"Buscar a si mesmo" é a resposta para entender Monster




"E eu pus-me sobre a areia do mar, e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças
 e dez chifres, e sobre os seus chifres dez diademas, 
e sobre as suas cabeças um nome de blasfêmia."

 "E adoraram o dragão que deu à besta o seu poder; e adoraram a besta, 
dizendo: 

Quem é semelhante à besta? Quem poderá batalhar contra ela?"

                                                                                                Apocalipse capítulo 13, versículos 1 e 4.




Monster é uma série com muitas mensagens. Mais importante, uma série com muitos questionamentos. Brilhante em explorar o abismo da mente humana enquanto expõe tramoias políticas conduzidas sob ideais tortuosos nazistas ou planos ainda mais cruéis orquestrados por um vilão comparado ao "Anticristo", numa Alemanha delicada se reestruturando após a Queda do Muro de Berlim. 

Apesar dos temas densos, essa não é uma série pessimista, pois sua narrativa nos conduz, com esperança, à um caminho ingrime para entender os labirintos de uma mente humana que caiu completamente em escuridão.

E o que seria essa "escuridão"?

O quanto podemos adentrar nela até que não tenhamos mais volta?

O mangá foi publicado em 1994 até 2001 sob a autoria de um senhor "nada conhecido", dono de um traço limpo e de uma narrativa pesada, mas muito envolvente, Naoki Urawasa. O anime carrega o mesmo nome, e foi adaptado pela Madhouse, sendo bem fiel a obra original e seus 18 volumes, (e tendo uma trilha memorável, apesar da animação estar bem longe do que a maioria de vocês provavelmente conhecem sobre os trabalhos desse estúdio).

Também autor de obras como Pluto ou 20th Century Boys

Monster, apesar de ser muito elogiado, não é bem... "popular", o que pra muitos pode ser uma injustiça. Acredito que é compreensível, afinal, ele é bastante "denso". Diálogos unidos a uma trama investigativa, uma narrativa pesada, às vezes não linear, e com pontos de vista de muitos personagens em conflito. Resumindo: MUITO TEXTO, o que com certeza afasta uma boa dose de públicos. Sem falar do seu final que é, certamente, o maior momento de ambiguidade que podemos absorver da série.


Mas não se enganem, trata-se de uma história bastante interessante, principalmente para aqueles fascinados por investigações e mistérios. Apesar disso, não pensem que é uma simples história policial ou uma história de um serial killer, muito menos focada em saber quem é o culpado. Monster vai além disso tudo, os temas são apenas artifícios que nos conduzem por uma "jornada". Ora, inúmeros roteiros são conduzidos com o ideal da "jornada" de seus protagonistas, eu sei, não há nada de novo nisso. Alguns procuram salvação, outros vingança ou simplesmente aprendizado. 

Mas Urasawa decidiu que seu personagem principal sairia numa jornada para a escuridão. Destrutiva, porém, sem ódio, sem vingança. Monster é mais um caso de leitura pra se ter com toda calma e atenção que ela merece, até os seus momentos finais, que mesmo em seus últimos suspiros, conseguem nos arrancar uma boa reflexão.

                                                               

Pois é, então deixemos de enrolar e vamos direto ao artigo... e como sempre, sem spoilers (relevantes) para os que ainda não conhecem, quem sabe, irem conhecer, e só depois partirei para os SPOILERS de verdade. 

Sendo assim, comecemos mais um MIL neste recinto!

Introdução (spoilers leves)



Kenzo Tenma é um jovem japonês e um brilhante neurocirurgião cheio de ideais justos, que foi para Düsseldorf, na Alemanha, buscando galgar em sua carreira. Ele é noivo de uma bela mulher, que por ventura, é filha do ambicioso e relevante diretor do hospital Eisler Memorial, onde o jovem médico trabalha. Sob sua tutela, Tenma conseguiu ter uma posição muito privilegiada e – junto de sua habilidade excepcional – está cada vez mais perto de atingir seus objetivos profissionais. 

