Xenogears - Entendendo uma história de incontáveis reflexões



"Um sonho... Uma memória... coisas lembradas quando estamos dormindo. Coisas esquecidas quando estamos acordados... Onde as camadas mais profundas das memórias se tornam as camadas mais externas dos sonhos.

 Quais são realidade? Quais são ilusão? Não se pode dizer até que se acorde... Ou talvez eles são, ao mesmo tempo, realidade e ficção. Uma vasta nebulosa... sem limites... 

Um vazio equivalente a minha própria existência."


Muitas das obras da ficção são como portais para se trabalhar com temas mais complexos que abrangem muitas vertentes do conhecimento humano ou da busca dele. Muitas vezes responsáveis por nos causar epifanias e incitar pesquisas, mas não sem antes nos deixar com cara de tacho olhando pro nada por um tempo.



Elas são como “atalhos” para expor certas informações, as mesclando com seus enredos e criando mensagens em cima deles, somando muitas vezes para nosso crescimento pessoal. Vemos muitos exemplos assim em nossa cultura pop. Livros, filmes, quadrinhos, cada um de sua forma única. E um em especial, do qual possuo absurda admiração, são os games, capazes de nos causar uma sensação de imersão mais do que singular.  

São experiências incríveis.
Algumas das maravilhas.

Eu já divaguei sobre isso no primeiro artigo AQUI do blog, e finalmente comemorando o aniversário de 1 ano de vida desse site, irei dedicar um texto à um dos exemplos que mais sintetizam a capacidade que um jogo eletrônico — seguindo essa ideia de expressão — pode alcançar.

FINALMENTE hoje é dia de Xenogears, pessoal! YEEY!!!

"E o que esse jogo tem demais, seu infeliz em chamas, por que ele merece essa atenção especial?! DIGA-ME!".

É justamente o que iremos ver nesse artigo. Então comecemos de uma vez a falar dessa maravilha, mas vamos com calma, primeiramente, sem spoilers, depois partimos pra entender as mensagens cativantes que essa obra tende a nos passar, eu os avisarei o momento.


Sobre o jogo

O ano é 1998, a falecida Squaresoft ainda vivia com tudo nos seus tempos de ouro e a demanda dessa época era criar JRPGs com enredos e personagens bem trabalhados – certamente, a melhor era que o mundo dos games já viu, em minha humilde e boba opinião. Que diferença da demanda dos FPS genéricos de hoje, huh? Mas vamos lá, não quero dar uma de ranzinza aqui. Afinal, como já disse, mesmo com os meus poucos 85 anos, consigo observar que hoje em dia ainda sai muita coisa incrível! Estou no limiar da juventude observando as novas gerações enquanto escuto Alice in Chains no meu Walkman, tão pensando o quê?

Ai minhas costas...




Foi nesse incrível cenário que Xenogears veio ao mundo, pra a felicidade de quem tinha um Play Station. Com ele trouxe temas explorados de forma única até então, num game. Conceitos sobre a psique humana, influências bíblicas, filosofia em peso, sexualidade da forma mais madura e bela que já vi num jogo, golfinhos usando computador e até robôs gigantes lutando Kung Fu.

...

Mas que diabos, esse jogo era perfeito!

Ele se assemelha muito a Chrono Cross, no sentido de ser uma joia não tão apreciada como devia e que ficou parcialmente oculta por muitos não entenderem a sua proposta, o que eu acho um grande vacilo. Por sinal, ambos com as trilhas sonoras compostas pelo MELHOR compositor do ramo, Yasunori Mitsuda.

Mas antes de indagarmos sobre os significados inspiradores que essa obra nos propõe, comecemos com uma breve...

Introdução ao enredo

Não podemos dizer que essa foi a melhor época das dublagens ocidentais no mundo dos games, mas ainda tá melhor que Uncharted BR.

A opening do jogo nos remete a um acontecimento de mais de 10 mil anos no passado. A Eldridge, uma GIGANTESCA espaçonave interplanetária que abrigava vida, estava cruzando o espaço em busca de um novo lar para a humanidade, até que em um momento todos os seus sistemas sofrem um colapso repentino. Uma ataque interno que levou o Capitão a tomar a medida desesperada de acionar o modo de auto destruição do lugar. A tragédia fez com que os destroços caíssem em um planeta próximo e provavelmente todos a bordo morreram.

Mas uma mulher nua sai dos destroços e se levanta com seus longos cabelos de cor violeta, olhando para o horizonte, cena que alude o recomeço de uma nova era.



E agora, avançando DEZ MIL ANOS, estamos em um cenário onde duas potencias mundiais, Kislev e Aveh, tem travado guerras inúteis por tantos séculos que ninguém mais lembra a razão, mesmo assim, permanecem alimentando um ciclo de hostilidade e tragédia. Nessa era, uma organização religiosa com bastante influência política no mundo, conhecida como Ethos, escavou há algum tempo robôs gigantes de combate chamados "Gears". O que eventualmente virou ferramenta de guerra entre as duas nações.


O jogo se inicia em uma vila pacífica localizada nas fronteiras de Aveh, e entramos na pele de Fei Wong, o rapaz responsável pelo quot do início desse artigo. Ele é um jovem com 18 anos de idade que foi misteriosamente trazido para a vila três anos antes. Fei não tem memórias claras sobre sua vida passada, mas é acolhido pelos habitantes e acaba por ter uma vida pacífica aqui. Recentemente, está esperando um grande momento no lugar, o casamento dos seus dois melhores amigos, Alice e Timoteo.


Quando o jovem Fei estava visitando o médico local, Citan Uzuki, no topo de uma montanha próxima, se depara com alguns Gears voando em direção à sua querida vila, e eles não parecem ser amigos. Ao chegar próximo, ele vê que o lugar está sendo palco de destruição. Por sorte do destino ou não, um Gear está próximo, abandonado. Ele aproveita para tripula-lo num impulso de ir enfrentar os inimigos, mesmo com Citan o dizendo para não lutar ali.



Mas, quem liga?

Ele está pilotando um fodendo-ROBOZÃO aqui, cara, ele não vai te ouvir.

