O que pode mudar a natureza de um homem? - Um review de Planescape: Torment




"Imortalidade" é apenas uma palavra. Tudo que existe pode morrer. Pra cada coisa viva, há uma arma da que se não tem defesa. Tempo, doenças, ferro, culpa."



ALRIGHT, Imagine que você está destinado a viver em um eterno ciclo de "vida e morte". Onde a cada "vida" perdida, suas memórias são apagadas, o fazendo recomeçar do zero em cada reencarnação, e repetindo o processo milhares de vezes. Numa busca sem fim de resgatar seus conhecimentos perdidos e saber o porquê de ser assim. Uma eternidade de tormento.

Podemos dizer que essa é a premissa de Planescape: Torment.

Nameless One, o protagonista que você encarna, acorda mais uma vez de sua morte, e paira num mortuário, sem lembranças, confuso, cheio de cicatrizes, com uma cor de pele de pão mofado, uma tanga e adereços pouco cristãos, enquanto está cercado de zumbis que murmurram, corpos dissecados em mesas com tripas e músculos para fora. Até que um crânio flutuante, prolixo, bem humorado com olhos esbugalhados, chamado Morte — que parece saber pelo menos um pouco sobre você — surge para auxiliar na saída desse lugar que provavelmente deve feder a bacalhau podre. 

Um jogo digno pra se jogar na sala com a família, huh?




Daí você deve estar pensando: "WHAT?!"

A priore, podemos pensar "nossa, um protagonista acordando sem memória, MAS QUE ORIGINAL, UR DUR", mas a falta de memória se conceitua com a ideia que foi formada pra concretizar TODO o grandioso enredo. Carambolas, ainda se tem muito conteúdo pra consumir. Não vá julgando nada por enquanto, ou se não você estará atingindo os níveis mais altos e perigosos de BOBALHICE.


Você não quer isso, quer? 

Assim, saímos em busca de entender o porquê Nameless One é assim, num multiverso composto de vários planos existenciais, onde encontramos deidades, demônios e tipos de humanoides bem diferentes vivendo respectivamente em suas áreas, numa espécie de civilização mistica pouco ortodoxa diferente de muita coisa que você já viu por aí.

Como centenas de RPGs, seu início pode parecer um pouco lento, mas quando ele engrena de verdade, já podem saber que ele toma proporções fantásticas. O jogo realmente nos dá vários momentos de reflexão sobre a vida em dezenas de momentos de sua narrativa. Morte, vida, culpa, tudo isso ganha uma outra dimensão de entendimento em várias perspectivas de acordo como você explora essa obra tão singular.

Como meu objetivo aqui é fazer com o que máximo de vertebrados que gostam de RPG e ainda não o jogaram finalmente vão corrigir esse erro, sem SPOILERS pessoal.

Sobre o jogo


Planescape é envolto de uma camada que afasta a grande maioria dos jogadores. Pra começar, o foco em diálogos é sua principal base. Oh, "diálogos", não. EXTENSOS DIÁLOGOS

Vejo como uma faca de dois gumes, enquanto esse elemento de gameplay afasta a grande maioria dos jogadores, transforma a interação com esse jogo numa das mais completas e únicas já vistas de todos os tempos. 

E não, não é exagero. Realmente, suas escolhas tem um peso e consequência. As opções são tão grandes que eu particularmente o apelido  de "livro jogável". Nunca li tanto num jogo na minha vida, e isso também nunca foi tão proveitoso como aqui! Mas, claro que isso vai afastar uma porrada de gente...

Não só isso, seus sistemas de gameplay são complexos, o enredo é mais ainda, e seu gameplay é "atrapalhado", pra não dizer impertinente. Sem falar do marketing financiado com pão com ovo e suco de cajá, o que nos resulta em um jogo parcialmente esquecido pelas eras, lembrado apenas por aqueles aficionados por RPGs que vivem em cavernas do submundo que tiveram coragem de aprecia-lo.