É, parece uma vida invejável, huh?

Entretanto, aqueles que almejam apenas inflar seus egos com holofotes, dinheiro e reconhecimento, acabam por distorcer o ideal de "ética", o que não é exceção nem mesmo no ramo da medicina, onde salvar vidas, sem nenhum desvio, deveria ser a principal prioridade. 

E nosso protagonista acaba descobrindo isso de uma maneira bem desagradável. 

Prestes a começar uma cirurgia de emergência, o Dr. Tenma é realocado para outro paciente pela direção do hospital, e sem pensar muito, acata a ordem de seus superiores. Seu trabalho, como sempre, é impecável e a cirurgia é um sucesso. O paciente que ele salva é um famoso tenor, o que atrai uma grande atenção positiva da mídia para o hospital, da qual o Diretor, Dr. Heinemann, acaba assumindo os maiores créditos. Já Tenma está feliz, ainda está exercendo a profissão que ama, ajudando as pessoas, mantendo seu cargo privilegiado, sendo admirado por seus colegas e pacientes enquanto almeja sua prometida promoção. 

Porém, o jovem médico é acometido por um gosto amargo. Uma mulher humilde o põe contra a parede, o culpando, em desespero, pela morte do seu marido. O homem que certamente estaria vivo se Tenma não tivesse, – pelas ordens da direção –  o "deixado" para outros médicos e fosse operar o tenor, que tinha chegado depois. A mulher o acusa, diz que se não fosse pela fama do outro paciente, seu marido estaria vivo. 

O momento passa, mas o nosso protagonista continua pensativo, ele se contesta. Certa vez, conversando com sua noiva, Eva Heinemann, Tenma comenta sobre o caso, tentando se convencer que não teve culpa, que ele apenas cumpriu ordens da direção, e ela categoricamente concorda... de uma forma inesperada.




Nesse momento, ele finalmente enxerga como o hospital age, como o Diretor, o homem que tanto admirava, age, e claramente enxerga que a sua noiva tem o mesmo tipo de pensamento mesquinho. Tenma talvez já soubesse disso e quis mentir pra si mesmo, não importa, finalmente a sua "ficha" tinha caído, e decide fazer diferente daqui pra frente, afinal, para ele, toda vida tem o mesmo valor.

Mas, logicamente, as coisas não seriam tão simples assim.

Sua noiva, a maioria dos seus colegas e principalmente o Diretor, possuem grandes expectativas nos seus ombros e fazem questão de sempre as exporem drasticamente na sua cara. O jovem médico pode perder tudo que tem trabalhado tão duro pra conseguir, e nessa corda bamba, você sempre o vê exitante em suas ações. 

Numa certa noite, dois gêmeos são trazidos para o hospital, aparentes vítimas de uma fatalidade que matou seus supostos pais e resultou num dos irmãos, Johan Liebert, em uma condição crítica com uma bala alojada no crânio e a outra, Anna Liebert, em uma espécie de estado psicológico pós-traumático por ter vivenciado tamanha tragédia. 

Logicamente, o melhor neurocirurgião é primeiramente convocado para o caso, mas quando ele está prestes a começar, a direção o encarrega de cuidar do prefeito da cidade, que também estava em estado grave após um AVC (e tinha chegado depois). Roteirismo FTW Apesar de toda a pressão do Diretor em cima dele,  Tenma segue seu ideal e opera o menino que tinha chegado na frente, dando tudo de si para salva-lo.



Mais uma vez, a cirurgia é um sucesso, o garoto sobrevive. Mas o prefeito, que tinha ficado na responsabilidade de outros médicos, acaba falecendo, e nesse momento que a vida de Tenma começa a desabar. O Diretor corta suas ligações com ele, qualquer ideia de promoção ou até mesmo carreira está fora de questão. A maioria dos seus colegas o abandona, inclusive sua noiva. Pra piorar, nem mesmo o garoto que ele salvou estava mais sob sua responsabilidade médica.