No ataque, seu amigo Timoteo é alvejado com um tiro por um dos Gears, fato que faz com que Fei se descontrole psicologicamente, acordando uma personalidade oculta e ativando um modo "berserk" do robô que leva todos os inimigos à uma violenta destruição, junto da maioria das pessoas da vila também, inclusive sua amiga, Alice, que morre numa cena bem impactante.

O que aprendemos hoje, pessoal? Escutem o Citan. 

E só estamos nos primeiros minutos de jogo.

Depois do incidente, Fei acorda, e vê que todos da vila o consideram culpado por tudo, inclusive seu amigo da "testa pequena", Dan, irmão mais novo de Alice, e que está profundamente perturbado, o culpando. Ciente do seu erro, apesar de não ter lembranças exatas do que aconteceu, Fei se afasta da população e foge, temendo reforços dos inimigos.

Ele acaba parando numa densa floresta, e lá conhece Elhaym Van Houtten (Elly), uma mulher que ele sente uma estranha conexão. É depois desses incidentes que começamos a jornada para conhecer melhor o universo e os personagens de Xenogears, lidando com um entendimento sobre conflitos internos, conspirações mundias, a própria "existência" e até mesmo uma batalha contra "Deus".

E aí você que não jogou deve estar pensando: "Deus? Como assim?! E aquela nave cruzando o espaço com vida, o que aconteceu com a terra? E essa personalidade de Fei, ele é o que, bipolar? Tava tocando sertanejo  universitário no rádio do robô e ele enlouqueceu? Exijo respostas!"

Digamos que há muita simbologia e coisas a se compreender nesse imenso contexto. Mas antes de irmos falar deles vamos aos pontos técnicos positivos e negativos dessa belezura.

Conceitos técnicos

Um jogo onde temos a Lucca explicando como funciona o savepoint não pode ser ruim! E sim, ela saiu da vila antes de tudo ir pros ares, afinal ela tem a Kid pra cuidar no futuro, relaxem.

Fanrservice aprovado.

Algo que claramente podemos notar ao conhecer melhor Xenogears é: corte de custos. E eu não acho justo culpar a Square por isso, afinal, os criadores tinham intenções bem ambiciosas pra esse projeto, que deveria ser bem maior do que foi... digamos que eles queriam dar um salto maior do que a perna, a empresa não queria apostar tão alto quanto eles.

Xenogears foi pensado para ser um Final Fantasy, mais precisamente o sétimo da franquia. Por motivos de obscuridade no enredo, ele acabou sendo rejeitado como um FF. Eu vejo gente dizendo que isso é uma desculpa boba, vendo que FF VII tem temas bem densos também.

...

Sério?



Apenas compare os dois temas, seu vertebrado de uma figa! Xenogears é muito mais obscuro. E mexe com conceitos tão delicados das crenças religiosas ocidentais que a Square ainda pensou duas vezes antes de lança-lo por aqui. Quer mesmo comparar "terrorismo ecológico" com uma igreja "fictícia" corrupta onde padres incitam guerra, ignorância e ainda exploram criancinhas como um dos temas principais?! E esse nem é o mais pesado, meu amigo!

Às vezes acho que alguns que jogam não tem senso ou apenas não prestam atenção... ainda quero entender esse fenômeno de FF atrair tantos comentários imbecis em qualquer instância que ele seja mencionado. É curioso.

Mas ignorando esse meu momento "Ui, ui, ui", continuemos.

Mesmo a ideia agradando a empresa o suficiente para criar um jogo próprio pro projeto, definitivamente não dava pra fazer o que os criadores queriam. Seus planos eram grandes demais e a Square acabou dando um freio neles, então tiveram que se virar. Felizmente, o conteúdo geral do que o jogo tratou não foi prejudicado, e essa é sem dúvida sua melhor parte, estamos no lucro!


Apesar desses "cortes nos gastos", Xenogears nem de longe é um jogo  tecnicamente mal feito. Como eu já falei antes, a trilha sonora está em cargo do excelentíssimo Yasunori Mitsuda, e ela é extremamente envolvente ao combinar demais com a vibe que esse jogo exala, te emergindo ainda mais no enredo. Sem falar do design das grandes obras fantasiosas da engenharia robótica que vemos aqui. São cuidadosamente bem feitas e isso é um ponto a se elogiar bastante.



A jogabilidade é o padrão dos JRPGs da época, batalhas randômicas, tela estilhaçando na sua cara e te assustando, porém, Xenogears possui um sistema de combos dinâmicos, algo bem divertido de usar em batalhas de turno. Há a possibilidade de usa-los controlando o ROBOZÃO também, lidando com a quantidade de combustível dos mesmos, o que abre leques de estratégias e possibilidades em combates ou até mesmo explorando os cenários. Não vou entrar em detalhes mas, digo a vocês que em batalha, tudo funciona muito bem.

Lutar KUNG FU num robô gigante... isso é DIVERSÃO!

Olha o Wétifáu, Vann!
Por outro lado, não podemos dizer que a movimentação da câmera na exploração é das melhores nesse jogo, o que pode fazer com que nos percamos nos lugares. Há também de reclamar sobre a linearidade e a abundancia de batalhas, o que pode ser cansativo se você jogar umas 8 horas seguidas, o que nunca é aconselhável, eu mesmo nunca fiz isso!

Cof, cof!

Outro ponto que pessoalmente me incomoda são os "elementos fofinhos" no seu design, como mocinhas "fofoletes" ou criaturas felpudas tão coloridas que afligem os olhos, claramente feitas pra atingir algum público – agora que diabos de público eles queriam atingir, eu não faço a mínima ideia. Não vejo um perfil de alguém que gosta dos temas do jogo curtindo esses troços, mas... vendo o tanto de fanart que essas coisas possuem por aí, certeza que teve gente que curtiu.

Felizmente, isso não tem tanto destaque in-game, não tanto...


Vocês sabiam que já fizemos um artigasso sobre Metal Gear Solid? Cliquem AQUI pra ver. 

Outro ponto negativo ou não é o mais claro impacto de todos os "cortes" nos gastos do jogo. Bom, ele possui 2 CDs, e no segundo o fator gameplay é bem mais curto, dando mais espaço e foco para contar a história. É possível observar que isso é uma tentativa de "se virar" dos responsáveis, o qual eles fizeram muito bem. Pouco me incomoda, pra ser sincero. Não atrapalha absolutamente nada a experiência e ainda tem lutas sensacionais!

