Vagabond - A trajetória do invencível sob o sol


Vagabond, a princípio, pode parecer uma experiência de leitura bem simples. Afinal, trata-se de um grupo de personagens seguindo sua vida, seus objetivos e lidando com o imprevisível ambiente que os rodeiam num japão em plena era medieval. Porém, de uma premissa aparentemente simples, se desenvolve pra uma profunda interação externa e interna dos personagens em busca de entender outros e a si mesmos, tentando de alguma forma evoluir no processo, sem linha do mal ou bom, sem preto e branco, apenas humanos falhos interagindo, com qualidades e defeitos.

A nós leitores, sobra a cativante experiência de absorver todas as inúmeras mensagens que conseguirmos identificar nesse mangá. E é aí que vem a "complexidade" da trama! Ora, como já disse alguma vez nesse recinto, interação de sentimentos humanos, o que seria mais complicado do que isso?


O mangá

Vagabond foi publicado em 1998 pela Kodansha, no Japão, e desde então tem sido serializado até hoje. Ele foi inspirado no famoso e influente livro de quase MIL páginas, Musashi, escrito por Eiji Yoshikawa, romance publicado em 1930 que contava a história do samurai mais famoso do Japão: Myamoto Musashi, um cabra arretado que viveu entre os séculos 15 e 16. Conhecido como o criador do estilo Niten Ichi Ryu, (famoso kenjutsu usando duas espadas) por ter escrito o também famoso "Livro dos Cinco Anéis", que é estudado até hoje no Japão, e finalmente por ser um artista hábil com escultura, caligrafia, escrita e pintura. Não posso esquecer que também é famoso  por vencer mais de 60 duelos de vida ou morte.

Pois é...

Pra quem não sabe, a Kodansha é responsável por publicar muita coisa legal, como Great Teacher Onizuka, Hajime No Ippo, Sakura Cardcaptor, Medabots, entre outros muitos exemplos, porque eu só citei o que eu gosto aí.

Que foi? Eu gosto de Medabots.

O mangá conta com as escalafobéticas artes maravilhosas de Takehiko Inoue, esse que já ganhou uma galeria toda dedicada pra ele no recinto, e que é um dos mais geniais e bem sucedidos artistas de sua era. Se acha pouco, roteiro também está nas capazes mãos desse excelente Sr. do oriente, então vocês já podem esperar drama, filosofia, humor, e claro, muita ação. Tudo dosado com seu devido cuidado.



Falando em ação, o poder da imersão que as lutas de Vagabond exalam são uma de suas muitas qualidades expressivas. Seja pelo roteiro minuciosamente bem planejado de Inoue, com reflexões e análises de combate no meio da luta, ou por seu conjunto de artes sem igual que fazem cada quadro do mangá ser uma obra de arte de beleza singular. E do ponto de vista de Musashi, o protagonista da trama, vemos que a cada luta ele evolui, seja em combate ou espiritualmente, ele vai trilhando seu tão aclamado objetivo; o de ser invencível sob o sol.

Apesar de Vagabond ser inspirado no clássico livro, ele não é nem de perto uma "adaptação", mas sim uma releitura da história em outros ângulos, assim como o próprio livro é, em comparação a história verdadeira. Vocês sabem, ambos possuem seus pontos fantasiosos e suas liberdades poéticas para explorar eventos incertos sobre a história, expondo dramas e frases alusivas que são de alcunha pessoal de seus autores.

Porém, Inoue é ousado, e isso é algo positivo, porque ele realmente SABE como dar profundidade pros seus personagens. Uma das mais notáveis mudanças entre o clássico livro e o mangá, é a de Sasaki Kojiro, o maior rival de Musashi. Na obra de Inoue, ele é um surdo-mudo com uma habilidade indescritível com a espada. Um personagem que enxerga o kenjutsu do seu próprio e único modo, que tem momentos dedicados na trama ao seu desenvolvimento inocente, sendo parte vital para a evolução do próprio Musashi, que conhece alguém fora dos limites do senso comum de habilidade.

Bem diferente do sádico e eloquente Kojiro do clássico livro. 

