elite criado pela The Boss em 1942 e que lutaram ao lado dela durante a Segunda Guerra Mundial. Eles eram tão leais a ela que ficaram conhecidos também como ''Sons of The Boss'', era como se cada um deles fizesse parte dela, fossem como uma extensão da própria The Boss.

Formado por The Pain, The Fear, The End, The Fury, The Sorrow e por fim a própria The Boss, que era conhecida como The Joy, cada membro do grupo tem como codinome características ou emoções derivadas do campo de batalha, e as habilidades ''sobrenaturais'' da maioria deles tem de alguma forma uma ligação com o que eles representam. The End  por exemplo representa o perigo da morte, e como ela pode ser sorrateira e acertar qualquer um de repente com a precisão de equivalente a de um sniper, enquanto The Fear é ágil para fugir e perito em camuflagens para se esconder, características do medo.

The Boss não precisava de nenhuma habilidade sobrenatural assim, ela seria um conjunto de tudo o que eles representam em uma pessoa só, um símbolo do que é um verdadeiro soldado. Derrotando cada um deles, Snake fica mais perto de ''alcançar'' The Boss, tanto literalmente como simbolicamente. 

Só assim ele poderia cumprir sua missão.

E falando na missão, acho que estou esquecendo de algo... não era apenas os Cobras e a The Boss que Snake tinha que matar, ele também precisava matar Volgin. O problema é que Volgin tinha sua própria fortaleza, Groznyj Grad, e dentro dela  Shagohod  estava sendo finalizado. Snake precisaria se infiltrar na fortaleza tanto pra matar Volgin quanto pra destruir Shagohod, e pra isso, felizmente, ele contava com a ajuda de uma... sensual aliada.

Porque MGS sem uma gostosa não é MGS!


Essa maravilha se chama EVA — uma outra agente americana que desertou para a União Soviética — enviada por Kruschev para dar suporte para Snake durante a missão. Ou pelo menos é o que ela diz. EVA consegue se infiltrar na fortaleza de Volgin sob o disfarce de Tatyana, ‘’namorada’’ de Sokolov, e fornece a Snake  informação, armamento e disfarces. Mas tem um diálogo dela que eu queria destacar:

EVA: ‘'Vir aqui me fez perceber algo. Metade do que foi me dito era uma completa mentira... a outra metade era uma mentira convenientemente construída''

Snake:'' Onde está a verdade então?''

EVA: ''Escondida nas mentiras.''

Mesmo sem Snake perceber, EVA mostra sutilmente pra ele a verdadeira natureza de toda essa missão ilustrando o tema central do jogo: SCENE

SCENE:

O tempo molda nossa perspectiva

Me escute, Jack (Snake). Só porque soldados estão do mesmo lado agora, não significa que eles sempre estarão. Ter sentimentos pessoais pelos seus companheiros é um dos piores pecados que um soldado pode cometer. Políticos determinam quem você enfrentará no campo de batalha. E políticos são algo vivo, eles mudam com o tempo. O que é bom hoje, pode ser ruim amanhã. - The Boss





Esse diálogo da The Boss salienta perfeitamente um dos significados de SCENE, o conceito de que nada é imutável, nada é absoluto, tudo muda . E essas mudanças afetam direta ou indiretamente a perspectiva das pessoas e da própria sociedade, inclusive dos políticos. 

Vou exemplificar:

Perto do final do jogo é revelado o verdadeiro propósito, não só de Volgin, mas também de toda a Guerra Fria: o Philosophers Legacy. 

Tá, mas o que raios era isso? Pra explicar é necessário voltar um pouco pro passado. 