Pouco tempo depois, os médicos que afastaram Tenma aparecem mortos, inclusive o Diretor. Ainda por cima, os gêmeos somem do hospital, e graças aos acontecimentos misteriosos, a polícia acaba caindo em cima. Não há mistério quem é o principal suspeito, afinal todos que se beneficiaram com sua decadência foram mortos, mas como não havia nenhuma prova concreta de sua culpa, o caso é "envelopado" por 9 anos.

Após todo esse tempo, nosso protagonista já é o atual chefe de cirurgia do hospital Eisler Memorial, com uma carreira sólida e motivado em trabalhar para ajudar os seus pacientes. Porém, o caso de 9 anos volta a tona quando um criminoso ligado à uma série de assassinatos é atropelado e acaba parando no hospital. 

Já pararam pra pensar do peso de uma decisão? Do quanto isso pode ecoar em nossas vidas ou na de outros? 

irônica casualidade (a partir daqui spoilers HARD)

E sob essa ironia do destino que Tenma descobre o real culpado pela morte dos médicos e de novos massacres na cidade. Johan, o jovem que ele salvou há noves anos, é o serial killer, produto de experimentos obscuros para criar um líder sem humanidade que guiaria o mundo à ruína (ou sob o ideal imbecil deles, à "prosperidade nazista").

Sim, isso tudo nos primeiros volumes do mangá, apenas o começo do começo. 

Mas Johan aparentava ser um monstro sem dono, algo ainda mais descontrolado que iria causar uma destruição sem precedentes e sem lados. Um verdadeiro demônio na terra desde guri.


No encalço dos crimes, estava a polícia e o BKA, (que é basicamente um FBI alemão) representando pelo irreverente inspetor Lunge, que acredita piamente que Tenma é o responsável pelas tragédias na cidade.

Tenma, por outro lado, não se importa com as acusações, tampouco em provar que não é culpado, mas puxa pra si a responsabilidade de reparar um erro contrastante, pois ele, literalmente, reviveu um monstro na terra, e para reparar o pecado, devia mata-lo, o que claro, não seria nada fácil.

Numa jornada de investigações sobre um passado conturbado de experiências bizarras criadas por idealistas nazistas, (e  cheias de referências reais da nossa história) acompanhamos o protagonista em sua peregrinação pela escuridão para cometer um ato que ele mesmo abomina, mas acha necessário que apenas ele cumpra: tirar uma vida.

Percebam a espada no logo da série.

Monster é um caminho de um notável "guerreiro de luz" na busca de matar um "monstro da escuridão", numa clara referência cristã de uma cruzada para vencer o mal. Mas as coisas se desenvolvem de uma forma que foge bastante do que podemos esperar.


Desenvolvimento de personagens 

Em sua jornada, Tenma conhece dezenas de pessoas que eventualmente o ajudam a fugir da polícia ou encontrar Johan. Essas geralmente possuem problemas em suas vidas e acabam sendo inspiradas pelas atitudes nobres do nosso protagonista, afinal, ele é a personificação de herói bem feitor. Mas é interessante observar que Tenma está num caminho pessoal de destruição, mas em contrapartida, ajuda e devolve a esperança das pessoas que ele conhece no caminho, as tirando da "escuridão".

E devo dizer que todas as pequenas histórias com arcos fechados são bem bonitas, algumas bem tristes, outras nem tanto,  é uma particularidade boa de se notar sobre Monster.

Entre esses, estão os personagens principais da trama, que a ajudam a engrenar. Podemos discorrer um pouco sobre alguns deles.



Como Nina Fortner (Anna Liebert ou MIL), a já citada irmã gêmea de Johan, também produto de experimentos e autora da bala na cabeça do irmão, após saber que ele assassinou seus recentes pais adotivos por atitudes que fogem (ou não) de sua compreensão, e um pequeno empurrão psicológico do próprio. Nina, atualmente, compete com Tenma na busca de encontrar o irmão e mata-lo, numa confusa mistura de sentimentos que não nos deixam certo, no começo, se é uma vingança ou um dever, ou melhor, um martírio incessante que, assim como o protagonista, ela mesma se impõe.