É um CD quase que didático e muito elucidativo, uma ótima "saída" que eles encontraram. Agradecimentos especiais para a senhora Soraya Saga e seu esposo Tetsuya Takahashi, pela narrativa e ótimo enredo.

No geral, é um belo jogo, sem dúvida, e é bom mencionar a arte dos personagens também, esse estilo de animes 90's sempre merecerá amor.



"Mecha" foi um tema que no passado eu já tive um certo preconceito, mas hoje vejo três obras entre os meus "tops da vida" pertencerem ao nicho.

É muito bom você rever suas opiniões, pessoal! Sempre. 

Melhor robozão de todos os tempos! Nada a ver com o fato dele ser vermelho e expelir fogo..

Enfim, pra você que ainda não jogou e está interessando, vá de uma vez, infeliz! Não precisa me agradecer depois. Mas passe aqui pra ler o resto do artigo.

Fim do review! Agora vamos viajar mais fundo no enredo dessa maravilha, esperem toneladas de spoilers e detalhes legais sobre o jogo e seus criadores. Quero explicar alguns acontecimentos e conceitos para expor a ideia geral dessa obra, se você se perdeu nessa aventura, quem sabe esse artigo possa lhe clarear.


"Música é uma coisa misteriosa. Ela faz com que pessoas se lembrem de coisas que elas nem esperam. Tantos pensamentos, sentimentos, memorias. Coisas já esquecidas. Ela não se importa se é da vontade do ouvinte se lembrar ou não." - Citan Uzuki


É tudo parte de um "sistema"



Como já sabemos, os incidentes atuais do mundo de Xenogears são levados pelas guerras centenárias de Kislev e Aveh. Depois das descobertas dos Gears, o cenário da guerra mudou e Kislev assumiu certa vantagem por possuir mais armamentos. Esse fato muda quando uma milícia conhecida como Gebler começa a ajudar Aveh. O conflito sempre se intensifica, é um ciclo. Mas, esses só são mais um dos vários fatores da incrível manipulação mundial que ocorre por aqui.



Vamos entender como funciona.

Solaris é a nação que dita como as guerras devem seguir, controlando recursos e pessoas para atingir seus próprios objetivos. Ethos, a igreja absurdamente influente em todo mundo, é uma das ferramentas deles para assumir controle da mente das pessoas, usando a fé e as transformando em cordeiros manipuláveis. O ciclo interminável de guerras e vários acontecimentos do mundo tem sido administrados por Solaris nos bastidores. Eles criam a ilusão do livre arbítrio e fazem com que os humanos achem que controlam o próprio destino, quando tudo que fazem já foi calculado e projetado por "eles" há muito tempo.

Mas, quem são eles? O que eles querem?

Chegaremos lá.

Solaris  flutua nos céus de forma oculta pra o resto do mundo, sua capital, chamada de Etrenank, se assemelha bastante a nossa sociedade contemporânea, porém é bem mais futurista. Ela é dividida em dois grupos sociais, os operários, nascidos apenas para servir e trabalhar, onde se recusarem ou questionarem sobre algo, são mortos. E a elite, que subjuga a outra classe de formas distópicas. Ambas são frutos de maquinações e manipulações mentais, são só mais um produto de um controle arquitetado por "eles".



O que "eles" querem é recriar Deus.

Mas calma. Não estamos falando de Jeová, Odin, Shiva ou... sei lá... não é nada disso! Vamos entender melhor se aprofundando em coisas que só são explicadas depois de 50 horas de jogo:

Entendendo "Deus"


"Deus", na verdade, é uma arma biológica criada há mais de 15 MIL anos por humanos em algum planeta, numa época de GRANDE avanço tecnológico e expansão espacial – provavelmente a terra já tinha sido deixada há milênios, ela nunca é diretamente citada na obra.



Essa arma é "um sistema de invasão interplanetária" automático que foi criado com "vontade própria", em outras palavras, uma IA feita pra dominar planetas com poder bélico imenso. Seu principal motor de energia chama-se Zohar, um reator capaz de alcançar a "energia final" possível nesse universo de 4 dimensões.

Em um teste, Deus se portou de forma incontrolável e usou o Zohar como receptáculo de uma energia superior; através dos caminhos de Sephirot, o que o fez sincronizar com "ondas existências" de outra dimensão, (talvez a quinta?) adquirindo poder infinito. Digamos que ele atingiu o poder realmente do nosso ideal de "Deus", um poder equivalente à força da criação do universo.



Fato que apenas fez Deus destruir UM PLANETA INTEIRO, no processo.

Daí os cientistas pensaram em desativa-lo...

Por que será, né...?

Assim, Deus tem seu núcleo desmontado e é guardado para testes e consertos futuros. Ele foi colocado na Elridge, a nave gigante da intro que buscava reerguer a civilização em outro planeta. Porém, Deus que está ciente disso, invade o sistema e toma o controle da nave. O capitão, sabendo da MERDA que podia acontecer caso esse ser se libertasse, aciona o modo destruição, e o resto já sabemos. Deus, após o grave dano que sofre no impacto, liga um sistema de recriação, onde ele gera uma raça de pessoas com um único objetivo em mente, a sua reconstrução.

Essa é a explicação da introdução do jogo, e de longe um dos assuntos mais complexos e interessantes pra se abordar, afinal, ele que destina todos os fatos do enredo. Mas há algo não explicado, um mistério que foi muito discutido por muitos fãs de Xenogears.

Quando Deus começa a dominar a nave, ele parece querer abrir um buraco de minhoca para se redirecionar ao planeta "NX128EZ061", que, segundo a subordinada do Capitão, diz ser "o nosso planeta". Pode ser a terra, pode ser um planeta novo, só sabemos que era o planeta natal desses humanos remanescentes.


Alguns dizem que é apenas um diálogo sem muito significado, até porque isso nunca foi explicado. Talvez um erro de continuidade ou um plot sem muita abordagem que existe "porque batatas". Nunca saberemos.

