O dualismo de Breath of Fire IV


Já disse isso antes, mas direi de novo. Morro de amores por Breath of Fire! Pois é uma das séries mais incríveis que já surgiram nessa industria e um dos melhores exemplos de qualidade do gênero JRPG.

Okay, e o que posso dizer do quarto título desse renomado clássico sucesso da nossa querida Crapcom?

Comecemos com a introdução do enredo.

E como sempre, sem spoilers por enquanto.



Em um mundo fantástico povoado por seres antropomórficos, "dragões Eternos" e muita areia, dois impérios surgiram, cada um com suas particularidades culturais inspiradas no mundo real. Em suas explorações de território, ambos os reinos se encontraram, e de alguma forma um conflito violento entre eles se instalou. A guerra durou por gerações, até que o fim dos recursos de ambos pausou parcialmente os ânimos, gerando uma espécie de "paz", que se resumia num clima de tensão onde militares e suas razões egoístas podiam desencadear um conflito a qualquer momento, mais uma vez.


Até onde eu sei, a informação de universos compartilhados em BoF nunca foi confirmada oficialmente, porém, ligações existem, e são muitas referências que comprovam isso. Seguindo essa linha teórica, dá pra se dizer que BoF IV é o gênese do mundo da série. Em outras palavras, onde tudo começou. E isso explicaria o fato dele ser o mais "arcaico" deles. 

E é nesse contexto que o jogo começa, Nina, a princesa do clã Wyndia e seu cunhado Cray, líder do clã Woren, buscam por Elina (a irmã de Nina), que está desaparecida há dias após uma "missão diplomática" da qual foi encarregada. A trajetória da dupla muda quando um estranho objeto cai dos céus, e de sua cratera brota um garoto de cabelos azuis com a única lembrança de seu nome, Ryu.

Que isso Ryu, nem pagou uma coca pra ela ainda.
Pois é, protagonista acordando sem memória, o maior arquétipo entre protagonistas de RPG. Mas não se enganem, como em muitos exemplos, é mais um clichê feito de forma muito bem feita.

Numa tentativa de ajudar Ryu e continuar a busca por Elina, a dupla se une com o garoto e parte para ajuda-lo a descobrir mais sobre ele mesmo, e claro, achar o que procuram.


Ao mesmo tempo, somos introduzidos ao "antagonista", o antigo deus imperador Fou-Lu, que desperta em busca de voltar a imperar o mundo. Porém, ele encontra-se fraco por ter acabado de acordar, e todo mundo é vulnerável ao acordar, principalmente depois de séculos. Assim, sendo alvo fácil para as intenções assassinas de Yohm, atual general das forças do exercito do império de Fou, que sabia de sua ressurreição e seu plano de dominação. 

Por que ele o ataca? Não sabemos ainda.

Fou-Lu, ainda fragilizado pela sua experiência de "reencarnação", acaba perdendo e tendo que recuar, criando uma dinâmica imaterial com Ryu, sua outra metade espiritual que acabou por se desassociar dele por motivos também ainda não explicados, mas certamente a razão pelo enfraquecimento de Fou. 

Fou-Lu e Ryu possuem objetivos e visões distintas, e conduzem a trama por duas perspectivas, enquanto tentam compreender e achar algo bom no mundo e nos seres que o habitam. Apesar da minha intro favorita ser a de BoF III, eu gosto bastante da de BoF IV. Ela realmente consegue aguçar a curiosidade. Pelo menos comigo foi assim.


Não demora muito até irmos conhecendo os nossos protagonistas por inteiro, e devo dizer que todos eles tem seus méritos! Temos o cavalheiro cachorro samurai avarento Scias, que de longe é um dos melhores personagens da série. Ursula, a valente, disciplinada e gentil AO SEU MODO, integrante do exército do império de Fou. Ershin, a excêntrica e misteriosa armadura "viva". O já mencionado Cray, que diferente das outras "pessoas-tigres" de BoF, mostra-se mais sério e centrado, o que é compreensível, visto que é um líder responsável de sua tribo e está na atual preocupante situação de buscar por Elina. E por fim, temos a também já citada Nina, que nessa versão é a síntese de uma garotinha benevolente curandeira de um JRPG.