Depois da Primeira Guerra Mundial, a galera mais influente dos EUA, União Soviética e República da China se reuniram secretamente e fizeram uma espécie de pacto, formando um grupo chamado ''Philosophers'',  com o nobre objetivo de juntar seus recursos e ideias para  evitar guerras desnecessárias ao redor do planeta. Porém com o passar do tempo os membros originais foram morrendo e a  filosofia do grupo foi mudando tanto até se tornar completamente o oposto do seu ideal original. A influência global desses caras começou a gerar mais guerras e conflitos, ou seja, tudo o que eles queriam evitar quando a organização nasceu.

Tudo mudou.



E então veio a Segunda Guerra Mundial, e percebendo o perigo da Alemanha e do Eixo, os Philosophers resolveram juntar os seus recursos no que resultou em uma fortuna de 100 FUCKING BILHÕES de dólares, e toda essa grana foi distribuída entre os três países do grupo. Esse é o Philosophers Legacy.

Com o dinheiro eles investiram em armamentos, bombas nucleares e super soldados (como a Cobra Unit, por exemplo), e tudo isso foi fundamental para vencer a guerra contra os Alemães. Mas a disputa interna por poder já estava corroendo os Philosophers nessa época, e aproveitando a confusão da guerra mundial, um oficial de alta patente do exército soviético chamado Boris Volgin conseguiu roubar todo o Legacy e escondeu o dinheiro em vários bancos ao redor do mundo, guardando a informação sobre o paradeiro deles em um microfilme. Sim, esse cara é pai do Volgin que conhecemos, a filhadaputisse está no sangue. Quando Boris morreu, seu filho Volgin herdou tudo e usou a grana pra, entre outras coisas, construir a fortaleza Groznyj Grad e financiar a parte final da construção de Shagohod.

Kuwabara Kuwabara

Sem o dinheiro  as tretas internas entre os Philosophers aumentaram e os dividiu definitivamente, com os três grupos — americanos, soviéticos e chineses — em uma guerra secreta pelo Legacy. Essa guerra tem outro nome nos livros de história, chama-se Guerra Fria.

Viu só? Três países resolveram se juntar por um objetivo, e depois esses mesmos países começaram a brigar entre si. A filosofia e os valores do grupo mudaram e se corromperam com o tempo, e a Guerra Fria é um produto dessa corrupção. O que começou como um ideal nobre se transformou em um conflito em escala global.

O tempo destrói e renova, antigos valores evoluem ou são descartados dando lugar a outros novos, e mesmo indiretamente as pessoas acompanham a essas mudanças. Mas esse é apenas um dos aspectos de ''SCENE''...

As circunstâncias também moldam nossa perspectiva

Pessoas e países são ambos mudados pelo seu ambiente. E pelas épocas. Existe um mundo de diferença entre esse país (União Soviética) e a America. Mas é apenas uma diferença de posição. Uma diferença de perspectiva. — EVA


Do mesmo jeito que o tempo e suas mudanças influenciam nossa impressão sobre a realidade, o ambiente em que vivemos ou o que acontece conosco durante a vida também influenciam.

Durante o game um monte de personagens são apresentados, e nós como jogadores temos imediatamente uma impressão sobre eles. Do tipo ''aff esse Ocelot vive atrapalhando o Snake'', ''eita essa EVA além de linda é de grande ajuda'' ou ''nossa como essa tal de Boss é fodona pena que é uma traidora safada''. Mas nossa impressão sobre esses personagens mudam completamente quando no final descobrimos a verdade sobre eles:

EVA na verdade era uma espiã enviada pelos chineses para roubar o Legacy. Ela não estava ajudando Snake, e sim o usando durante o jogo todo. Nessa história, é a Eva que engana a serpente. Se Snake conseguisse limpar o caminho matando Volgin, ela poderia pegar o Legacy facilmente. E foi o que ela fez, só não deu muito certo porque o microfilme do Legacy que ela pegou e levou para a China era uma falsificação.

