Persona 5: Interações, criaturas do além e um interrogatório de 70 horas

Não há imagem mais legal para ser a capa de um texto sobre esse jogo e tenho dito.

Ohhhh, o que dizer de Persona, o Spin-Off categoricamente bem sucedido de Shin Megami Tensei, que, como eu já falei antes, é basicamente um grande MILKSHAKE cultural — numa visão oriental, porém imparcial, podem acreditar — de quase todos os deuses, demônios, personalidades históricas e entidades diversas das crenças difundidas por TODO o mundo?

Exato, IMPARCIAL. Por isso não se incomodem caso houver a opção de se aliar com Lúcifer, Odin ou Horus durante suas empreitadas. Essas séries não tem a menor distinção ou preconceito com tais criaturas e as tratam igualmente, como "ferramentas" que adolescentes orientais usam em batalhas...

... mortais! 

O que é muito legal, admitam. 

E unido com uma exploração dos conflitos humanos perante suas ansiedades e convívio na sociedade, você tem uma das experiências mais estranhas e interessantes de se observar enquanto navega nesse mundo dos VIDJOGUEIMES. Não há exagero algum em dizer que Persona superou a popularidade de seu "irmão mais velho" e se destaca no mercado dos JRPGs no mesmo nível de Dragon Quest ou Final Fantasy.

Então deixem-me dar algum contexto. 

Originalmente baseada no jogo "Shin Megami Tensei If...", Persona começou seu legado em 1996, com "Revelations: Persona", ou "Persona 1" se preferirem, trazendo o conceito de seres formados como manifestações das personalidades de seus personagens, batalhas em turno, "setup colegial" e um silent hero para que o jogador pudesse se identificar com esse estranho universo.


Ohh, Maya, saudades.
Vejam como o estilo "Jovem Descolado" foi se tornando o "Ás" promocional com o passar do tempo.

A sub-série teve sua grande evolução narrativa com Persona 2, que além de contar com uma sequência direta (Eternal Punishment), é pra muitos o de enredo mais elaborado (o que não é algo tão difícil assim). 

Com Persona 3 observamos um relativo aumento de popularidade e inovação de mecânicas de gameplay, o que melhorou muitos aspectos (e piorou outros, sim, shadows, tô falando com vocês) na continuidade dos títulos. 

E não podemos esquecer da explosão de sucesso com Persona 4, que promoveu ainda mais a marca e garantiu conteúdos diversos, (alguns bons, outros questionáveis) para os fãs se deleitarem.

Ok, ok, mas o que podemos dizer de Persona 5, o sexto jogo da série principal que nos fez esperar uma geração INTEIRA para finalmente chegar nas nossas prateleiras?

É isso que vamos ver nesse artigo, e podem ficar tranquilos, sem spoilers pesados. 

E deixe-me adiantar algo, a espera de anos valeu a pena.

Introdução


A trama se inicia com nosso protagonista silencioso de 16 anos, que foi recentemente transferido para Tóquio em liberdade condicional por um crime do qual foi acusado injustamente. Ele agora está sob os cuidados de um tiozão amigo da sua família, Sojiro Sakura, dono de uma cafeteria da qual conveniente tem um quarto empoeirado e irá servir como residência desse "parcial marginal da sociedade" que nós controlamos.

Nosso herói é tratado como pária, seja por Sojiro, pelos professores ou até mesmo pelos colegas da única escola que irá aceita-lo depois de ter sido fichado, até acabar conhecendo outro jovem igualmente problemático, Ryuji um dos melhores amigos que você poderia querer num vídeo game. 

É, Jumpei, sai daqui.
Por uma tramoia do destino, ambos acabam sendo tragados para o "Metaverso", uma dimensão onde os desejos mais profundos e obscuros dos humanos tomam forma dentro de palácios etéreos infestados de criaturas para defende-lo.

Aqui, os protagonistas conhecem Morgana um... gato falante, que pra nossa sorte é "manjão" o suficiente dos detalhes desse pitoresco lugar para nos introduzir de uma forma quase eficiente.

Pra resumir, os desejos mais profundos dos humanos guardados dentro do palácio são seu principal tesouro, esse que quando é roubado acaba por trazer uma mudança repentina em seu dono. É assim que, com o passar do jogo e novas amizades florescendo, nascem os "Phantom Thieves" jovens problemáticos que buscam fazer justiça com as próprias mãos e salvar vítimas que, assim como eles, foram prejudicadas por crápulas da sociedade de alguma forma.