Ah, e não podemos esquecer de uma das melhores e mais importantes aparições de Deis na série. Porque Deis é amor!

É uma party interessante e que funciona muito bem na minha opinião, seja no enredo como força conjunta ou em combate. Todos são muito bem direcionados para suas funções. Mas antes de desenvolver mais sobre esses characters e  enredo, como já é de praxe.. vamos aos...

Conceitos técnicos

O jogo foi desenvolvido pela Capcom e lançado em meados dos anos 2000 pra PS1, e posteriormente pra PC. Trata-se de um isométrico JRPG de turno com sprites formidáveis na maioria dos personagens, que foram desenhados à mão. Seu sistema de batalha é bem particular, com 3 protagonistas na linha de frente da batalha enquanto os outros podem ficar numa área defensiva como suporte, criando um rodízio de uso de personagens a cada extensa dugeon do jogo, o que faz com que todos os membros da party sejam úteis e se ajudem. Afinal, todo personagem possui seu próprio estilo de combate e habilidade especial que pode facilitar em determinadas situações. Também possuem suas fraquezas, e essa interação de "rodízio" serve pra criar um equilíbrio pra cada adversidade. Em outras palavras, se der problemas, cada um cobre o outro.

Retrato da galera depois de cada dugeon infeliz desse game.
O jogo funciona muito bem nesse aspecto, ainda mais com meu adicional favorito, o sistema de COMBOS! Que é nada mais, nada menos, que uma sequência de movimentos que pode ser fundida resultando num bônus escarrado de dano nos monstros. Em outras palavras, APELAÇÃO! Em batalhas, BoF IV é impecável, e as opções estratégicas são inúmeras. Fora o fato de aprendizado com Mestres ou NPCs que estendem ainda mais o leque de habilidades em combate.


A fluidez dessas animações são maravilhosas.



Porém, nem tudo são flores. O sistema de batalha randômica pode ser frustante, principalmente se você se perder em alguma dugeon, o que é perfeitamente comum em jogos desse gênero. Não me lembro de ter passado tanta raiva nesse quesito em um JRPG, além de Persona 2. Mas eu gosto tanto desse jogo que deixo passar, afinal tô acostumado com isso.



Sobre o level design, só tenho a tecer elogios. O estilo cartoonizado desse artista da Capcom é MAGNIFICO. E os cenários não deixam nada a desejar também. Uma diferença muito comentada e fácil de observar são as formas "dragonicas" em 3D, e em minha opinião, apesar de preferir os sprites, há de se admitir que a imponência que eles ganharam em BoF 4 é realmente gritante, e creio que seja um ponto muito positivo sobre essas criaturas aqui. Mas enfim, o uso dos dragões em batalha são de longe um ponto alto do gameplay em BoF, e não é exceção no quarto título também. Inclusive, mantiveram a transformação parcial e humanoide dragonica de BoF3 em Ryu e Fou-Lu, coisa que eu gosto muito, por sinal.


Sobre o design das cidades e seus habitante,s eu diria que são bastante curiosos. Por exemplo, você consegue notar o estilo feudal oriental, o medieval europeu e até o árabe de acordo com que explora os locais do jogo, e isso é de fato algo que me impressiona bastante, afinal, BoF é sempre bom em expor as culturas enraizadas inspiradas no mundo real.

Olhem esse fodendo dragão!


Sobre a trilha sonora, devo dizer que BoF IV tem osts memoráveis e que guardo imenso carinho. O fator nostalgia aqui é imensamente forte... e os feels também...




O plot se mostra bastante focado no seu objetivo de mensagem, e a experiência é ótima... Exceto quando os FEELS acertam seu pulmão e te jogam pra longe, mas isso só é um lapso de como o enredo é bem pensado pra expor os pontos de vista que o game conscientemente quer nos mostrar.

Eu diria que ele sabe pra que veio, e não se perde no caminho.

Falando nisso, tem uma coisa que escuto quase como se fosse um hino na comunidade, e isso muito me incomoda. 