Mas é curioso saber que Deus queria voltar. Talvez impedir o avanço dos humanos ou buscar algo em específico. Vai ver ele esqueceu a discografia do Wesley Safadão e quer buscar, como o Uor teorizou. Eu ainda não disse, mas acredito que muitos já saibam. A série deveria ter seis episódios, e o Xenogears é apenas o quinto. Muita coisa devia estar nos planos de ser explorado, e é triste que nunca teremos todo esse conteúdo...

Entendendo o "Ciclo de manipulações"

"Você acreditava na lenda de como nosso mundo e universo foram criados... Mas, o Ministério e eu fabricamos cada mito há muito, muito tempo, para (vocês) se adequar(em) aos nossos propósitos". 



Dentre esses que nasceram com o intento de recriar Deus, temos Miang, a moça dos cabelos esvoaçantes do começo do jogo. Ela é a Mãe da humanidade, o ser mais inteligente vivo e uma das principais antagonistas da saga. Com o passar dos ciclos, ela reincarna sempre numa mulher jovem adulta, a diferença é que ela tem a capacidade de guardar suas memórias e lidar com elas, assim manipulando as pessoas de forma oculta, não importando a era em que está. É como uma existência renascendo em vários seres durante as vidas e procurando desesperadamente cumprir o seu objetivo, sempre.


Miang é responsável por uma grande e metódica lavagem cerebral mundial que durou mais de 9999 MIL ANOS, criando uma forma seletiva e absoluta de reprodução humana. Assim como ela, o Ministério Gazel pertence a mesma raça, são seres que também buscam manipular o destino.



E o ultimo, mas não menos importante, é Cain. Desde o seu nascimento, assim como Miang e o Ministério, ele foi programado para fazer a vontade de Deus. Foi o responsável pela criação de todos os mitos, lendas e religiões do mundo, sendo o manipulador da fé humana durante todos os milênios.
No gênese da nova população que surgiu após a queda da nave,  Abel, o único humano sobrevivente da queda de Eldrigde e Ellaym, a mulher que lhe foi "concedida" acaba sabendo sobre as maquinações de Cain, e começa a espalhar as mentiras que ele contou junto do Ministério.


Esse fato faz com que Cain mate Abel, (referência detectada) e Ellaym, para proteger a segurança do seu objetivo. Mas isso o deixa atormentado, ele se sente culpado, e com o passar dos anos, desenvolve um afeto especial pelos humanos normais, um aspecto psicológico causado pela culpa. E isso o libera parcialmente do destino do qual ele foi projetado para cumprir. Ele ainda é uma ferramenta, mas digamos que agora ele tem um pé fora da "onda", sacou?

E quem é Abel, quem é Ellaym?

Uma hora chegamos lá, primeiro vamos falar do antagonista principal do jogo

Ele não é da raça dos "nascidos como ferramente de Deus", mas ainda assim, possui o renascimento da arma biológica como seu objetivo de vida, apesar de seus planos irem ainda mais longe. Chega a hora de falarmos de Krelian.



Durante os ciclos, uma guerra foi instaurada há 500 anos em Solaris, antes dos eventos recentes do jogo, e nesse cenário, Sophia, o amor de Krelian, teve que se sacrificar para ajudar alguns sobreviventes da guerra. Ela morre, isso o perturba completamente e o muda para sempre.

"Deus não responde nossas orações, isso é porque não temos fé o suficiente? Mesmo que não tivéssemos fé, Sophia tinha! Por que teve de ser sacrificada? Deus está morto...? Ele apenas não está lá...? Talvez deus nunca existiu pra começar! Se deus não existe nesse mundo, criarei um com minhas próprias mãos."  




Fato curioso, Krelian foi enviado como espião anos antes por outra nação para matar Sophia, essa que seria no futuro um ícone da igreja influente no mundo, mas acabou sendo incapaz de mata-la.

É após esses incidentes que Krelian assume uma aliança com Cain, Miang e o Ministério, com objetivos "mútuos" em mente, porém as coisas tomam outras proporções depois de um tempo e Krelian se torna o principal regente de Solaris. E claro, manipulando todos que ele pudesse para cumprir seus objetivos.

Quantas vezes será que eu já escrevi "manipulando e manipulação" no artigo, huh?


Vamos ao próximo tópico, e como imagino que vocês que estão lendo já jogaram, tentarei ser o mais direto possível.

As instâncias da mente de Fei

Em certo momento, Miang possui o corpo de Karen Wong, mãe de Fei Wong, nosso protagonista. Seu objetivo era raptar o garoto para, junto de Krelian, aplicar uma bateria de testes e exames torturantes no mesmo.

Os motivos vocês sabem, ambos queriam despertar os poderes do "Contato", iremos ver no próximo tópico.





Os testes terríveis acabaram por fragmentar a mente do jovem Fei, que devido aos traumas acabou criando uma destrutiva persona denominada de Id.

Em certo momento, como última cartada, Miang ataca Fei violentamente, a fim de expor o poder de Id, mesmo correndo o risco de mata-lo no processo. Porém, nesse momento é impedida pela personalidade de Karen, que a sobrepuja, assumindo seu corpo novamente. Assim ela mesmo se põe em frente ao projétil e se sacrifica para salvar seu filho. Claro, tem todo um contexto nisso aí, claramente ele não teve culpa, mas não dá pra explicar isso facilmente pra um garoto, e esse é um gatilho para sua mente quebrar de uma vez.

As torturas que fragmentaram as personalidades do rapaz o dividiu em três. Esse conceito foi inspirado no modelo das instâncias da mente de Sigmund Freud, um psicólogo cheio de estudo legal e que é deveras influente nos detalhes desse jogo.


Em resumo, Id é o lado "instintivo" do subconsciente humano, esse é representado pela versão destrutiva e caótica de cabelos vermelho fogo de Fei. O Super-ego é o lado lógico e consciente, representado pelo Fei "normal", aquele que controlamos boa parte do jogo. A terceira instância é o Ego, e ele é o que define o equilíbrio dos outros dois. No caso de Fei, ele é o "covarde", e serve para mediar as instâncias, as tornando extremamente recessivas.

