Fallout: Um adeus ao velho mundo


Talvez sejam poucas as séries que tenham passado por tantos altos e baixos quanto Fallout: Surgindo das cinzas de um RPG chamado Wasteland, o game havia sido a saída que a Interplay Studios encontrou pra continuar a explorar o que teria acontecido com nossa civilização caso ela sobrevivesse a um holocausto nuclear, já que o mencionado Wasteland, que seguia a mesma premissa, tinha sua marca pertencente a EA Games e a sequência não tinha sido permitida. Hoje em dia, Fallout passou por diversas evoluções e regressões drásticas também, seguindo em pé, mas longe de seu auge de outrora.

Curiosamente, apesar de muita gente atribuir a autoria dos dois primeiros jogos a cultuadíssima Black Isle Studios, Fallout 1 foi lançado quando a mesma não existia, mas o mesmo foi concebido por aqueles que fundariam posteriormente o estúdio, Black Isle é mais um caso de desenvolvedores que criaram uma equipe subsidiária da principal, como a famosa Sonic Team da Sega ou a falecida Clover Studios.


O game começou sendo membro de um gênero que tinha vários representantes em sua época, o CRPG (computer role-playing game), tal como Baldur’s Gate e Planetscape: Torment (também da Black Isle), mas não se enganem, apesar de ter vários games, é um gênero de nicho, nunca houve uma “era dos CRPGs” tal como teve para beat n’ ups e jogos de lutinha, apenas existiu uma época que esses jogos tinham sua fanbase fiel.

Fallout tinha uma perspectiva isométrica, vários skill sets, exploração e formas de resolver conflitos, indo da boa e velha violência, até diplomacia e outros meios como hacking de sistemas.

Basicamente, tais elementos são o que a fanbase desse subgênero usa para identificá-lo, pra facilitar, pense em uma partida de Dungeons and Dragons, mas em vídeo-game, você vai ter uma boa ideia dos moldes. 

Geralmente CRPG são games de fantasia medieval, podemos dizer que Fallout deu uma “fugidinha” dessa temática.

No universo de Fallout, a sociedade se viu vítima de uma guerra entre os EUA e a China em 2077, que resultou no planeta imerso em um apocalipse pós-nuclear, onde além de poucos recursos para sobrevivência humana, também contava com criaturas mutantes mais perigosas que qualquer fera selvagem que conhecemos.

O personagem principal, esse que pode ser um pré-estabelecido ou um que você mesmo customizou, é membro de uma Vault, uma espécie de sociedade dentro de bunkers criados para proteger um grupo de pessoas das quedas da bomba, sua Vault, a Vault número 13, é um lugar liderado pelo Overseer e se trata aparentemente de um local pacífico, não existindo motivo a princípio para alguém ter que deixar o lugar para a wasteland e encarar todos os perigos que se encontram por lá, porém o protagonista foi o troxa sortudo escolhido para deixar a Vault e encontrar um water chip, item que é responsável por abastecer o lugar com água potável, do contrário, todos lá morrerão de sede.

“Estamos todos torcendo por você... daqui de dentro... totalmente seguros.”
E assim se inicia a busca, o personagem que assim como o jogador, nunca teve qualquer contato com o mundo externo, terá uma lead inicial para investigar, e poderá procurar por informações nas diversas (lê-se: quatro) cidades que você encontrará por sua jornada de procura e também de sobrevivência, o que será muito útil para guiar o personagem. Inicialmente são cerca de 150 dias in-game estabelecidos como deadline, que através de uma quest, podem ser expandidos por mais 100.

Pois é, pra quem começa esse game, pode ser assustador ter que correr contra o tempo assim, sendo o único game da série que é filha da puta a tal ponto, porém, se você tiver um mínimo de experiência com RPGs desse tipo, você pode cumprir todas as diversas side quests que encontrar pelo caminho e encontrar o water chip em apenas 20 dias in game.