Já Ocelot era um agente triplo, que fingindo ser subordinado de Volgin,, na verdade trabalhava tanto para KGB quanto pra CIA. Nesse sentido, apesar das várias tretas com ele durante o jogo, chega a ser irônico que na verdade Ocelot é o agente enviado tanto pela KGB como pela CIA para ajudar Snake cumprir sua missão. No final é Ocelot que recupera o Legacy, que fica com os americanos (por enquanto).

Ocelot, traíra desde sempre


E o maior plot twist do jogo: a verdade sobre a traição de The Boss.

Ela na verdade foi enviada pelos EUA para recuperar o Phlosephers Legacy, se infiltrando na trupe de Volgin e ganhando sua confiança fingindo que havia desertado. Mas quando o próprio Volgin causou uma explosão nuclear dentro do território soviético, a missão teve que ser toda reavaliada. Agora as circunstâncias mudaram e a até então heroína teria que morrer pelo seu país... como uma traidora que ela nunca foi.

Quando esses personagens são apresentados nós temos uma certa impressão sobre eles, mas isso é de acordo com o que o jogo quer nos mostrar naquelas circunstâncias (começo do jogo). Depois, em circunstâncias totalmente diferentes (final do jogo) nossa impressão sobre eles muda completamente, porque agora estamos vendo tudo com uma nova perspectiva. Agora imagine tudo isso em uma escala global.

Uma das coisas que MGS2 mostrou é que um seleto grupo de pessoas podem facilmente nos manipular, mas MGS3 mostra que nós somos tão manipuláveis que nem é necessário que tal grupo exista para sermos influenciados. Nós somos influenciados pelo lugar que nascemos, pelas circunstâncias e pela época em que vivemos, e por causa disso criamos e nos apegamos a mentiras convenientes.

Mas existe um caminho para escapar de toda essa influência, e essa é a mensagem final do jogo

O legado de The Boss


Depois de finalmente destruir Shagohod e matar Volgin, Snake finalmente chega no final de sua missão. Ele obviamente não sabe sobre a verdade, sobre The Boss, mas mesmo assim... no fundo ele sabe que não é possível que ela seja uma traidora. Snake não é um personagem feito para ser um reflexo do jogador (como Raiden foi), e ao contrário de nós, que no inicio do jogo conhecíamos só um ‘’fragmento’’ da personalidade de The Boss, ele a conhece por completo, como um todo. Mas mesmo assim, ele é um soldado, e precisa cumprir sua missão.

The Boss o espera num campo florido, que define bem a beleza poética dessa batalha, e porra, MGS é uma franquia que sabe muito bem fazer boss battles, mas pelo menos pra mim, não tem nenhuma melhor que essa. Enfim,  antes da batalha começar, The Boss, revela um pouco sobre o seu passado e percebemos como ela e Snake no fundo são iguais.

Há dois anos atrás, em 1962, The Boss esteve na mesma posição de Snake quando foi forçada pelos malditos Philosephers a enfrentar e matar seu companheiro da Cobra Unit, The Sorrow. Porém The Sorrow era mais do que um companheiro, eles já se envolveram romanticamente no passado, e essa relação teve um fruto, um filho que nasceu em pleno campo de batalha (não é revelado explicitamente, mas esse filho é nada mais nada menos que Ocelot). Foi um parto difícil (afinal, ela tava no meio de uma guerra na hora) que deixou uma enorme cicatriz em seu corpo, que ironicamente tem uma forma de serpente. Mas logo após nascer, seu filho foi tirado dela pelos Philosephers... e a cicatriz do parto se tornou um símbolo de sua dor. Mesmo ela sendo sempre fiel a sua pátria, os Philosepehrs lhe arrancaram tudo o que importava, e agora ela era uma mulher destruída... mas ainda assim, havia algo para o que lutar: um ideal.

Uma coisa interessante é que apesar de seu antigo codinome ser  ''The Joy'' (alegria), The Boss raramente sorri durante game, enquanto o fantasma de ''The Sorrow'' (tristeza) sempre aparece sorrindo.