Abusadores, plagiadores, mafiosos ou estoquistas são alguns exemplos de alvos dessa galerinha da pesada que apronta altas aventuras. Ao roubar os tesouros distorcidos que movem o coração desses fanfarrões, conseguimos gerar arrependimento e a punição merecida para os seus crimes.

E ok, isso é convenientemente muito bom.



Conceitos técnicos



Persona 5 chega como a experiência mais completa que já tive jogando um JRPG nos últimos anos, e isso tornou-se tão raro recentemente que não posso deixar de exalta-lo por isso.

Como é do feitio da série, o game é divido em 2 grandes "cenários" de desenvolvimento. Um deles é o "Metaverso", onde exploramos e batalhamos com os diversos bichões que lá residem. As batalhas em turno foram mantidas, claro, afinal estamos falando de um jogo da Atlus, uma das poucas empresas com coragem atualmente para investir num AAA dessa forma.

Podemos escolher entre 4 personagens para compor a party e é com ela que iremos descobrir novos caminhos e passagens secretas através dos estágios, enquanto limpamos o caminho chutando a bunda dos inimigos.

E esse é o grande ponto alto de exploração de cenários da série.

O melhor HUD de um jogo DO MUNDO, se discorda você é um bobalhão.

O funcionamento das mecânicas sintetiza o que há de mais clássico num JRPG, mas de um jeito totalmente atual. Tudo é completamente dinâmico, as animações de batalha, os menus e até mesmo a movimentação nos cenários, fazendo com que qualquer sensação massante seja praticamente inexistente. E vocês sabem como essa é uma qualidade invejável pra um JRPG, huh?

Felizmente, o conceito de shadows ignóbeis que Persona 3 iniciou foi abandonado, voltando as raízes e trazendo os diálogos tão curiosos com nossos queridos inimigos. Pois é, a opção de recruta-los e descolar alguma grana ou item deles está de volta.

Existe um momento mais oportuno para se pedir algo? Eu aposto que não.

A opção de criar Personas cada vez mais poderosos, a habilidade dos protagonistas dessa série, também voltou e continua cara pra cacete, mas é muito bom ter Yoshitsune de novo no time ou até mesmo ter acesso ao Thanatos mais uma vez. Entretanto, sempre vou me perguntar porque fingem que o Apolo de Persona 2 não existe. Na verdade, parece que essa série começou com Persona 3, que diabos...

Com o grinding certo, conseguimos criar personas cada vez mais fortes, até nos tornarmos escrabosos e poderosos o suficiente para transformar qualquer boss em pasta de processador sem nenhum problema.

QUALQUER BOSS!


Os outros personagens também possuem seus próprios personas com vantagens e desvantagens.  Com o equilíbrio certo conseguimos achar as fraquezas dos nossos inimigos, tornando tudo mais prático em batalha. Ah, e logicamente, Velvet Room está de volta, e o Igor está com uma voz diferente, mas antes que se incomodem, já lhes adianto que irão entender no final da jogatina.

YEAH, YOSHITSUNE AGAIN!!!

Outro ponto positivo é como as quests são conduzidas durante o gameplay. O jogo sempre te obriga a se desdobrar pra resolver algum imprevisto em suas explorações. Portões fechados, senhas de cofre ou puzzles são recorrentes, coisas que irão nos incitar a pensar. Mas calma, você não será transformado num office boy de tarefas repetidas e irrelevantes, como Batman Arkham City nos transformou. Os puzzles não são difíceis, muito menos imbecis. Na verdade são intuitivos, assim como os caminhos a seguir, tudo é bem dosado, equilibrado e merece elogios por isso.

MAS, Persona 5 não é só perfeição. É, estou falando dos "Mementos", sidequests que acontecem em uma parte específica do Metaverse e lembram bastante o Tartarus de Persona 3. Aqui precisamos procurar pelos "crápulas da sociedade de casta menor", que atrapalham a vida das pessoas de formas mais singelas, mas igualmente filhas da putas. Nesses momentos o game pode se tornar massante pra alguns, afinal andamos em centenas de corredores derrotando monstros por horas, obrigatoriamente...

A dica é: sempre tirem um tempo para completa-las e não acumular tudo no final, foi assim que consegui me divertir com eles.



Agora falando do outro grande cenário de desenvolvimento desse jogo, o "mundo habitual", onde podemos interagir com outros personagens em busca de firmar relacionamentos, esses que irão evoluir com o tempo e consequentemente deixar nossos personas mais fortes. Não apenas isso, ao chegar no nível máximo de relacionamento, ganharemos bonificações incrivelmente apelonas, dependendo do personagem, como itens de cura mais baratos, massagens revigoradoras, capacidade de adquirir criaturas mais poderosas etc.