Fallout 1 é um jogo bem curto em relação aos seus sucessores, tendo cerca de 12 localidades pra se visitar, mas é impressionante como conseguiu estabelecer quase todos os moldes do universo da série (tais como os Super-mutants, Ghouls, Deathclaws, a Brotherhood of Steel...), ter vários personagens interessantes, quests divertidas e ainda um final boss bacana, que apesar de claramente errado, as várias formas de derrota-lo e ver até onde a sua luta para tornar os humanos numa raça que considera superior o levou são coisas divertidas de se descobrir.


A série adota um estilo retro futurístico, muitos se indagam o porquê do mundo na franquia ser tão retrógrado culturalmente, com seus carros, músicas e roupas dos anos 50, sendo que em vários momentos a série mostra uma ciência e tecnologia muito mais avançada que a nossa.

As explicações que a série nos dá pra isso são várias, indo desde ao atraso de 120 anos na criação do transístor nesse universo, influenciando na invenção dos eletrodomésticos, até a inflação altíssima, conflitos políticos e uma provável Segunda Guerra Mundial que acabou durando demais e influenciando no avanço cultural e tecnológico da sociedade.

Indiferente da justificativa pra isso, não é apenas uma decisão estética dos desenvolvedores, eles tomaram inspiração no World of Tomorrow, uma visão que os americanos tinham em 1950 para o futuro, se você ainda se pergunta a razão desses carros antigos criarem uma explosão nuclear ao serem destruídos em Fallout 4, saiba que nessa época, pra muitos o futuro era a energia nuclear, a famosa Atomic Age foi uma época em que após os experimentos na Segunda Guerra (sim, AQUELES dois experimentos) deixaram os EUA esperançosos pra usar a energia nuclear pra tudo, aposto que botar um reator nuclear nos fogões de casa era uma opção inteligente pra eles naquele tempo.


De todas as formas, Fallout satiriza essa ideia retardada do futuro não somente graças a seu setting de pós-bomba, mas também porque graças a diversos problemas como a economia, a revolta da população e críticas vindas das mais inúmeras formas (como o filme Godzilla), levaram o sonho americano de ter uma bomba nuclear particular distribuindo energia para todas as cidades pras cucuias, indo pra caixinha de ideias retardadas dos EUA.

A customização dos status se baseava majoritariamente nos atributos: S.P.E.C.I.A.L. (Strength, Perception, Endurance, Charisma, Intelligence, Agility e Luck), que são o núcleo de todas as capacidades de seu personagem, devendo assim ser o principal foco do jogador, eles não somente tem seus efeitos imediatos e individuais (Strenght define o tamanho da arma que você pode usar e o quanto pode carregar, Agility é um atributo essencial que define quantas ações você pode ter por turno), mas também influenciam num multiplicador das skills do personagem, Charisma influência em sua Speech Skill, Agility em Sneak e Lockpick, Perception na sua técnica com armas de fogo, e por aí vai. Portanto, distribuir bem seus pontos de atributos vai transformar o jogo numa verdadeira brincadeira de criança, graças às facilidades que eles trazem para o resto de suas habilidades.


A cada nível alcançado, você tem acesso a skill points que você pode distribuir tanto em skills passivas (como Repair e Science) e em skills ativa s(tais como as focadas apenas em combate), cabe a você escolher quais serão suas habilidades principais.

Talvez o detalhe mais interessante nos dois primeiros games é que tendo Low Intelligence você mal consegue falar direito, tornando uma conversa simples numa verdadeira Boss Fight.

Por último, tem os Traits e Perks, Traits são características que você pode optar no início do game, que trazem vantagens mas possuem drawbacks, enquanto os perks serão em grande parte vantajosos (em teoria todos seriam, mas tem uns bem bostas), mas que só ficam disponíveis depois de um certo número de níveis for alcançado, por isso é necessário que o player escolha bem aquele que mais precisa.

