Slam Dunk: Uma verdadeira aula teórica de basquete


Sabem, se eu tivesse que ranquear meus maiores defeitos, o “nunca assistir anime comprido ou ficar enrolando pra ver mais tarde” estaria fácil no top 10. E Slam Dunk era um desses casos.

Um vício dos bem bestas que possuo é ver aberturas/encerramentos de anime no YouTube. Eu não preciso ter assistido o anime, mas eu vejo a abertura/encerramento por motivos batata. A questão é que as melhores que sempre encontro são dos anos... 90, e uma das que mais via era desse tal anime de basquete com um maluco que parecia o Kuwabara do Yu Yu Hakusho. Eis que, numa atitude de coragem, (junto de uma insistência quase não violenta do Flames) resolvi ver esse anime, mesmo com seus 101 episódios (sim, isso pra mim já é longo pra cacete).


PS: Esse artigo vai ter imagem pra caramba entre os parágrafos, pois arte do Inoue >>> all


Acho que uma das coisas que me fez pegar muito no tranco com o anime foi o fator surpresa. Vendo aquelas aberturas e encerramentos (que são algumas das melhores já feitas pra animes em todos os tempos, sem muita discussão), sempre entendi o tal do protagonista como o pica das galáxias, líder do time dele e a porra toda, coisa típica de anime de esporte. Bem... Não tinha nada a ver!


Logo no começo, somos apresentados ao protagonista chamado Sakuragi Hanamichi em um momento muito longe da glória. Pra falar a verdade, ele tava era tomando seu 50º FORA, ainda no Ensino Fundamental. Se tu pensa que tá fodido forever alone, tente usar o Sakuragi pra melhorar sua auto-estima, às vezes ajuda. A partir disso, já notamos que se trata de algo com enorme enfoque no humor, e isso se mantém durante toda a obra.

Antes de irmos avançando, melhor apresentar devidamente o material. Slam Dunk é um mangá que foi publicado pela Shonen Jump de 1990 à 1996, possuindo um anime da Toei que foi exibido entre 1993 e 1996. Criado por Takehiko Inoue (o qual já possuímos artigo aqui no blog), o material acabou se tornando um dos MAIORES SUCESSOS DA HISTÓRIA DO JAPÃO! Infelizmente aqui não notamos tanto isso, mas por lá o sucesso de Slam Dunk é algo no mesmo nível de Naruto, por exemplo, tendo ficado como top 3 de vendas da Jump durante anos, até ser ultrapassado pelo mesmo e One Piece (mas ainda é o maior recordista em vendas de encadernados, se não me engano). Além disso, em várias enquetes com fãs e até mesmo especialistas, já apareceu como mangá mais querido, com maior expectativa de sequência e até mesmo como melhor mangá da história.

É, a fanbase de Slam Dunk é algo surpreendente lá.



Mesmo datado de 1990, as reais origens de Slam Dunk estão em 1988, com o mangá one-shot Purple Kaede, primeiro trabalho de Inoue como mangaká (já era assistente de Tsukaza Hojo antes). Nesse mangá, temos uma história bem simples, sobre um capitão de um time de basquete escolar chamado Rukawa Kaede, que é desafiado por um encrenqueiro chamado Akagi, muito por uma garota chamada Aya. De praxe, ainda temos o ex-capitão do time, Kogure, assistindo à partida. É bom lembrar desses nomes. Anos depois, usando como base elementos desse one-shot, Inoue lançou um piloto de um novo projeto sobre basquete, esse que vingou e acabou dando origem à Slam Dunk.


Agora vamos voltar à história do anime/mangá. Logo após aquele fora que eu citei, esse que, teve como ponto especial, a garota em questão estar gostando de um cara do time de basquete, vemos Sakuragi e sua gangue de encrenqueiros já no ensino médio, na escola Shohoku. Ainda naquela bad maldita (50 é um número pesado, vamos ser sinceros), Sakuragi entra em estado de fúria com todos que citam a palavra “basquete” (ou que pareça com a palavra), dando cabeçadas em todo infeliz que fizer isso (cabeçadas ala Zidade de Sakuragi são um dos charmes de toda a história).

Uma das principais características físicas de Sakuragi, além de seu cabelo vermelho com topete, é a sua altura, o que chama a atenção de uma garota chamada Haruko, paixão à primeira vista de Sakuragi. Ela pergunta se ele gosta de basquete, o que faz que aquele ódio de 1 minuto atrás se tornasse um modo de tentar chamar a atenção de Haruko, que se mostra fã do esporte. E bem, é aí que a história começa pra valer. Mesmo com ódio do esporte inicialmente, Sakuragi começa a se envolver com o basquete cada vez mais (mesmo não sabendo absolutamente nada), tudo por uma paixão cheirando a friendzone.