‘’Você e eu somos iguais. Nós dois somos lentamente devorados pelo karma dos outros. Nós nunca teremos a chance de morrer pacificamente de velhice. Nós não temos um amanhã. Mas nós ainda podemos ter esperanças para o futuro’’  — The Boss

Em uma das disputas da chamada ‘’corrida espacial’’ os americanos resolveram lançar pela primeira vez um ser humano ao espaço. E a pessoa escolhida foi The Boss. Ao ir ao espaço e ver o planeta Terra de longe, The Boss teve uma revelação: apesar de todas as diferenças de culturas, dos conflitos de ideologias, das guerras imbecis... nós somos apenas pequenos criaturas vivendo em um pequeno planeta em algum lugar do universo. Um planeta sem barreiras, sem capitalismo, sem comunismo, sem leste ou oeste, sem Guerra Fria. Ela viu o mundo como um todo. E dessa experiência nasceu seu ideal: usar o Philosephers Legacy para refazer os Philosephers seguindo o propósito inicial do grupo, e assim criar um mundo unificado, onde as barreiras que nos separam não exista. Fazer com que o mundo se torne o que ele é de verdade: um só

Mas as coisas não saíram como planejado e a circunstâncias mudaram. Agora The Boss estava de frente de seu discípulo, e apesar de não te-lo treinado para eles se enfrentarem daquele jeito, no fundo ela estava orgulhosa. Snake finalmente a alcançou, ambos estão do mesmo nível e pelo menos nisso o governo dos EUA estavam certos: Snake era a única pessoa que poderia mata-la. E após uma intensa e emocionante batalha — repito, minha preferida de toda a franquia — Snake... mata sua mentora.

‘’ Eu te criei, eu te amei, te dei armas, ensinei técnicas e te doei sabedoria. Não tenho nada mais para dar pra você. Tudo o que resta para você levar... é minha vida. Um tem que morrer, e o outro tem que viver. O que sobreviver vai herdar o título de Boss. E aquele que herdar o título de Boss irá encarar uma existência de batalhas sem fim.’’ — The Boss

Um dos momentos mais emocionantes que eu já vi em um jogo, não é exagero.

Com a morte de The Boss uma nova lenda nasce e Snake se torna Big Boss... e através dele o legado de The Boss continuaria vivo. Mata-la, descobrir a verdade sobre sua ''traição'' e sobre a operação Snake Eater foi uma experiência devastadora para ele, o fez perceber que países hoje inimigos amanhã se tornam amigos, num ciclo infinito onde soldados como ele e The Boss são apenas fantoches descartáveis. Ele (e algumas outras pessoas) dedicaria a vida para mudar isso e fazer com que o ideal de sua mentora se tornasse realidade, e assim criar um mundo onde soldados não seriam apenas ''brinquedos'' no jogo de guerra entre os países. Isso o manteria vivo, mas também seria a semente que cresceria e o transformaria no ''monstro'' que conhecemos nos Metal Gears de MSX.

Antes de MGS3, nós só conhecíamos uma parte de Big Boss — o vilão cruel e filho da puta — mas após terminar MGS3 e ver sua história trágica, nós nos sentimos do mesmo jeito que The Boss ao ver a Terra do espaço: vemos Big Boss como um todo, por completo, e passamos a entender melhor porque ele se transformou em um vilão.

Pra mim essa é a mensagem final do game, nós somos influenciados — seja pelo ambiente ou época em que vivemos — a ver as coisas apenas por um lado, de acordo com nossa perspectiva, e isso causa interpretações erradas que por sua vez gera os conflitos... seja uma briga imbecil de torcida, ou uma guerra nuclear.

O caminho para escapar disso é não se deixar afetar por essas influências, não enxergar o mundo dividido de acordo com sua perspectiva pessoal, e sim — como a The Boss— enxerga-lo como um todo.