Existem poucas opções de customização de arma e equipamentos nesse game, mas são bem eficientes, aliás, quando você por as mãos num Power Armor, já pode considerar o game terminado.


Em combate, Fallout 1 e 2 são complexos de inicio, mas divertidos depois de pegar a manha, você terá acesso a um determinado número de Action Points baseados em Agility e Perks relacionados, eles determinarão quantas ações você pode realizar por turno, tais como atacar, se mover, abrir o inventário (que gastam absurdos quatro pontos), usar itens, dentre outras ações menos importantes em combate.

Para atacar, você terá uma porcentagem de acerto baseada em sua skill com o tipo de arma que você estiver usando, também existem os modos V.A.T.S. e Burst, o primeiro serve para mirar em partes específicas do oponente, facilitando um crítico, ou um golpe que deixe aquele membro ineficiente, Burst por sua vez, é um descarregamento do pente da arma no oponente, geralmente causando um belo estrago.

Esse tipo de estrago.

Para viajar de um local para o outro, o personagem anda pelo mapa automaticamente, podendo descobrir locais desconhecidos se passar por eles, pelo caminho ocorrem random encounters, muitas vezes se trata de um grupo de inimigos, mas pode ser também um grupo de fazendeiros, algum biruta E ATÉ A PORRA DE UMA NAVE ESPACIAL, esse tipo de aleatoriedade nos random encounters continua no segundo game.

Nos diálogos, existiam uma espécie de karma system bastante simples, ele definia como você seria recebido em geral pelos NPCs, então mesmo que você tenha declarado guerra a uma das cidades, se você ter um karma neutral, vai ser recebido naturalmente em outros lugares.

Você também tem acesso a companions, que não são muito úteis no fim do game, já que não evoluem nem podem ser equipados com melhores proteções, algo que foi melhorado drasticamente no segundo game. Por último, você pode usar drogas que aumentam suas habilidades e atributos temporariamente, mas podem causar dependência, graças a pouca dificuldade do primeiro, elas são mais úteis nos próximos jogos, sinceramente aqui eu não acho que valha o risco.


Uma das coisas mais divertidas de Fallout sem dúvidas é sua exploração, mas não digo apenas de dungeons, como seria o de se esperar de um game do gênero, conhecer as cidades e ver como as pessoas conseguem sobreviver naquele mundo hostil e dar de cara com as mais inusitadas situações, é um dos grandes charmes não só desse game, mas de toda a franquia.

Diferente de seu sucessor, Fallout é bem direto em seus objetivos e eles raramente se entrelaçam, sendo uma experiência bem simples e objetiva, eu particularmente gosto quando se tem mais conteúdo como no segundo game, mas em alguns momentos as quests de Fallout 2 me pareceram bastante “bagunçadas”, o que me fez preferir o formato do 1, que é mais curto e objetivo, porém ainda sem deixar o player de mãos vazias quanto ao que se refere a ter o que fazer o game.

É uma pena que houve muito conteúdo cortado nesse primeiro game, deixando ele bem menor que deveria, é triste quando você encontra NPCs que a conversa simplesmente trava e você precisa deixar ele de lado, fica claro que os desenvolvedores sofreram – e não só nesse game – com time restraints bastante injustos, como é bem comum na indústria.

Não me olhe assim sua esquisita, eu nem falei da CAPCOM aqui ainda. 

Fallout 1 fez sucesso o suficiente para que tenha sua sequência, Fallout 2 usa tudo que o primeiro trouxe, mas aprimora em vários níveis. Após o final do primeiro game, o protagonista deixa sua casa e seus descendentes acabam criando uma espécie de tribo indígena em Arroyo, sim, tribo mesmo, com tudo que você pode esperar de uma, desde ritos de passagem até um shaman.