Daí é aquilo, durante o primeiro volume do mangá, e os 5 primeiros episódios do anime, somos apresentados à Rukawa, o “crush” de Haruko (maior motivo do ódio de Sakuragi por ele) e prodígio no basquete e à Akagi (irmão da Haruko), capitão do time de basquete, o qual Sakuragi se envolve num desafio de basquete logo de cara, um dos momentos mais engraçados de toda a trama. Apesar de o basquete parecer estar ferrando com a vida de Sakuragi, ele resolve que, se realmente quiser conquistar Haruko vai precisar entrar pro time. Conforme o tempo passa, vamos sendo apresentados aos outros personagens principais.  Assim, a trama se desenvolve pela busca do sonho de Akagi, que é “conquistar a nação”.



Eu tenho certeza que muita gente que vai ler isso deve possuir algum preconceito com mangás de esporte, mas Slam Dunk tem o poder de te conquistar. Pelo basquete também não ser popular no Japão, Inoue utiliza muito bem o roteiro pra atrair os leitores. Começando pelo protagonista, que é um adolescente comum cheio de erros e fracassos, e que não faz ideia do que é o basquete e de como se joga. Com isso, o leitor/telespectador vai recebendo aulas teóricas sobre basquete durante toda a história, sem que isso se torne chato, saca? (detalhe para o engraçadíssimo Mr. T) E mesmo os outros jogadores, apesar de muito talentosos, possuem vários defeitos, seja jogando, seja em personalidade.

Além disso Slam Dunk não é só um ótimo mangá de esportes, mas também um ótimo mangá de HUMOR. O lado “retardado” e burro de Sakuragi faz com que o humor esteja presente durante toda a história, isso sem contar todo o elenco tão engraçado, e CARISMÁTICO, quanto. Ah, e a gangue do Sakuragi, putz, é até apelagem compará-los, considerando que eles são o “alívio cômico” de algo já repleto de humor.



Ainda falando um pouco mais sobre os personagens, todos possuem seu carisma por serem adolescentes de certo modo comuns. Dos 6 principais do time, apenas Kogure e Akagi são bons na escola, enquanto os outros são tremendos vagabundos. Além disso, cada um possui características as quais você pode se identificar, o que pra mim é algo de extrema importância nesse tipo de história.



Temos o completo exagerado Sakuragi, que é um belo de um fracassado sonhador, Akagi que é todo certinho, inteligente, apaixonado por basquete e líder do grupo (apesar de ter ataques de fúria sempre), Miyagi que é outro deixado no vácuo pelas garotas (já que a maioria sabe que ele gosta é da Ayako), além de sofrer zoações pela baixa estatura, Mitsui que é o que tenta recuperar o tempo perdido, se cansando rápido, mas que ao mesmo tempo ainda quer botar moral por ser veterano, Rukawa que é o dorminhoco absurdamente talentoso e Kogure, que apesar de não ser tão talentoso, é decisivo principalmente como líder.

Além deles temos a Haruko, também apaixonada pelo esporte, Ayako que é a assistente exigente e o tranquilo e decisivo Anzai. No fim, juntando elementos de cada um, você fica se identificando com quase todos eles, isso sem contar Yohei e os outros palhaços da gangue do Sakuragi, que são aqueles trolls filhos da puta, mas que no fundo possuem uma profunda amizade com ele. Além de todos eles, ainda temos jogadores de times rivais, que também são bem trabalhados, principalmente os de Ryonan, Kainan, Shoyo e Sannoh (que aliás, são os times com melhores confrontos).


Acho que um dos pesares da série é o tratamento sobre família e passado dos personagens, que na maioria das vezes é ignorado. Os que acabam tendo um enfoque maior no passado são Akagi e Haruko, muito pela paixão desde de criança com o basquete. Mitsui também acaba recebendo um enorme tratamento sobre seu passado no começo da história, principalmente pela condição que ele se inicia no mangá/anime. Anzai tem um pouco de sua antiga personalidade rígida mostrada em flashbacks também. No fim, o próprio Sakuragi tem como ápice de tratamento do passado uma lembrança sobre algo envolvendo seu pai, algo que acabou o ajudando uma atitude de extrema importância em seu presente.


Apesar do gênero de esporte ser muitas vezes previsível, Inoue sabe trabalhar bem isso, tanto é que o final é bem surpreendente (por mais que seja forçado de uma forma errada, na minha opinião). Você realmente fica vidrado em tudo que acontece nas partidas, chegando a sentir aquela sensação de cansaço dos personagens, realmente se surpreendendo, principalmente se for um leigo como eu.

Além disso, pelo fato de Sakuragi ser um novato talentoso, isso rende inúmeros momentos inesperados, isso sem contar que, diferente de muitas obras que possuem seu ápice no começo ou no meio, decaindo mais pro final, Slam Dunk te prende cada vez mais, melhorando conforme o tempo passa. 


Como já foi bem mostrado no artigo do Inoue, ele possui um talento espetacular para a arte, e Slam Dunk é justamente o trabalho que mostra sua evolução como artista. No primeiro volume já notamos seu talento em vários quadros de página inteira, mas durante a história ainda temos uma arte mais escrachada, muito pelo humor. Conforme os capítulos passam sua arte vai evoluindo monstruosamente, chegando ao último volume sem acreditar que se trata do mesmo artista daquelas primeiros capítulos publicadas 6 anos antes no começo do mangá. Seu talento voa pelas páginas, possuindo uma perfeição absurda de expressão facial, além de um traço bem realista, mesmo sendo anterior à trabalhos como Vagabond.