Ao mesmo tempo, Nina é uma chave para o passado, e vive exatamente o dilema de aceita-lo ou não para seguir em frente, enquanto questiona, ao mesmo tempo, se Johan é um MAL incarnado ou simplesmente um produto dele, nos fazendo pensar sobre compreensão e perdão enquanto a história evolui.

Outra personagem principal é a minha detestável favorita, Eva, a ex-noiva fútil e birrenta de Tenma.



Após o assassinato do seu pai, Eva perde seu chão e passa o resto dos seus dias gastando dinheiro com futilidades ou bebidas, ao mesmo tempo que se arrepende por ter deixado Tenma e força uma reaproximação orgulhosa sem sucesso, afinal, para ele, agora ela era só mais uma interesseira desvirtuada.

No decorrer da história, Eva prejudica Tenma simplesmente por pirraça, afinal ela mente para si mesmo acreditando que o odeia e que ele destruiu a sua vida, quando na verdade, no fundo, ela sabe que é uma terrível pessoa e a principal culpada de estar em plena amargura. Porém, numa trajetória inesperada, a personagem busca a redenção, mudando seus hábitos e formas de agir. É nesses saltos e tropeços que Eva mostra-se cativante, pelo menos pra mim, de se acompanhar.

Sério, me importava tanto com Eva que realmente ficava preocupado com sua segurança enquanto ela se metia naquelas enrascadas por pura roteirismo casualidade do destino.

Alguns se perguntam realmente se ela amou Tenma, e bem... eu acredito que podemos olhar sob duas visões, (que levam ao mesmo caminho). Ela pode simplesmente ter se frustado, pois sempre tinha tudo o que queria, mas Tenma era o único que a recusava e por orgulho ela acabou criando uma obsessão egoísta e orgulhosa pelo mesmo. Em outras palavras, pode ter dado uma de garota mimada que sempre foi.

OU ela realmente o amou, e todo o drama estava em ela aceitar esse sentimento e ir contra a sua personalidade (da qual ela mesmo reconhecia ser ruim). Uma coisa é certa, Tenma foi o elemento-chave que a fez mudar. Junto da idade e de suas experiências que consequentemente a deixaram madura, claro.


Outro personagem deveras importante é o analítico Lunge, que sempre assumiu a resolução dos crimes que trabalha como sua principal prioridade de vida, ao mesmo tempo que deixava sua família de lado. Apesar dele ser sempre o "pé no saco" do nosso protagonista e inspirar alguma antipatia do público por isso, creio que ele se redime em seu devido momento quando, além de ter mais um caso resolvido com seu próprio poder de dedução incrível, consegue protagonizar muito bem uma das poucas cenas de ação de toda a trama, ajudando o mocinho, claro.

E temos que admitir que os momentos de investigação do Sr. Lunge são uma das coisas mais divertidas de Monster.

Como ultimo exemplo, não posso deixar de citar Wolfgang Grimmer, um sobrevivente do Kinderheim 511 que age sobre a alcunha de repórter freelance enquanto está numa jornada para descobrir mais sobre o seu turbulento passado.

Um personagem fácil de se apegar por sua atitude de querer recuperar seus sentimentos perdidos e protagonizar tantas cenas tocantes com as crianças órfãs que, assim como ele, se sentiam excluídas do mundo (na escuridão), e procuravam apenas a compaixão daqueles que consideravam importantes.

Ora, e Magnífico Steiner FTW!



Claro, existem outros personagens incríveis, mas, quem sabe, outra hora falamos deles.

Prosseguindo...