Id é um ser de extremo poder, responsável por várias das cutscenes mais legais e pelo MAIOR mistério de Xenogears! Afinal, como Fei pinta o cabelo e coloca aquela roupa tão rápido?!

Sabem o que esse sorriso quer dizer? Ele sabe que NUNCA vamos saber como ele faz isso!
...

Ok, Id, vamos seguir.

Em certo momento, o enredo nos propõe uma viagem interna na mente de Fei, o primeiro lapso de sua conexão com a Wave Existence e o conflito interno em resolução. Assim, suas memórias e sonhos finalmente fazem sentido. Tudo isso duramente aquela luta mortal onde Id confronta o pai de Fei diretamente.

Ao recuperar suas memórias e entender seu destino, ele consegue o controle entre suas instâncias e libera uma nova evolução do seu Gear, se transformando no Xenogears.

Opa, esse é o nome do jogo.


Uma cena memorável, mas ainda prefiro o vermelho... 
...
Que foi? 

Just Saying...
As cores te lembram algo? Pois é, ambos os criadores cresceram nos anos 80 e foram bastante influenciados por várias obras da época, Gundam é um exemplo.

Contatos, os progonistas do destino





Bom, qual o porquê de Fei ter sido usado em testes, afinal? O que esse garoto tem de especial?

Tudo isso é explicado quando ele controla sua instâncias, no momento em que ele conversa com a Wave Existence e tem todas as suas memórias de volta.




Fei é um Contato.

Contatos são todos aqueles que foram expostos de forma direta à Wave Existence, a "onda existencial", o "fluxo do universo", "da vida", a "origem", como você quiser chamar. E eles possuem a missão de destruir a arma biológica Deus, tendo o destino de reencarnar quantas vezes forem necessárias para tal. Porque o que a Wave Existence procura é se libertar do Zohar, se libertar da arma biológica que o usa, Deus.


Os primeiros Contatos desde o renascimento da humanidade nesse planeta, foram Abel e Ellaym (essa que foi criada para lhe auxiliar). E eles estão fadados a um ciclo de eterno retorno há DEZ MIL ANOS. Foram incontáveis vidas, incontáveis fatores e mortes que os levaram para Fei e Elly, hoje. Ambos possuem uma conexão imaterial mais forte do que nós, players, conseguimos sequer imaginar no começo do jogo – e isso foi, de fato, muito impressionante pra mim quando descobri.

Lembram do Grafh? Bom, ele é uma espécie de "Id" de Lacan, uma das reencarnações de Abel, que por sua vez foi amigo próximo de Sophia e Krelian no passado. Porém, Grahf não é um Contato, é apenas um fragmento desassociado de Lacan, que já morreu e reencarnou em Fei.




Quando Sophia morreu, Lacan, que a amava, criou um grande remorso por não poder salva-la, ele culpou sua fraqueza. Foi aí que começou sua busca de poder cada vez mais ensandecida. No passado, após um contato direto com a Wave Existence, assumiu que a única forma de acabar com esse ciclo seria destruindo completamente a humanidade, e precisava restaurar Deus pra isso. Foi nessa época que Grafh "nasceu".

Sophia morreu pra salvar algumas pessoas, mas criou dois antagonistas que mataram bem mais...

Okay...



Grahf é extremamente poderoso, apesar de ser mais fraco que o "Id de Fei", e ambas essas transformações são resultados da influência do contato com a Wave. Ele com certeza é um dos personagens com o melhor background do jogo.

O Vann é tão fanboy que até tatuagem dele tem.

Ao mesmo tempo que os Contatos são criados para frustar os planos de Deus, um deles pode ser usado para restaura-lo, e é isso que Miang e Krelian tem em mente. Claro que pra chegar nessa empreitada somos levados por muitos acontecimentos e explicações sobre o universo que explodem a nossa mente por nos pegarem desprevenidos.

O caminho de Elly e Fei


Logo no início do jogo, Fei encontra Elly, e apesar de parecer apenas um fato randômico do destino parcialmente calculado pelos roteiristas para o "mocinho encontrar a mocinha", já sabemos que o lance é BEM MAIOR. E quando temos a informação, tudo fica mais legal.

Em primeiro momento, o encontro dos dois não é dos mais amigáveis. Eles se conhecem, lidam com problemas pra sair da floresta, mas chega um momento onde eles tem tempo o suficiente de se abrir um com o outro. Fei está culpando os Gears de serem os responsáveis pela destruição da cidade, enquanto soca uma árvore de forma desesperada – Elly sabe que tem parcialmente culpa disso, afinal ela meio que sem querer atraiu os Gears pra lá. Esses que estavam atrás do Weltall, um projeto secreto de Kislev que foi roubado pelos solarianos, mas isso não a impede de num impulso o chamar de COVARDE!

Afinal, as tropas não tinham como objetivo destruir a vila. Apenas queriam pegar o Gear roubado, mas Fei insistiu em lutar em vez de evacuar os habitantes, e deu no que deu. Então, ele deveria parar de culpar os outros e olhar pro próprio nariz, era isso que ela queria dizer.

Estamos nos primeiros momentos do jogo, mas já somos carregados com voadoras em forma de plots pesados, é assim que funciona em Xenogears.

Fei começa a se questionar sobre isso, enquanto senta no chão sentindo toda a culpa das pessoas que ele matou enquanto tentava ajudar. Elly fica incomodada e tenta tranquiliza-lo, mas para no meio do caminho e vai embora.

Mulher sem coração?

Não, ela apenas não sabe como conforta-lo, afinal, ela é uma covarde também. Somos salientados em um flashback sangrento que algo parecido aconteceu com Elly. Ela sofre com um drama semelhante, e ainda não sabe lidar com isso. Então fala por impulso e não só critica Fei, como ela mesma também. Claro, há um momento de desculpas depois e tudo fica numa boa. Mas é interessante como esse jogo expõe personagens humanos e seus conflitos logo de cara assim.

<3

Elly é uma solariana de elite, filha de um dos oficiais mais condecorados da sua nação. Porém, sempre sofreu preconceito por sua aparência. Tendo olhos de cor violeta e cabelo castanho, enquanto a elite solariana geralmente tem os cabelos claros e olhos azuis. Isso sempre a fez lidar com o mundo de outra forma. Um reflexo disso é o fato dela não ter o pensamento infeliz de superioridade que os seus semelhantes tem, algo elogiado por Citan, uma vez.