Trivia interessante é que muitos se questionam se realmente Kojiro existiu na história real, o livro dos 5 anéis não o menciona. De qualquer forma, amo como este é retratado de forma tão excepcional no mangá (seja no sentido de linguagem ou percepção para com o mundo), o que explicaria seu ar tão misterioso e único aos olhos da história real.

Já víamos como Inoue era bom em expor personagens excelentes em outros de seus trabalhos. Ver que Vagabond foi um projeto que ele iniciou já calejado e experiente, claro, só acentuou ainda mais a qualidade. Mas não pensem que a forma como Eiji, do clássico livro, retrata esses personagens é "pior" ou "melhor" que Inoue, nem vice-versa. Creio que seja uma questão de opinião, mas ambas as obras se destacam em certas partes melhor do que a outra, cada uma com suas características. Pessoalmente, prefiro o mangá por ser mais maduro e ter personagens evoluindo de forma mais humana. O livro é menos ousado, mas tem um teor mais dinâmico de aventura que flui muito bem, em certos momentos, até melhor que Vagabond.

Por isso digo que é questão de gosto, são duas obras dignas de nosso respeito.

Em suma, Vagabond é realmente um mangá adulto, tendo sexo e violência expostos, apesar de ser bem mais light em comparação com outros , como é o caso de Berserk, por exemplo. Mesmo assim, é uma leitura que necessita daquela certa dose de "maturidade", seja pela violência ou até mesmo a narrativa, que muitas vezes é lenta e cheia de nuances que devem ser observadas com toda a calma que elas merecem, pois este deve ser lido com bastante cuidado.

Dá pra passar MIL tempos olhando quadro por quadro dessa belezura.

Enredo 

Como eu já disse, o enredo de Vagabond é consideravelmente simples, pelo menos à primeira vista.

Shimen Takezo, (o futuro homem que iria mudar seu nome para Musashi) e Matahachi Hon’iden, (seu """fiel""" amigo e irreverente companheiro) partem de sua vila em busca de fama, seguindo o caminho da espada na grande Batalha de Sekigahara, um conflito sangrento e extremamente decisivo politicamente para o Japão naquele período, (21 de outubro de 1600).

O mangá se inicia com ambos se encontrando do lado perdedor. Eles usam a sorte de terem sobrevivido para prosseguir com suas respectivas ambições de vida, e isso nos leva à um caminho divergente entre os personagens, e claro, na trama.


Enquanto Matahachi é um tremendo “vacilão”, que se mete em enrascadas por sua covardia ou simplesmente por suas decisões egoístas, Takezo (Musashi) é uma fera – pode-se dizer que quase no sentido literal –, destemida que segue sem pestanejar no seu objetivo.

Porém, como eu disse no início desse artigo, não existem personagens preto no branco aqui. Takezo não é um herói, muito menos vilão. Ele é um humano com suas virtudes e seus terríveis defeitos, entretanto bem sincero ao seus instintos, procurando viver e honrar seu estilo de vida ao máximo, e por ventura, inspirando aqueles que estão em sua volta.

Espíritos vigorosos tendem a inspirar aqueles que estão a sua volta mesmo.

O fato dele ter batalhas incríveis, evoluções pessoais e seguir a filosofia da espada com sua alma, com certeza o fazem ser admirável para nós leitores, mesmo tendo atitudes questionáveis algumas vezes. Algo muito legal dele também é nutrir um relacionamento "fofo", o que é de se espantar devido ao tipo de pessoa que Musashi é, com o maior amorzinho desse mangá, a Otsu.

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Já Matahachi é aquele paspalhão de bom coração, se é que me entendem. Na verdade, ele pode parecer terrível por muitas de suas atitudes, e realmente muitas vezes ele é apenas um jovem egoísta e imaturo, cheio de defeitos, assim como muitos de nós. Mas Matahachi não é uma pessoa ruim, tampouco um personagem ruim. Ele tem um crescimento cheio de reviravoltas  dentro da trama, com seus devidos tropeços e arranques que fazem dele um dos, senão, o personagem mais humano dessa obra toda!  A interação com sua questionável, egoísta, porém afável mãe, é sem dúvida um dos momentos que mais tendem a nos intrigar, questionar, e claro, se emocionar.