"O Monstro" 

Urasawa é um mestre quando falamos em suspense, sem duvidas, sua quadrinização é impecável nesse sentido. E um bom suspense sabe como jogar mistérios, ou melhor, confundir a cabeça dos que estão absorvendo o conteúdo. Urasawa consegue um feito muito interessante na sua narrativa, o que engrandece a dose de interpretações ao longo da obra.



Monster é uma obra pra se interpretar. Gritantemente pelo seu final, mas também pelas atitudes humanas de alguns de seus personagens e tantas lacunas misteriosas na história que nos obrigam a repensar com cuidado. Nesse tópico, quero discorrer sobre sua principal lacuna, ou mais precisamente, sobre Johan.

Lembram da fábula sinistra do monstro que queria um nome e se dividiu, não é?

Como sabemos, Johan claramente assume essa história para si, e a interpreta como seu destino, incluindo o catastrófico final.

Essa história é a melhor explicação que você terá sobre Johan. Afinal, é uma história sobre a busca de sua identidade. 

MAS, o que realmente sabemos de Johan? Como ele surgiu e qual foi seu objetivo durante tudo isso?

Desde o início do mangá, temos a alegoria de "anticristo", que obviamente aparentemente se dá ao nascimento desse grande vilão. Todas as pessoas que o conhecem suficientemente bem, o reconhecem como um monstro. Tenma e nós leitores, também o vemos agir como um, então sabemos que ele é um capiroto em forma de gente, isso é óbvio e estou sendo redundante.


A razão pra ele ser um também supostamente sabemos. Pra começar, ele é parte do "Experimento Eugênico", que nada mais é que uma tentativa nazista de criar um humano "perfeito", no ideal distorcido deles. Um novo Hitler, porém, bem mais capaz geneticamente e psicologicamente, com intenso carisma destrutivo para cumprir os objetivos da "raça pura".

Além disso, ele foi um residente do Kinderheim 511, um orfanato sinistro que cometia ainda mais atrocidades e acabou quebrando psicologicamente todas as crianças que uma vez estiveram naquele lugar. Pra terminar, Johan sobrepôs a personalidade e os traumas que a irmã passou para si mesmo, o que só mostra que ele se tornou uma casca vazia de insanidade com dezenas de cicatrizes que conduziriam suas ações no futuro.

Isso resulta num monstro incontrolável, sem preconceitos ao escolher quem irá fazer sofrer ou morrer. Um insano líder com um poder de manipulação tão grande, capaz até mesmo de controlar outros psicopatas com apenas algumas palavras. Johan aspira o medo das pessoas e as joga na escuridão, além disso, não tem nenhum problema em matar alguém com as próprias mãos ou induzir que alguém faça isso por ele.


A questão é: mesmo sabendo disso tudo, vemos que Johan sempre é apático, insatisfeito com o que faz, e está sempre em busca de algo diferente. Também aparenta, aos olhos de alguns mais sensíveis ao seu caso, ter uma parte de si que sofre, ao mesmo tempo que é qualificado apenas como um manipulador que brinca com sentimentos alheios. Em outras palavras, o cara é uma incógnita, claramente um feito narrativo proposital para atingir os leitores e não permitir qualifica-lo por suas emoções.

Então nos sobra a última pergunta: Qual foi o objetivo real de Johan?

A particularidade que mais me chama atenção nesse infeliz é a forma com que ele deixa pessoas específicas e especiais experimentarem a forma com que ele vê o mundo.

Pessoalmente, acredito que Johan agiu metodicamente de acordo com que foi "educado" para fazer, apesar de possuir seus próprios e impalpáveis objetivos, que o direcionava pra vários caminhos. Também acho que ele esperava manter um elo fraterno com Nina, acredito que ele a considerava parte dele, assim como ele era parte dela, afinal, Johan não possuía "individualidade".