Seu encontro com Fei muda totalmente sua vida, e em determinado momento do jogo, ela percebe a barbárie da guerra que seu país promove e tenta dar um basta nisso. É a personagem que evolui da forma mais cativante nesse jogo, na minha opinião. Mas, claro, ela não é a única!

Como eu já disse, Fei e Elly protagonizam um dos romances mais maduros que já vi num jogo, coisa até essa época nunca explorada desse jeito no mundo dos "gueimes" e até hoje nunca num Jrpg. Creio que o fato dos criadores serem um casal tenha contribuído pra essa naturalidade com o sexo e a relação deles. O que de fato, é uma das coisas que mais admiro nessa trama.


E esse caminho não envolve apenas esse casal supimpa, ambos se envolvem com vários personagens. O misterioso e sábio Citan Uzuki, o pirata da areia Bart e a cativante Emeralda são apenas alguns exemplos! Todos com algum background especial, e todos explorando um lado e um tema muito interessante de Xenogears. Infelizmente não dá pra por tudo aqui, se não esse artigo vai ficar ainda mais enorme, mas quem sabe um dia eu falo mais deles.


Um personagem muito interessante que eu acho importante falar é Rasmus, o Contato superficial criado por Krelian, que foi substituído e dado como inútil depois que Fei nasceu. É interessante ver a involução mental que Rasmus tem com o passar do jogo, cada vez ficando mais estérico e obsessivo a cada derrota ou simplesmente quando é humilhado por Id. Ele é um dos mais claros exemplos de manipulação de Miang e Krelian.


Com o passar do jogo, e avançando cada vez mais nos momentos, vemos a evolução de muitos personagens, conhecemos mais o universo de Xenogears e como tudo funciona, até chegar nos seus momentos finais.

Elly é usada por Miang e Krelian como sacrifício final para Deus, e mesmo com todo o esforço dos protagonistas, ele acorda. E é então que a batalha contra esse ser deve começar.

Creio que nos momentos finais Rasmus se redime, de certa forma.
Se tem alguma dúvida sobre o "Sacrifício" de Elly, pensem que ela é uma parte da Wave, com individualidade, sentimentos e amor. Todos são ignorados para que ela volte a ser um único ser com o que a criou.

É por isso o tom da palavra "sacrifício", usado no próprio game deveras vezes.

Entendendo o ápice de Xenogears

O mundo de Xenogears é apenas um produto moldado por uma grande manipulação com objetivos bem maiores em mente. A ideia do livre arbítrio é apenas uma ilusão, por mais que os humanos aqui creiam nisso como algo absoluto. A religião é só mais uma ferramenta.  Lendas, mitos, deuses, foram criados para tranquilizar os humanos sobre a morte, para confortar-los na vida, dar uma direção, um propósito.

"Você acreditava na lenda de como nosso mundo e universo foram criados... Mas, o Ministério e eu fabricamos cada mito há muito, muito tempo, para (vocês) se adequar(em) aos nossos propósitos". 
                                                                                                                                     - Miang


Em outras palavras,  servem unicamente para mante-los como um rebanho num plano muito maior. Como os antagonistas insistem em deixar claro no jogo: todos são fantoches. O embate final é contra uma arma biológica chamada "Deus" e cara, olha toda essa simbologia!



A busca da humanidade – em Xenogears –  é destruir as amarras do destino criado por um "Deus" que eles mesmos criaram. Se libertar da dependência que eles mesmos alimentaram.


É notável que esse jogo se inspira em grandes bases da psicanálise e do existencialismo. O conceito de Nietzsche sobre "Deus está morto e quem matou fomos nós" se conceitua exatamente nesse pensamento. Esse é um trecho da sua obra mais famosa, "Assim falou Zaratustra" uma das fontes de inspiração do enredo de Xenogears, e a principal na do Xenosaga, uma espécie de antecessor/predecessor espiritual do mesmo.



Quando Deus é derrotado, o Zohar liberta a energia suprema que ele continha e está ascendendo para o espaço. Elly ainda está lá dentro, e Fei parte com tudo para salvar sua mulher – é nessa hora que temos o provavelmente momento mais incrível, no sentido filosófico, que certamente veremos num "vidjogueime" na vida.

Ele adentra essa energia e entra diretamente na Wave Existece, e nós players podemos testemunhar esse diálogo que nos salienta de muitos detalhes sobre todo o enredo. Uma viagem astral e interna pela consciência do universo.

A Wave Existence nada mais é que a força "consciente ou não" que guia as leis do universo desde a sua criação. Ela molda a própria existência. "Ela é tudo, inclusive nós". E nesse momento, a Wave está influenciada pela mente de Krelian, que conseguiu o objetivo de se "unir  com o Deus Verdadeiro", e mais uma vez ele tem uma embate com Fei sobre os humanos.



Trata-se do questionamento sobre a compreensão humana. Afinal, os humanos estão fadados a nunca entenderem uns aos outros. Assim, sempre estarão se machucando e machucando outrem em suas finitas vidas. Por que não virar "um com Deus" e acabar com todas as incertezas e sofrimento?

O que Krelian almeja é criar uma existência única de entendimento mútuo, todos os humanos atados a "Deus". Uma grande forma de onda astral onde os sentimentos não existem, nem ego nem o amor são necessários. Um lugar sem sofrimento. Mas, isso é só um movimento desesperado de um humano ferido, uma tentativa de fuga.

Parece inspirado em Evangelion, mas não é.  A inspiração vem de um livro bem mais antigo chamado Childhood's End. 

Elly enxerga o drama de Krelian, ela o compreende e tenta ajuda-lo a deixar esse pensamento, mas Krelian parece não a compreender, a ignora, mesmo agora, depois de ter se tornado "um com Deus".

É então que Fei o questiona:

"Eu entendo os sentimentos dela como se fossem os meus! Sim, eu e ela somos um. Nós não precisamos de nenhum Deus!"