Sem falar que Nameless One não era um cara que cativava muita gente, né?  Mas é justamente esse estilo exótico que é o principal diferencial nessa obra. Devo dizer que isso define Planescape: EXÓTICO!


Mas é aí que está a grande sacada dessa obra. Seu foco é no diálogo, na inteligência e na estratégia de como lidar com situações.  Sobre as mecânicas, eu não diria que elas são ruins, pelo contrário, apenas difíceis de lidar no começo. Se você realmente dominar as mecânicas, principalmente magias, o jogo se torna muito mais divertido nesse quesito.



Aqui, você pode usar pontos de atributos para definir a classe que melhor combina com seu estilo, mas vendo que esse é um jogo de diálogo, Carisma é sempre uma boa pedida pra você evoluir. 

Tenham isso como uma dica.



Pois é com o diálogo que vamos ter as escolhas éticas desse jogo, e isso fará o mundo mudar ao nosso redor, de forma sútil ou não.

Como há de se observar, seu estilo de câmera é originado de alguma perspectiva axonométrica (creio que a isométrica), afinal é um jogo assinado pela Black Isle Studios, a mesma galera de Baldurs Gates, Fallout 1 e 2, por exemplo. Foi lançado lá pro final dos anos 90, então espere os gráficos da época. 

E sinceramente, foi o que me cativou nesse jogo. Essa vibe dele me lembrava um pouco Legacy of Kain, e foi um dos principais fatores pra eu ir joga-lo. Pelo menos pra mim, a curiosidade de entender esse mundo tão diferente e esse design bizarro me motivou quase que instantaneamente assim que bati o olho nele. Agradeço ao meu amigo Raabs por isso.

Eu já escrevi um pouco sobre Legacy of Kain AQUI no blog, gosto um pouco dessa série... Só um pouco...

O jogo se passa num multiverso chamado "Planescape" criado para o RPG de mesa "nada" conhecido chamado: Advanced Dugeons and Dragons. E com certeza é um dos universo mais psicodélicos e místicos já criados até a quinta dimensão! 

Conhecendo brevemente os Planos da Existência


Primeiramente, começamos nossa jornada de descobertas assim que saímos do mortuário, dando de cara com Sig-il, uma cidade neutra que serve como o centro de portais para outros planos da existência. Essa cidade é protegida e supervisionada  pela poderosa Lady of Pain, enquanto quinze facções (com crenças, metodologias e filosofias), cuidam  e controlam diferentes funções da cidade e sociedade.

Dessas 15 facções, podemos optar por 5, e cada uma mostra um ponto de vista sobre o universo e a vida, o que é um dos detalhes mais legais de se observar.


Como exemplo, podemos optar em escolher a facção Godsmen, que acredita que cada Plano Existencial possui um propósito de teste para aqueles que neles vivem. Eles querem entender o objetivo desse teste e com a destruição do multiverso, ascender para uma nova existência.

Você também pode escolher a Dustmen, onde temos devotos à "Verdadeira Morte". Para alcança-la, é necessário se privar de todas as emoções que nos prendem aos sentimentos do mundo, e que não nos permite ter a "paz absoluta". Assim, ao alcançar esse estado de espirito, é possível transcender.

E como ultimo exemplo, você pode simplesmente ser um Anarquista, que acredita que todas as facções são corruptas e que não guiam de verdade os seres viventes, apenas criam uma ilusão. Sua ideologia assume que as pessoas devem se guiar por elas mesmas. 



Claro, existem ainda 13 facções igualmente interessantes, mas isso é só a ponta do iceberg do quão tão bem projetado é esse mundo. Dentre as 5 que podemos escolher, cada uma influi diretamente em um aspecto da jogabilidade, dando específicas habilidades e vantagens. Como exemplo, temos a que eu optei, o anarquismo, que me dava a habilidade de me infiltrar em todas as facções, porém não me permitia pegar suas habilidades mais poderosas, e sim as mais "comuns". Com as estratégias corretas, você pode fazer um bom uso disso, mas se quer habilidades OVERPOWER, recomendaria a Godsmen. 