E esse é o ponto sobre esse personagem, assim como o monstro da fábula que se dividiu para procurar um nome, uma individualidade, mas ao final, acabou devorando todos sem que ninguém pudesse o chama-lo ou reconhece-lo. Johan procurava seu próprio "eu", afinal, sua personalidade havia se dissipado antes mesmo de se desenvolver. Pra isso, ele resolveu apagar cada traço de sua existência, isso inclui meios bárbaros de matar qualquer um que teve ligação com ele durante toda sua vida. É por isso que chamavam de "suicídio perfeito", ele literalmente apagaria qualquer traço seu.

Ok, Johan procurava individualidade conscientemente ou inconscientemente, mas como exatamente isso aconteceria?

Ele planejava morrer de verdade ou destruir totalmente os traços do monstro em busca de "renascer"? Ser morto por Tenma ou sua irmã estava realmente nos seus planos, e além da morte, ele queria levar tudo aquilo que uma vez teve conexão com ele?

É algo a se pensar.

Discorramos sobre isso no último tópico, lembrando que esse é um momento para interpretações, sintam-se livres pra discordar, ou melhor, debater os pontos e refletir sobre os mesmos.


"A Morte do Monstro" 


Tenma se incumbiu de dar um fim ao monstro que ele mesmo salvou. Não é de se descartar que essa era a vontade de Johan também (desde o início). E sabemos o quão degradante foi para Tenma seguir esse destino, afinal, tirar uma vida iria ser contra tudo aquilo que ele acreditou e pregou para os outros personagens durante toda a obra.

Uma atitude egoísta ou nobre da parte dele? Deixo pra que vocês pensem nisso.

Acredito que a "escuridão" que tanto ecoa na narrativa de Monster trata-se da aflição que os humanos sofrem no caminho de reconhecer suas existências. Coisas como "estar sozinho no mundo" ou "perder os ideais que determinam sua personalidade" são conceitos recorrentes nos pequenos e grandes arcos da trama. A busca em superar esses problemas é o elemento-chave que o mangá quer expor.

Em contra partida, você tem Tenma, um personagem criado para ser "perfeito" moralmente e que está indo nessa contra-mão. Ao ir contra seus ideais, ela está perdendo sua identidade. O pior é que ele sabe disso, mas mesmo assim, assume que essa é sua tarefa.

A involução de Tenma ao viver o seu dilema moral

E esse é um ponto bastante curioso dessa obra.

No embate final, Tenma está prestes a atirar em Johan e cumprir o predestinado, mesmo que de uma forma exitante e forçada. Até que outro cumpre o papel, e mais uma vez, estamos na mesma situação de anos atrás, quando médico precisa operar o paciente com uma bala alojada no crânio.

Mas agora Tenma sabe que ele é um monstro, ele passou mais de 130 capítulos procurando mata-lo, e a escolha de salva-lo está nas suas mãos, mais uma vez. E o que ele faz? Salva, claro. E é a partir daqui onde temos o nosso grande WHAT da série, pois a sequência de acontecimentos até o seu final abrupto deixa qualquer um com cara de tacho. Propositalmente, isso foi feito para que pensássemos, então não existem conclusões absolutas, mas perguntas a se fazer, coisas pra pensar.

Alguns acreditam que Tenma fez algo errado ao reviver o "anticristo" na terra DE NOVO, e que ele é o real "Monstro" da obra, mas eu discordo disso.

Tenma vê o fim do mundo

Pra começar, precisamos entender que Tenma compreendeu Johan, ao analisarmos que ele mesmo contemplou a visão de fim do mundo do vilão, pois ele estava em seu limite de escuridão, e ambos podiam se entender finalmente. Johan o levou à esse limite propositalmente, pois o doutor que o salvou era importante pra ele, e ele queria ser compreendido. Quem sabe, esperava ser salvo também?

Tenma, além de salva-lo e provar que o lado da sua humanidade foi mais forte,  não só volta da escuridão, como também "derrota" o vilão.

"Derrota"...?

Como?