Considerações finais


Vann: Mesmo que toda a série me fascine de um jeito único, é MGS 1 que sempre esteve na minha memória da forma mais incrível que poderia estar, com a sua jogabilidade estupenda, a melhor trilha sonora da série (na minha opinião), personagens marcantes e a melhor dublagem que já vi em um jogo.


Certeza que isso tem a ver com a nostalgia em primeiro lugar, joguei esse jogo quando moleque e desde então, vi a série crescer e crescer ainda mais, e no processo, acabei crescendo com ela, como um indivíduo e expandindo meus conhecimentos, e mudando a minha mentalidade com o tempo, Metal Gear sempre esteve por aqui.

Esse enredo tão complexo que eu nem entendia na época, só posteriormente que fui sacar de verdade, uma mensagem sobre como se erguer no mundo mesmo com as dificuldades apresentadas, ir além de um destino maldito que foi traçado pelos outros para você, sempre superando suas capacidades. Hideo Kojima merece aplausos pelo trabalho dele.  Continuo aprendendo coisas novas com o jogo, mesmo depois de tanto tempo, eu queria falar um pouco sobre outros temas como Armamentos Nucleares e outras coisas que são apresentadas no jogo, mas ai o texto iria ficar bem maior e não tem muita necessidade de apresentar isso lá, mas é foda como MGS mistura fatos reais com o seu universo surreal. 

Eu diria que tenho uma preferência boba por MGS 1 (o originalzao, não o remake de gamecube, esqueça aquilo) mas é impossível não gostar de praticamente todos os jogos da série, até seus spinoffs são bons, de certa forma.

Pra encerrar apreciem a arte de Yoji Shinkawa em todas essas ilustrações no artigo! As ilustrações acima são todas dele (tirando a da introdução de enredo de MGS). O seu trabalho é incrível, e ele merece uma galeria de arte no blog, sem duvidas.

Cara, foram meses de planejamento e desespero pra esse artigo, mas no final deu tudo certo! Primeiramente, devo dizer que foi uma puta honra fazer esse artigo. Escrever sobre Metal Gear Solid e, trabalhar ao lado desses jaguatirica aí que escreveram junto comigo foi foda, quero mandar um salve pra capa linda do artigo que o Pedro, nosso webdesigner oficial!



Uor: Cara, o que falar de MGS3? Toda aquela atmosfera de filme clássico de espionagem, as mecânicas de sobrevivência em floresta que nenhum game até hoje conseguiu superar, as tensões e os dilemas de estar dentro de uma guerra... enfim, eu adoro todos os games da franquia quase de maneira igual, mas não tem como negar que MGS3 se sobressai um pouco pra mim.

Ele é um complemento perfeito pra franquia, não só por mostrar uma parte desconhecida do enredo até então, mas também por complementar os temas explorados nos outros jogos. Por trás de toda maluquice, personagens e histórias ''mirabolantes'', Kojima quis nos passar, através desses jogos, a mensagem de que ao sermos jogados nesse mundo, somos influenciados por MIL coisas, seja por genes, culturas, lugares ou épocas. Mas no final isso tudo não deve definir o que nós somos. Apesar de todas as merdas, nós ainda podemos ser livres.

E pra finalizar só queria dizer que escrever nesse especial sobre uma franquia tão importante pra mim quanto MGS em conjunto com esses dois bobalhões foi uma experiência sensacional que eu nunca imaginei que teria, e por isso agradeço a eles e a todos envolvidos com o blog incluindo você que está lendo isso e nos dando suporte. Agora fiquem com a imagem mais marcante de toda a franquia pra mim.