Aludindo a capacidade que os humanos tem pavimentar seu próprio caminho. Buscando a evolução dentro de si mesmos. Tentando sempre se compreender e compreender os outros. Isso tudo, enquanto Krelian, mesmo depois de ter conseguido seu intenso objetivo de se tornar um ser "perfeito", ainda não era capaz de fazer.

Fei e Elly são um exemplo palpável de tudo aquilo que Krelian duvidava. Ele lança seu ultimo desafio evocando a Uroboros. Representando a luta final contra o ciclo eterno de erros da humanidade.

Finalmente é a hora de dar um fim nisso.

Significados e inspirações no próximo tópico

Krelian até agora se portou como um tortuoso idealista da paz. Ele buscou se tornar Deus para fazer as pessoas não sofrerem. De uma forma deturpada ou não, ele só queria melhorar tudo. Seu coração estava cheio de tristeza, e mesmo ele começando a entender Fei e Elly nos últimos momentos de toda essa trama, ele não podia voltar atrás. Após a derrota do Ciclo Sem Fim, Elly é liberta, e podemos contemplar esse momento de compreensão mútua entre os personagens. A cena final do jogo nos traz esperança em caminhar com nossos próprios pés e buscar as respostas dentro de nós mesmos, enquanto entendemos uns aos outros.



Agora Fei e Elly quebraram o ciclo, a humanidade finalmente está livre das maquinações da arma biológica, e a reencarnação do sofrimento não é mais algo necessário. Eles finalmente podem viver sua vida de forma única, sem nenhuma amarra do destino.

Xenogears trata de muitas coisas. Vários temas obscuros realmente pesados que nos fazem pensar. Mas também trata de amizade, auto-conhecimento. É uma obra bem otimista no final das contas. E creio que sua maior mensagem é sobre compreensão. Pelo menos foi o que mais absorvi dele.



Cena final que faz marmanjo chorar, pra quem quiser ver AQUI.

Vejo pessoas dizendo que Krelian foi um baita de um vilão que matou milhões de pessoas e no final não foi punido por isso, mas discordo. Ele sempre viveu em sofrimento e angústia, e mesmo agora, depois de se unir com a Wave, nada pode fazer para mudar as coisas. Ele foi privado da vida humana, no final até diz que inveja Fei e Elly por terem alcançado a "libertação" sozinhos. Agora ele parte para o infinito procurando por conhecimento e expiar seus pecados.

Adendo - Visão sobre "Deus e Religião" 

Apesar de Xenogears parecer dar a ideia que religião é "errado" ou crenças são "erradas", calma lá. Não é que esse jogo passe a ideia de condenar, na verdade, é justamente o contrário!

A obra nos alude sobre uma existência espiritual transcendente que seja maior que qualquer ideologia religiosa humana, essas que podem certamente serem deturpadas por interesses pessoais ou até mesmo pensamentos errôneos, afinal, humanos são falhos. Xenogears na verdade nos inspira sobre a reflexão. Sobre conhecer nós mesmos, mas não deixar de acreditar em algo "maior" que nos guie também em nossas existências.

Sem falar que isso é uma ficção. Conceituem com a realidade da forma com que achem pertinente, mas não generalizem nem descontextualizem.

A fé além de ser necessária pra qualquer humano, seja no que for, deve ser respeitada.



Como vocês devem saber, em meus textos exponho informação, fatos, opiniões pessoais e muitas piadinhas, algumas bem bobonas também. Creio que há de se separar a "mensagem" final do texto e seus momentos de descontração.

Dito isso, continuemos.

Influências e referências de Xenogears

Como já sabemos, Xenogears é um poço de influências e referências de vários conceitos da psicanalise, religião e de muitos filósofos. Podemos observar alguns deles facilmente. Pra começar, temos a maior fonte das críticas para com Xenogears: religião.

O Zohar, a Uroboros e os caminhos de Sephirot que se conectam a Wave Existence, todos conceitos de Cabalá. Como eu já falei no meu artigo de FMA, a ideia de "DEUS" de FMA é bastante coesa e inteligente; Xenogears entra no mesmo naipe, de uma forma ainda mais extrema. A ideia do "motor da vida" ser uma existência inerente aos fatos do universo sem dúvida é um conceito muito compartilhado entre muitos pensadores, e na minha opinião, o mais próximo de concepção que temos sobre essa energia "divina" que molda a existência.

Sobre o que você acredita ou as religiões pregam... bem, isso cabe a cada uma delas e a você. Não quero discutir a verdade das religiões aqui, seja lá em que você acredita! E falando em religião...


O uso da igreja como principal fonte de manipulação mundial, também foi algo bem "mamilos" pra Xenogears, assim como a metodologia de Miang sobre a exclusão homossexual da sociedade, já que ela visa unicamente a reprodução populacional para ter mais sacrifícios para servir de alimento e energia para Deus. E isso abre o tópico dos "Whells" outro assunto tenso que envolve canibalismo e nossa, isso é uma das coisas que mais deram treta nesse jogo. Por fim, temos torre de babel, a pedofilia, a xenofobia e o racismo, sem falar da crucificação simbólica de Elly. Tudo coisa pra alguns caírem em cima com uma espingarda de pura violência rancor e ignorância, sem saberem do contexto.

Pois é, e tem gente dizendo que FF VII é tão obscuro quanto...

Por favor, né?

Square com certeza não tinha bolas para manter um enredo desse num jogo com amplo marketing. Talvez com a Atlus isso fosse possível, mas Xenogears não teve essa sorte.

Em uma entrevista, li que os criadores do jogo quiseram usar conceitos ocidentais de religião unicamente porque eles achavam interessante e misterioso, afinal, no japão eles não estão acostumados e nem ligam fervorosamente pra Jesus ou... o Zordon, pra eles é só uma cultura distinta. Lá eles ligam pra Izanagi ou... Jiraya, carambolas, é tão fácil compreender, é outra cultura!

Continuando.

A MAIORIA (pra não dizer todo mundo) assume que Xenogears se baseia principalmente em Nietzsche, afinal, ele é um pensador pop e é usado em uma das simbologias mais impactantes desse jogo. Mas eles estão errados. Por que estou enfatizando isso? Ora, porque pra muitos esse jogo se chama Nietgears de tão exagerada e forçada são muitas das ligações.