Entendeu o conceito? Então engatar um romance com uma personagem de um jogo weebo é necessário, é uma linha evolutiva, ora, ora, isso não parece nenhuma estratégia de produtores, magina!

Mas não se enganem, engatar relacionamentos, seja um romance ou amizade, não é necessariamente uma tarefa vaga, tampouco fácil. Primeiramente, os personagens que interagimos possuem um desenvolvimento arquitetado, dramas pessoais e construção de caráter que os tornam humanos o suficiente para nos gerar alguma empatia, e claro, algum apego.

Além disso, temos a obrigação de evoluir nossos status pessoais se quisermos nos aprofundar socialmente com alguns deles. Certos personagens irão se afeiçoar a você caso você seja mais gentil, carismático,  inteligente etc. Então se deseja tornar-se mais forte, parta em busca de se aperfeiçoar.

E lembrem-se que arranjar muitos romances de uma vez, além de mau caratismo, vai dar ruim uma hora.

Não digam que eu não avisei.

Uma linda médica rockeira da Arcana Death? Thanatos upgrade? INSTA WAIFO.

Sobre a trilha sonora, como todas as experiências que tive jogando jogos da Atlus, é extremamente legal, musicas dançantes com vozes poderosas que ajudam ainda mais na sensação de dinamismo que a série quer passar ou músicas mais calmas que acompanham a nosso cotidiano enquanto andamos na cidade, que ajudam a expor a ideia de rotina e tranquilidade.

GROOVE!

Ouvir "Beneath The Mask" naqueles tempos de chuva na cafeteria davam uma sensação muito legal, cara. Ah, e anotem o que estou dizendo, daqui uns anos todas elas trarão uma nostalgia gostosa. Ah não ser que você odiou tudo do jogo... enfim.

Peraí, desde quando um jogo que te obriga a ir à escola é legal? Tá aí algo a se pensar.

Quem mais curtiu as trivias de café do Sr. Sojiro?

E falando em dinamismo, o mesmo podemos dizer de seus protagonistas únicos, carismáticos, muito bem dublados e com performances características. Na verdade, na minha humilde opinião impertinente, Persona 5 tem a melhor party da série!  Ryuji, aquele parça pra qualquer hora. A bela Ann, nossa amiga gentil e extremamente linda que o jogo fica shipando com Ryuji e não venha me dizer que não. Morgana um gato/ônibus falante que é o animal mais carismático da série desde o cachorro de Persona 3. Yusuke, aquele amigo que você imagina ser o EDGY da galera, mas que na realidade é só um maluco com as atitudes mais inconvenientemente sem noção, tornando um dos personagens mais divertidos e legais do jogo. Makoto, a garota inteligente com a skin mais foda que esses adolescentes DESCOLADUS poderão usar. Futaba a nerdzinha com um dos desenvolvimentos mais bem construídos da trama ou a  Haru, com a sua aparição atrapalhada e seu design de francesinha bacana.

E não podemos esquecer do nosso protagonista, que no mangá é chamado de Akira, que conseguiu bem mais personalidade com a adição de balões de pensamento em Persona 5.


A narrativa é inicialmente baseada em um interrogatório que nosso protagonista é exposto, e toda a trama é conduzida como um conto da vida dos últimos meses desse suspeito que nós ainda não conhecemos muito bem.

Sim, por isso a piadinha no título deste infame texto. Muito engraçada, hein? Bwahaha...

...
...

Ok, eu tenho que parar com isso...

Mas enfim, esqueçamos isso e pensemos, qual é a base do enredo de Persona 5?

O que o faz funcionar?

"Você é um escravo, quer emancipação?"

A principal e óbvia particularidade que faz Persona tão diferente de outros RPGs do seu porte é o fato dele se passar dentro da sociedade contemporânea, o que nos dá um ponto de vista bem mais tateável sobre as tramas que nos envolvemos, por mais simples que sejam.

Todos, absolutamente todos, os jogos da série traziam um semblante de desenvolvimento pessoal de seus jovens protagonistas lidando com os demônios internos que os incomodavam.



Por exemplo, temos o caso da Ginka, de Persona 2, que por ser uma garota de feições ocidentais no Japão, possuía suas cicatrizes de preconceito e xenofobia que sofrera quando mais nova. Sem falar da pressão que a jovem sentia por ter sua família forçando o ideal de "mulher japonesa", quando na verdade ela nem tinha decidido o que realmente queria pra sua vida.