Após cair na escuridão o suficiente para reconhecer e compreender totalmente o vilão, Tenma sai em sua ultima jornada, buscando saber do amor e do verdadeiro nome de Johan, da sua própria mãe, o que serve para, acredito eu, devolver a tão ausente identidade que esse antagonista buscava. E dessa vez, diferente da fábula, existiria alguém para reconhecer sua existência. Pode-se dizer que assim o monstro é "enterrado", e pela primeira vez, um individuo existe naquele corpo e pode seguir em frente com a sua vida.

*TUM, TUM, TUM*

No final, Johan, agora com seu nome de verdade, que nunca nos é revelado, expõe um fragmento de seu passado, que é o último conteúdo desse mangá pra se pensar, e creio que ele venha com o intuito de nos impor, da forma mais clara, a pergunta do que realmente é "monstruosidade". Muitos assumem que o monstro a qual o título do mangá se refere não seja Johan, talvez porque isso dependa do ponto de vista de quem está olhando. Do ponto de vista do vilão, por exemplo, talvez a sua mãe foi um monstro. Talvez no de Nina, Bonaparta foi um, entre vários exemplos.

Pessoalmente, creio que "Monster" realmente se refere a Johan. E creio que é em sua deixa, ao falar de sua mãe, que ele apenas deixa claro que foram atos de monstruosidade que o criaram. Mas é apenas o meu jeito de ver, qual seria o seu?

Uma coisa é certa, devo dizer que os momentos finais dessa obra conseguem ser bem disturbing...

Links recomendados 

Pra os interessados em referências REAIS de lugares e alusões bíblicas ou literárias que vemos em Monster, recomendo fortemente: clique AQUI


Para os interessados na arte do suspense do Urasawa e alguns exemplos de como ele faz isso tão bem: clique AQUI

E não posso deixar de indicar esse artigo sensacional que frisa pontos pertinentes sobre a obra: Clique AQUI

Sim, o Livejornal tem muitos fãs engajados, é um prato cheio pra informações. Foi realmente muito inspirador em abrir os caminhos para o texto. Quem sabe um dia um post com um resumão desse conteúdo sai traduzido no recinto. Mas por enquanto, fiquem com essa crua análise MIL

Considerações finais

Como disse no começo desse artigo, Monster é uma obra que nos deixa uma série de questionamentos, não só sobre a vida, mas sobre os personagens e como eles realmente pensaram e se sentiram durante toda essa história. E isso é sensacional, meu motivo favorito para admirar tanto esse trabalho do Urasawa, ele realmente merece aplausos por isso.

Ah, e antes de terminar, eu não podia deixar de dar aquela cutuca de praxe em fanbases, huh? Não sei a brasileira, mas a gringa gosta bastante de enfatizar que Johan é um assassino de verdade muito superior ao "Kira", de Death Note, que usa "magia de deuses da morte" pra agir. Se você pergunta o porquê da comparação, eu sinceramente não faço IDEIA. Ambos são vilões assassinos em massa, okay, pode ser isso. Mas sabemos que existe a birra idiota de Death Note ser mainstream, enquanto Monster não é, o que gera aquele notável "especialzismo" hispter.

Ok, se o argumento é de Johan não usar o "sobrenatural" pra agir, e isso enfatizar que ele é superior,(?) é bom lembrar que o cara é literalmente um super humano com habilidades de comunicações sociais e aprendizado maior do que qualquer um de nós jamais irá ter.

Traduzindo, ambos são cheaters, seus chatões.


Só queria dizer isso mesmo. E Death Note paira por aqui... dia mil.

Monster é uma obra que definitivamente vale a pena conhecer, uma das melhores leituras que já tive e que com certeza merecia um momento nesse recinto. A jornada em que Tenma segue para perder sua identidade e Johan acha a própria é sem duvidas uma profunda e rica viagem de aprendizado para entender outros e a nós mesmos.

Espero que o texto reascenda discussões e pontos de vista sobre essa série.


Aqui me despeço e até dia MIL procês.

Postar um comentário

[facebook]

Flames

PedroTreck

Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *

Tecnologia do Blogger.
Javascript DisablePlease Enable Javascript To See All Widget