"Fou-Lu é o Sephirot de BoF."

Hã? Em que sentido, o cabelo ser branco? Mas que groselha de pensamento é esse?



Imagino que essa seja alguma opinião mal formada repassada erroneamente que acaba sendo repetida tantas vezes até se tornar uma "verdade" entre a comunidade. Vejam bem, Sephirot é um antagonista que rapidamente involui pra um vilão possuído pela insanidade. O que o torna assim é, em primeira instância, o controle de Jenova, até finalmente se tornar sua real característica de superioridade para com os outros seres e sua origem de vida incompreensível.



Já Fou-Lu, é um dos vários antagonistas de BoF IV, que enquanto o jogo segue, se torna o principal. Seus objetivos e suas visões sobre o mundo são retratos de uma observação melancólica sobre atitudes humanas, o ódio, incompreensão e egoísmo tolo que eles insistem em destilar. Que claro, remete bastante à nossa humanidade. Fou lu é um personagem trágico, ele sofreu com o mundo e com os humanos, diferente de Sephirot, que NÃO É.

Espero ter me feito claro aqui...

Agora vamos ao próximo tópico! E devo avisar que... SPOILERS, SPOILERS E SPOILERS. Então se não jogou, já sabe. 

Dualismo




Em resumo, dualismo é a concepção filosófica que guia toda a trama de BoF IV, a propriedade com duas naturezas e dois princípios opostos, sintetizada por Ryu e Fou-Lu. E o que o jogo faz para que observemos isso das formas mais chocantes possíveis?

Uma palavra: Carronade.



Um canhão mágico que consiste em atirar um feitiço extremamente poderoso criado para destruir um Deus, ou mais precisamente, Fou-Lu. Para que o feitiço tenha mais efeito, é necessário que o "combustível" do canhão tenha ligação com o alvo, e mais, o sofrimento do combustível intensifica o efeito destrutivo.


O que nos remete a morte mais cruel e terrível que vi nos jogos dessa série, a morte de Mami, a mocinha que cuida dos ferimentos de Fou-Lu e o faz enxergar alguma fagulha de bondade na humanidade. Ela é torturada desumanamente, pra depois ser consumida e finalmente morrer.

Okay, calma que tem mais...

Elina tem um destino destroçado ao ser transformada "sinteticamente" em um Eterno (um deus), de formas igualmente cruéis e bizarras, a fazendo perder seu direito de existir normalmente, nos trazendo para a única forma de livra-la desse sofrimento: a matando. Coisa que sobra para Cray fazer.

Irmã de Nina só se fode nessa série...

O objetivo era mais uma vez usa-la na maldita Carronade. Porque virando uma espécie de "deus", teria um elo com Fou-Lu, e sendo imortal, teríamos um canhão com munição infinita...


Pra terminar o trio dos feels mais impactantes desse jogo, a morte de dezenas de crianças pós tortura de um oficial do exército egoísta e cruel, fato que acorda o poder e o ódio de Ryu pela primeira vez, e também o faz questionar e instaura a duvida sobre as capacidades de fazer merda dos humanos.


Pela primeira vez vi realmente o poder de Ryu exposto, narrativamente falando, em BoF.


Enfim, e o que isso influência na "Dualidade"?

Vamos entender as tramoias desse enredo primeiro.

De um lado temos Fou-Lu, o criador do milenar "império de Fou" que deixou de interferir na vida dos humanos quando caiu em sono profundo, ainda há muito tempo. Durante esse período, os atuais imperadores resolveram agir por egoísmo e renunciaram não só aos deuses como a própria humanidade em busca de poder.

"Eles, os mortais são animais orgulhosos e ignorantes. Eles mentem uns para os outros, se ferem e ferem seus companheiros, eles se matam por puro esporte. Sua loucura é imensurável."  - Fou-Lu

Infelizmente, Fou-Lu em sua volta não teve a sorte de encontrar companheiros presentes que o ajudavam a ver o bem da humanidade quando ele se perdia, como Ryu teve. Sempre que Fou-Lu experimentava a bondade humana e ganhava um pouco de fé, ela se dissipava abruptamente pela crueldade humana.