Já comentei sobre Ouroboros NESSE artigo, pra quem quiser saber.

Diferente de Xenosaga, Xenogears é muito mais gnóstico do que qualquer coisa. Podemos observar facilmente. Sophia, os Aeons, (Angels na tradução dos EUA) o conceito de dimensões paralelas superiores, o conceito de "Demiurgo" usado na arma "Deus", ou até mesmo o "Eterno Retorno" que nos remete bem mais ao conceito Gnóstico onde o Demiurgo destina humanos a um ciclo de sofrimento, para controla-los, apesar de – como sempre – definirem como coisa do Niet... Urr!

O que eu quero dizer é que TEM MUITA referência e inspiração em muita coisa! Ver um coral de pessoas recitando exatamente a mesma vertente de pensamento em MIL lugares por aí com dezenas de comparações forçadas para com um grande pensador só porque ele é famoso... apesar de ser até compreensível, me incomoda. Muito.

Mas estou divagando.

Esse é meu segundo momento "Ui, ui, ui" nesse artigo, prometo que parei.

Continuando.

Xenogears tem a ideia de Dualidade também bastante exposta. O que define vários elementos desse jogo. São muitos os momentos que essa ideia é exposta. Desde as várias derivações de personalidade de um indivíduo que "parecem separadas", mas que fazem parte de um todo, como quando vemos dois anjos de mãos dadas na igreja, nos expondo a dependência humana e a busca de outro ser. Aludindo a ideia de que a busca de se complementar, (se compreender) é a experiência necessária para evoluir.



"Vocês humanos são seres vivos realmente incomuns, "não-chu"?! São como fragmentos de um espelho quebrado." - Chu-Chu

A priori, o jogo nos mostra que todos os humanos são incompletos e tendem a se refletir como espelho nos outros, ao mesmo tempo se ferindo, pois quando quebrados, se ferem em seus próprios cacos de vidro. Isso nos remete ao estado decadente da humanidade do mundo de Xenogears, e no final, temos a busca da redenção buscando a compreensão. Cada detalhe nos leva para uma mensagem.

A outra maior influência que vemos em Xenogears, além de gnóstica, são conceitos criados e estudados por grandes psicanalistas. Como já sabemos, dois bem famosos, Siegmund Freud, "apenas" o criador da psicanalise, e Carl Jung, o homem que criou a psicologia analítica. Mas não só esses estão por aqui. As referências de Soraya e Takahashi, o casal criador do roteiro, como já falei, são INÚMERAS!



Desde ideias próprias, a experiencias de séries e livros que eles gostam ou até coisas mais detalhadas sobre sua vasta experiência de estudos sobre filosofia e psicologia. O enredo de Xenogears é um produto de muito estudo e leitura sobre esses conteúdos. MUITO.


No livro Perfect Works, uma espécie de almanaque especial que tem tudo que você precisa saber sobre Xenogears, explica muitas dessas inspirações, recomendo pra qualquer fã. Uma das coisas mais interessantes que descobrimos nele é a "Teoria do Neurose", algo estudado bastante por Claudio Naranjo e Karen Horney.

Trata-se de um modelo de interpretação existencial sobre a neurose, seguindo a ideia que, em resumo, toda a psicopatologia é a perda do ser. A ideia central é que estamos olhando para a chave da "nossa libertação" em lugares errados.  Este erro está na raiz do sistemas de crenças e ideologias que construímos desde a nossa existência, essa é a fonte da nossa infelicidade.

E meus amigos, ISSO resume a base inicial do plot de Xenogears.

Sou extremamente fascinado por esses conceitos, como vocês já devem ter percebido, mas infelizmente não posso colocar tudo nesse artigo pra ele não ficar ainda maior. Tirei essas informações de um artigo especial do finado Xenotensei uma lugar maravilhoso que continha tudo sobre Xenogears, mas que hoje não vive mais. Um dia sai um artigo tratando exclusivamente dessas informações, provavelmente.


++Adicional

Vocês já jogaram o melhor jogo de luta do mundo?! Pra quem não sabe, é um jogo onde você pode se transformar numa fera humanoide (tigre lobo, leão, topeira etc) e dar voadoras nos outros! Chama-se Bloody Roar e um dia ganha artigo aqui! Afinal, sou um dos 5 fanboys bobocas desse jogos que existem, muito provavelmente.

Existe um personagem nele que se chama Long.

Olhem bem seu design.



Parecido com alguém?


Até o background lembra um pouco. Mas calma, não é plágio nem de um nem de outro. Ambos são esteriótipos de algum design chinês aí... eu acho...


Considerações finais

Então, finalmente, o que é Xenogears? Acho que o termo "jogo" ainda é muito vago pra relatar a experiência que muitas dessas obram podem exprimir. Enfim, como já falei tantas vezes, esse é um dos exemplos, senão o melhor deles, que expressam a capacidade que games possuem, ainda mais intensificado com sua imersão única. Ele tem muitos defeitos e limitações, sim, mas seu conteúdo é muito rico e vai bem além de referências interessantes, passando mensagens muitas vezes simples, mas bem valorosas.

Se eu fosse realmente explicar todo o enredo desse jogo, acho que eu precisaria de uns 10 artigos. E ainda não estou pronto psicologicamente pra largar o meu favoritismo e foco de explicações e epifanias para com Dark Souls...

Porém, esse era o jogo que eu MAIS queria escrever aqui no blog, até mais que Dark Souls, e é por isso que esperei um momento tão especial para tal.



1 ano de blog! UOW! 

Xenogears é muito especial, espero que esse artigo os façam conhecer mais da obra, os façam rejogar e discutir sobre seus detalhes, é um jogo que merece muito amor. Sei que é difícil, mas mantenho as esperanças que um dia a Square olhe pra ele de novo, que deve estar esquecido nos arquivos da empresa há anos em alguma pasta fria e úmida sem sequer ter o direito de ver a luz do sol.

Se você tiver interessado sobre Xenosaga, um dia um artigo desse naipe sai aqui também. Se quiserem acompanhar o blog, já sabem, curtam a página, tudo é postado lá. Aqui me despeço!


Até dia MIL procês.

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