Também podemos citar os famosos casos de Naoto e Kanji de Persona 4, onde ambos passam pela insegurança de tentar entender sua sexualidade enquanto são pressionados pela sociedade que os cerca junto dos seus preconceitos.

O que esses personagens tem em comum? Todos, uma hora ou outra durante a jogatina, confrontam suas "sombras interiores", as reconhecem como parte de si mesmos, impedindo que esses aspectos dominem sua real personalidade, e claro, amadurecendo no processo de auto conhecimento.

Basicamente todo título tem um drama desse naipe, e sua resolução. A linha narrativa de Persona esteve trazendo a ideia de "aceitação" de seus próprios defeitos nos seus últimos jogos de uma forma bem clara.

Mas Persona 5, de um jeito intrigante, porém ainda interessante, parece ir pra um caminho um tanto diferente. Pois este jogo, definitivamente, não é sobre aceitação.

Claro, cada jogo da série Persona tem sua própria abordagem e as coisas funcionam de forma particular em seu próprio meio, comparar a qualidade entre ambos usando esses aspectos é desnecessário. Mas essa é uma diferença muito legal de se observar e pensar sobre mesmo assim!

Persona 5 é bem mais direto na sua proposta e já mostra, de cara, nossos protagonistas se transformando e despertando seus poderes em cenas grotescas nas quais eles abandonam suas máscaras (lê-se arrancando de suas caras ensaguentadas logo após vomitar sangue) materializando a ideia de revolta contra aqueles que abusam dos mais fracos na sociedade, em formas de criaturas do além: as personas.

Em outras palavras, eles despertam sua vontade de libertação, ou "emancipação".

Uma abordagem diferente de Persona 3, onde o despertar foca-se em utilizar as personas como ferramentas para cumprir um dever, ou Persona 4, onde o despertar foca-se em mostrar seus personagens lidando com a escuridão em seus corações e as aceitando como partes de si mesmos.

Por que estou citando esses 2 de exemplo exclusivamente?

Essa é a linha evolutiva que Katsura Hashino, que trabalhou em SMT If, e assumiu a direção de Persona 3, 4 resolveu abordar no último jogo lançado da série, e é muito interessante observar como a ideia de como ele gere a série foi evoluindo com o passar dos títulos

O que podemos esperar para o próximo?

ÉDJI!

Referências "mitológicas"

Como eu já disse em outro artigo, jogos da Atlus possuem o costume (não uma regra) de inserir um  tema "etéreo" em suas tramas. Persona 4 temos lendas orientais mais presentes, em Catherine ficam as mesopotâmicas, em Shin Megami Tensei Digital Devil  o hinduísmo,  e esses são alguns exemplos.

Já em Persona 5 ficamos com as grandes criaturas (reais ou não) que tiveram suas histórias difundidas no imaginário popular através do séculos: os especialistas em... ROUBO!

Arsene Lupin, um lendário ladrão que fez sua aparição em 1905 em uma breve história do autor francês Maurice Leblanc (LUPIN THEEEE THIIIIIIIIRD). Capitão Kidd, que está entre os melhores "persona base" que já existiram nessa série, um marinheiro habilidoso que se revoltou e tornou-se um pirata famoso. Carmem, que é inspirada na Carmen Sandiego e NÃO VENHAM ME DIZER QUE NÃO. Zorro, certamente o mais conhecido da lista, funcionava como um Robin Hood espanhol e protagonizou tramas de considerável sucesso no século 20.

E esses são apenas alguns exemplos.



Considerações finais

Persona 5 é exatamente o que eu estava esperando e foi provavelmente o meu hype mais bem sucedido que me lembro. Não é um jogo perfeito, claro, mas como RPG conseguiu chegar perto de ser impecável. Continuo mantendo minha opinião que Persona 2 tem o enredo mais elaborado (o que já disse que não é difícil) e que Persona 3 tem minha vibe favorita da série. Mas Persona 5, pelo conjunto da obra, conseguiu o direito de ser qualificado como melhor entre eles.

É o meu primeiro "10/10" em muito tempo.

quem nomearia seu char assim? que absurdo! cof cof.

Claro, apenas minha opinião, estejam livres pra discordar e me xingar nos comentários.

Sobre o seu final, certamente onde o jogo mais brilha, deixarei pra falar em outro texto, um dia, talvez. Certamente mais títulos de Persona vão voltar outra hora com artigos dedicados, e  um dia falo de Digital Devil Saga também.


Até dia MIL procês!
                                                     
                            ISNOTAGAME AIMNOAROBOTE NANANANENANHENHE (8)

qualé, não me olhem assim, não consegui resistir...

Recomendo ESSE artigo gringão!

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