É um mundo bem diferente. Mas, acredite, ele te absorve, e logo toda a anormalidade impossível de se acreditar acaba se tornando absolutamente normal. Não demora até estarmos tentando puxar conversa com zumbis, indo em bares e tentando entender políticas entre monstros dos mais diversos tipos.



Assim, nós somos apresentados à esse distópico e bizarro multiverso de Planescape, e aprendemos seus detalhes da forma mais natural possível, ele realmente consegue cativar o player de uma forma bem confortável. 

Algo que me deixa perplexo é esse design dele, com certeza me chama a atenção demais.


E já que estamos falando de imersão e interação, vamos falar das principais ferramentas que nos auxiliam nesses aspectos: Os memoráveis personagens!

Devo dizer que Torment tem minha party favorita em um RPG desde Final Fantasy 6. São todos extremamente diferentes, pra não dizer bizarros. Mas são cativantes ao mesmo tempo, possuem backgrounds bem arquitetados, e além disso tudo, se conectam com Nameless one, o multiverso e toda a trama de forma muito consistente. Podemos agradecer esse tipo de interação aos imensos diálogos, que ao mesmo tempo que se torna um "vilão" em expelir a maioria dos players, cativam outros e tornam a experiência ainda mais soberba.



Cada personagem possui sua própria visão sobre o mundo, e isso gera diálogos únicos e bem especiais com boa parte deles. Podemos citar nosso amigo e parça desde o início da jornada, Morte, a caveira gente boa.

E aêeeeeeeeeeeee!!!!!

Pode não ter um corpo, mas isso não quer dizer que não pode lutar. Ele é aquele amigo falastrão da party que desorienta os inimigos falando mais do que deve e pode ser providencial em combate. De fato, ele é o aspecto de humor do jogo, o alívio cômico nesse mundo "bizarro", e isso realmente o faz um dos personagens mais "daoravida" de RPGs de todos os tempos. A caveira mais foda do ramo, sem dúvida! 

Ele também não deve nada no background e nutri uma relação de amizade com Nameless one bem maior que imaginamos.

"Time is not your enemy, forever is."

Outra personagem fabulosa (e minha favorita) é From fall Grace, uma bela súcubo dona de um... bordel...

Calma, não é bem o que parece, suas motivações e formas de lidar com o mundo são bem diferentes do que ela aparenta, como quase tudo nesse jogo. É responsável por vários dos quotes mais interessantes da trama, e uma das personagens mais providenciais para se ter na party. 

Ainda há outros personagens interessantes, todos eles são incríveis e bem escritos. Toda a party, e todos os acontecimentos que nos levam nas missões desse jogo nos guiam e fazem parte da premissa principal e da sua resolução: 

"O que pode mudar a natureza de um homem?"


Pois é, pessoal. Texto rápido, o que não é bem comum aqui no blog. Mas, tratando-se da natureza e do objetivo aqui, creio que seja compreensível, evitei o máximo de dar mais detalhes sobre ele. Espero realmente atrair algum ser vivo a jogar esse jogo, e quem sabe no futuro faço um artigo no nosso estilo MIL. Vamos ver, realmente estou tentado a passar horas escrevendo sobre essa maravilha, tive uma batalha mental aqui pra não fazer isso, vocês nem imaginam.

Pra os que já conheciam o jogo, meus parabéns! E não, eu estar fazendo esse review não tem nada a ver com a nova sequência espiritual que esta prestes ser lançada pelos seus criadores: Torment: Tides of Numenera.

De onde vocês tiraram isso?

UHU, HYPE!!!

...

Quer dizer, vejo vocês outro dia.
UPDATE MY JORNAL.
Até!


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