Logo, Fou-Lu passa a representar o desprezo pelos humanos, seu objetivo é extermina-los do planeta, afinal eles só fazem mal pra si mesmos e tudo que vive, como vemos no próprio jogo (e na vida real, huh?).


Já Ryu, sua outra metade, simboliza a esperança que Fou deixou pra trás. Apesar de Ryu ter vivenciado a crueldade humana, ele também vivenciou a bondade, e sabe que ela existe. Entretanto, Ryu não é "o protagonista herói escolhido para trazer o bem" e seus companheiros não estão lá simplesmente para o ajudar e tudo ficar feliz para sempre.

Sabemos que isso não existe em BoF.

Cada membro da party e suas atitudes de compreensão entre eles mesmos simbolizam e representam a mudança que o mundo pode tomar. Eles não são grandes heróis bondosos e únicos, eles simplesmente se importam um com o outro, e é isso que Ryu enxerga, a simplicidade e bondade que eles são capazes de ter. Isso o convence a tomar o caminho de ter fé na humanidade, e consequentemente, tentar abrir os olhos de Fou-Lu, posteriormente.

É dito que Ryu e Fou-Lu se separaram durante uma invocação mal sucedida, mas Ryu acredita que há uma razão bem maior por trás disso, e eu acredito nisso também. Creio que Ryu nasceu, simbolicamente, como a parte da fé de Fou-Lu.



Apesar do final apaziguador e esperançoso, BoF IV não pune todos os ruins, e não muda o mundo de uma hora pra outra, sequer foca na resolução das brigas dos impérios. Ele deixa sua mensagem para o player e a esperança de mudança no mundo do jogo. E quem sabe nos deixa inspirados a fazer o mesmo.

Como eu disse, é um jogo focado em sua mensagem, "ele sabe pra que veio, e não se perde no caminho". Por mais que fiquemos incomodados com "injustiças", essa é a realidade, e Breath of Fire sempre foi maduro o suficiente pra expor isso pra nós, players.

+Adicional

Quase nunca vemos boas adaptações de games originadas de por aí, certo? Pois aqui está um dos raros exemplos onde isso deu certo. Anos depois do lançamento de BoF IV, um mangá explicando a história do jogo foi lançado, não era o primeiro, mas acredito que essa foi a versão mais completa. A arte não é a maravilhosa que conhecemos mas ainda assim é ótimo. E a fidelidade também, levando em conta algumas mudanças e exclusões de elementos como é esperado de uma adaptação. Um ponto muito positivo pra mim é ver Ryu se expressando mais, tirando aquele "carga" de protagonista caladão de JRPG. Coisa que as adaptações de Persona fizeram muito errado.

O mangá realmente serve pra explicar alguns pontos não tão explícitos no jogo, principalmente por sua má tradução em inglês.

Recomendo pra vocês.

Considerações finais


E chegamos ao fim de mais um artigo deste recinto! Apesar de achar BoF II o melhor da série, creio que BoF IV seja meu favorito, mesmo com seus defeitos. Ele é muitas vezes injustiçado por algumas críticas de pessoas que não se inteiraram por todos os seus detalhes, mas é um excelente jogo, e tenho certeza que está nas memórias de muitos que o aproveitaram há décadas. Além de deixar a tristeza, nos deixa uma mensagem positiva no seu final também, mantendo a maturidade tão comum na série.

Diria que adoro todos os Breath of Fires, até mesmo o V, que apesar de ser o mais inferior, ainda é um jogo pra ser julgado em toda sua totalidade. Já BoF6... me abstenho de comentar...

Sugestões e rages são sempre bem vindos, e se quiserem acompanhar o blog, recomendo que curtam nossa page do facebook porque postamos tudo lá! Por que? Ora... porque sim, ué... algumas coisas da vida não precisam de explicação! Vão lá curtir.

Até dia MIL procês.

Deixo vocês com a Deiss tomando banho na Ershin porque SIM, e nem vem com "ui ui ui sexista", até porque já tivemos Ryu pelado lá em cima, carambolas!


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