Flames: Eu devo dizer que eu tenho um grande fascínio em personagens humanos lidando contra seus próprios demônios. Digamos que MGS é uma série que trata disso de uma forma magnifica e que une muito bem com os acontecimentos da trama. Kojima realmente merece aplausos por isso. E apesar de MGS2 fechar muito bem o seu tema, ele deixa  MIL pontas soltas na série. Felizmente, ele consegue unir tudo de forma brilhante em MGS4


 E é bem interessante ver a forma como Raiden evolui, até mesmo em sua participação na trama, dessa vez, sendo de EXTREMA ajuda pro Snake. (em MGS4)

Ok, vamos lá, eu não gosto de muita “babação” com absolutamente nada. E por mais que a fanbase de MGS me incomode absurdamente com toda sua endeusação com o ilustríssimo Kojima, ou com toda a pseudagem e punhetagem intelectual em volta da comunidade e seu pensamento fechado de que “MGS é uma obra divina e nada se compara ” (claro, nem todos são assim, e também sei que toda fanbase é chata). Mas devo reconhecer que o que o Sr. Kojima faz, no sentido de narrativa, é impecável, e realmente merece todo o reconhecimento possível! 

Ele meio que consegue mesclar entre, "se levar muito à sério" e ao mesmo tempo "tô nem aí, deixa eu me divertir" muito bem na obra dele, de alguma forma essa série consegue ser uma união disso tudo, e fica FODA no final. É inspirador, mesmo sendo imbecil às vezes.

Sobre MGS2 e sua mensagem... dá pra observar que ele faz de tudo pra expor isso em todas as suas nuances. Digo, é um jogo de bastante simbologia, em todos os personagens. Mas Raiden e Solidus, protagonizam essa ação simbólica da forma mais contundente, pra mim, de todo jogo, e foi nisso que quis focar.

Sem dúvidas, é algo a se jogar com cuidado e atenção, pra no final tirar todo proveito possível disso. Apesar da nostalgia tremenda que tenho com MGS1 – época de ir pra locadora jogar... bons tempos – MGS3 é responsável por uma das minhas experiências com games mais absurdas da vida, e apesar de eu respeitar toda a série, é ele que eu definiria como favorito. Porém, são poucos os jogos do MUNDO com o poder narrativo que MGS2 tem. E eu diria que ele tem a minha narrativa favorita da série, como um todo. Claro, claro, todos os jogos possuem uma mensagem, sim, mas é nesse título que eu vejo o maior esmero em arquiteta-la para o receptor. É apenas opinião.

Cara, como esse jogo me fez viajar... eu tenho um grande apreço por ele, de verdade, e olha que já olhei torto pro mesmo. Compreensão é essencial! E sobre o Rising..... um dia eu comento.


É importante ressaltar que cada um dos autores do blog abordou um jogo com um intento em mente. Vann, com MGS1, focou o abordamento sobre os seus personagens, que somavam pra um entendimento sobre crescimento de Snake como protagonista, não só nesse jogo, como pra toda a série.

Em MGS2, eu foquei na importância da "informação" e do significado da mensagem final por trás da obra, sua influência na série e no receptor. Raiden sempre foi a chave ideal para a compreensão.

Uor, com MGS3, focou na simbologia dos acontecimentos e a interação dos personagens, esses que moldaram nossa visão, nossa perspectiva sobre muita coisa, mas principalmente, sobre o "grande vilão" da série.

E é isso, povo! Quando o Vann deu ideia desse projeto, há meses, eu já pensei "tamo ferrado... mas bora fazer!", e realmente, nos ferramos. Foi um trabalhão, mas no final, até que conseguimos. E é bom deixar em evidência que é foda trabalhar com esse dois infelizes aí nesses artigos conjuntos, e por sinal, acredito que esse seja o maior já feito aqui. Agradecimento especial em nome de todos ao webdesigner oficial do blog, Pedro.  

Só avisando, a parte dois desse artigo deve sair... UM DIA, talvez. Comentários e rages são sempre bem vindos, e se quiserem nos acompanhar, é só curtir a page lá pra ficar atualizado. 

E recomendação especial pra vocês, um artigo em inglês mais do que excelente, um complemento pra o entendimento sobre toda a série, cliquem AQUI

E até dia MIL procês.

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