Apesar desses personagens serem nossos primeiros "guias" da trama, logo conhecemos os outros que também fazem parte do enredo. E a regra de humanos imperfeitos conectados por casualidades formam o resto do elenco também, compostos por personagens únicos e ricos em backgrounds, por mais ordinários ou extraordinário que sejam.



Quando eu disse “O mundo surpreendentemente “real” das artes de Takehiko Inoue”, no meu breve artigo sobre ele, não estava falando por falar. Ele realmente sabe nos emocionar!

E já que estou falando de personagens, não posso deixar de citar o monge excêntrico Takuan. Um dos principais responsáveis pelo crescimento de Musashi, e muito certamente o maior responsável em passar mensagens nesse mangá.


Espero que vocês que ainda não leram essa maravilha, se aprumem para corrigir tal erro bobalhão, pois por mais que esse seja um REVIEW, quero discorrer sobre um momento agora que conterá Spoilers leves, eventualmente. Se não estiver a fim de pega-lo, vão SIMBORA ler seus putos!


O nascimento do Invencível 

Assim como resumi no começo desse artigo, de que Vagabond tem uma premissa simples e se desenvolve complexamente depois, posso resumir a trajetória de Musashi da mesma forma. Ele simplesmente quer ser forte, o MAIS FORTE. Seja pelo seu jeito pessoal de ver o mundo, da qual sempre o enquadrou como um "monstro" por nutrir instintos violentos bem diferentes de pessoas comuns, ou seja pela traumática relação com seu pai, que já era um homem rigoroso e poderoso, tão poderoso que acabou sendo consumido por isso, e que gerou traumas psicológicos no seu filho que o perseguiram durante seus mais extremos momentos, Musashi parte a jornada da sua vida com esse simples querer.

E foi assim que ele continuou vivendo sua vida, sendo oprimido pelos julgamentos das pessoas que não se interessavam em entendê-lo ou tinham medo dele, (algo compreensível até). Uma das primeiras partes que realmente me tocaram nessa mangá foi sua transformação de Takezo para Musashi, que foi conduzida pelos gestos admiráveis do monge Takuan e Otsu.

Sim, falo do final do volume 2, quando Takezo está capturado, marcado para execução e desacreditado com as pessoas e a vida. Em desespero, acaba simplesmente perdendo gosto por viver, ou melhor "achando" que perdeu o gosto por viver.  Até que Takuan o leva ao limite, não só para ajuda-lo naquele momento, mas também para faze-lo enxergar sobre a vida, sobre o que ele tem de importante nela.

Esse foi o primeiro momento-chave do mangá que me conquistou (e me emocionou), e eu gostaria de expor upando logo tudo aqui mesmo. A experiência de ler e absorver essas páginas é muito melhor do que eu possa descrever.












Suor masculino dos olhos em pleno volume 2, pois é. E calma, não vamos virar um site para ler mangás online.
...

Espero.

O que um pouco de empatia não faz, huh?


Esse é o marco da transformação do jovem e perdido Takezo para o vigoroso Musashi, mas nem de longe o fim de seu aprendizado, pois sua jornada realmente começa depois disso. De qualquer forma, como é o bonito esse trajeto de transformação, queria expor pra vocês.

Claro, esse é só um dos vários, porém comento sobre os outros na próxima vez que falar de Vagabond nesse recinto, deixemos apenas esse primeiro REVIEW por aqui.

Considerações finais

Eu já estava devendo esse texto há um tempo, desde o relançamento, (em excelente qualidade) do mangá aqui no Brasil, eu tinha planejado o artigo, mas acabei atrasando bastante pra terminar. Porém, realmente espero fazer com quem não conhece, ou conhece, se interesse em reler só pra aproveitar mais uma vez os fascinantes conteúdos envoltos dessa obra tão verdadeiramente excelente. 

Pra vocês que quiserem acompanhar comprando o mangá, VÃO SEM MEDO, recomendo demais. Estou colecionando e devo dizer que a qualidade das publicações está XÓIA.


Aqui termino o texto, e espero terminar uma análise MIL mais profunda sobre os elementos dessa obra num futuro próximo. Curtam a page pra mais atualizações e até dia MIL.

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