Outro detalhe importante em sua arte é a anatomia, que fica mais perfeita a cada capítulo. Umas das coisas que Inoue utiliza muito bem é usar imagens de jogadas reais de basquete para fazer corpo e poses de jogadores (até mesmo expressão facial) fazendo realmente acreditar que aquilo é uma partida de basquete e que aqueles são movimentos reais (nada do tipo correr atrás da bola de futebol com os braços pra trás, claro). Além disso, os personagens possuem algumas influências de atletas famosos, seja em tipo de jogadas, nível de talento ou aparência. Por exemplo, Rukawa tem como base o gênio Michael Jordan, enquanto Sakuragi é inspirado em Dennis Rodman (principalmente no cabelo e no seu incrível talento nos rebotes).



O anime, apesar de ter uma animação, que na minha opinião possui alguns defeitos, é muito bom, tanto é que foi um enorme sucesso em sua época. O traço pode não ser tão bem transportado, mas considerando que estamos falando do Inoue, temos que aceitar que seria realmente bem difícil algo muito fiel ao traço. A trilha sonora é muito boa, assim como a dublagem japonesa. Alguns dos defeitos que gostaria de citar é o exagero de enrolação (tem uma partida com 21 episódios, ou seja, 7 horas de duração) e ele não adapta o mangá completamente (ele encerra no equivalente ao volume 22, tendo que ler do 23 ao 31 pra terminar a história). Mas para compensar isso, ele é muito fiel, chegando a transportar quadros inteiros do mangá pra tela de forma incrível. Até mesmo os fillers, que são jogados à rodo nos últimos 20 episódios, são bem divertidos. De praxe também temos 4 OVAs, além dos 101 episódios.



Voltando à falar da trilha sonora, as aberturas e encerramentos, que foi por onde comecei o artigo, são incríveis, mais bem animados que o anime em si, possuindo ótimas músicas que se tornam marcantes, seguindo aquele padrão de vibe romântica de animes dos anos 90.













Uma curiosidade é que, além do Purple Kaede, também existe outra one-shot, mais recente, chamada Piercing, que trata de duas crianças chamadas Ryota e Ayako envolvendo... Brincos. Não dá muito pra saber se são os mesmos de Slam Dunk, ou se é apenas uma brincadeira com os personagens por parte do Inoue. Mesmo assim, indico que leiam depois. Assim como também existe uma one-shot chamada Slam Dunk - 10 Dias Depois, que saiu em 2004 e mostra o que aconteceu... 10 dias depois do final do mangá. É todo feito em tirinhas, vale a pena também conferir.


E no Brasil?

Infelizmente a presença de Slam Dunk no Brasil é mais triste que aquele episódio que o Chaves é chamado de ladrão. Slam Dunk foi exibido pra praticamente toda a América, mas nunca deu as caras por aqui, nem na TV paga. Com toda a certeza ele deve ter sido oferecido às emissoras, mas infelizmente a mentalidade brasileira voltada totalmente ao futebol ferra esse tipo de coisa. Ao menos o mangá saiu por aqui pela Conrad de 2005 à 2008, sendo um dos primeiros mangás publicados em formato Tankobon no Brasil (até então a maioria era daqueles meio-tankos mais baratos).

Além disso, há uma boa chance da Panini republicar o material, talvez já esse ano (quem sabe em Kanzenban) considerando que, na época que Vagabond saiu pela Nova Sampa houve a informação de que Inoue vende os direitos de todos seus materiais juntos, mas que pra poder publicá-los, é necessário sua aprovação (em relação à capas, impressão, papel, etc.), algo que teria impedido ela de publicar Slam Dunk (ainda mais com Vagabond sendo um fracasso custando quase 40 reais). Pra reforçar, Panini deu umas pistas que vai lançar um mangá de basquete, o que ligando os pontos leva à Slam Dunk (ou quem sabe outro material dele como Real).

[ATUALIZADO] PS: Eu Avisei

Finalizando...

Eu realmente indico muito que vocês leiam ou assistam Slam Dunk. É uma experiência ótima, talvez até motivacional, considerando a evolução de Sakuragi e sua característica de nunca desistir e sempre fazer, por mais que isso possa dar errado. A vida é assim, muitas vezes o medo e a falta de coragem nos impedem de tomar várias atitudes, mas errar as vezes também possui seu lado positivo. Além disso, é uma ótima pedida pra leigos em relação à basquete, talvez muito mais do que pra fãs do esporte, pois ele realmente te dá verdadeiras aulas teóricas, batendo em vários momentos aquela vontade de praticar.

Por hoje é só, até a próxima!

























Tá, agora acabou pra valer. BYE!


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PedroTreck

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