O novo protagonista, agora chamado de “Chosen One” por seus companheiros de vila, e de biruta, caso você tente usar desse titulo com pessoas de outros lugares, é o neto do protagonista do primeiro game, e deve sair em jornada para recuperar um G.E.C.K., item deixado em Vaults para auxiliar na construção de cidades quando esses acharem que o mundo acima já é seguro, porém, a necessidade vem de uma grande seca que assola a vila, que possivelmente G.E.C.K. também pode solucionar.

Sim, mais uma vez se trata de uma situação de urgência, porém agora não existe nenhuma deadline imposta ao jogador, ele está livre pra explorar o game da maneira que quiser logo de início, volta e meia o jogador pode receber mensagens do shaman em sonho, falando que a vila está sofrendo, mas isso só serve para a dramatização da história, não tendo nenhum efeito no game. Portanto, apesar de no geral ser mais difícil e complexo que o primeiro game, Fallout 2 é mais amigável aos novos players, que podem tomar seu próprio tempo para aprender como funciona o game, sendo o mais indicado dos dois pra começar.

Fallout 2 em pouco altera suas skills e atributos, apenas mudando seus scallings e dando certas utilidades a mais, Charisma agora, definia seu número de companions por exemplo, estes que foram melhorados consideravelmente, podendo evoluir junto com o jogador e serem equipados com proteção a escolha do player. Quanto aos perks, foram adicionados alguns novos, mas em geral, são os mesmos de sempre.

O número de equipamentos também aumentou consideravelmente, você agora também pode customizar sua arma em certo grau e pode ter acesso a dois novos Power Armors. Após fazer uma quest específica, você também pode comprar uma BELA CARANGA, que ajudará a diminuir seu tempo de viagem pela wasteland.

Sinto cheiro de PROCESSINHO.

O sistema de karma em pouco mudou, mas agora o personagem pode criar uma fama específica (ex: childkiller), que faz as pessoas reagirem diferente em sua presença, também foi introduzido um sistema de reputação, que mede o quão admirado ou desprezado você é para certo grupo ou cidade. O sistema de reputação altera consideravelmente a dinâmica do game, já que os desenvolvedores conseguiram usar ele de maneira muito inteligente, em várias quests você vai ser apresentado a um dilema envolvendo duas ou mais comunidades, dependendo da forma que você consiga resolver o problema, você pode passar a ser odiado por uma ou mais delas, o que faz o jogador não simplesmente ir atrás de uma solução, mas sim a que é mais vantajosa ou que as consequências mais se adequem aos seus valores morais.

Existem vários locais pra se explorar em Fallout 2, dando uma quantidade surpreendente de conteúdo ao jogador, e por parte do mapa ser também o mapa que era originalmente de Fallout 1, você pode ver em primeira mão as consequências das ações do primeiro jogo, graças ao auxílio do protagonista original, Shady Sands se tornou a New California Republic, que talvez seja a primeira tentativa no pós-guerra de um sistema republicano que possa funcionar. Os mutantes que haviam sido derrotados no primeiro game, decidiram se tornar pacíficos e boa parte firmou residência em Broken Hills, um vilarejo onde eles exploram minas com alta radiação e que os mutantes podem tomar proveito de sua resistência a ela para terem preferência nesse tipo de trabalho, apesar de seus problemas com xenofobia entre a população, Broken Hills consegue seguir firme.

Infelizmente eu tenho que fazer uma crítica aqui, no game existe a cidade de New Reno, uma cidade controlada por várias famílias mafiosas em conflito e que possui como principal economia a prostituição e os casinos. Não se enganem, eu adoro New Reno, em termos de sandbox nenhum outro local no game supera a cidade, as várias quests e escolhas que você tem são excelentes, po... deixar o carro estacionado na cidade e perceber que ele foi roubado quando voltei, foi uma das surpresas mais engraçadas que tive na franquia. O problema vem quando olhamos o sucessor de Fallout 2, New Vegas se esforça para tornar os locais do game economicamente plausíveis (afinal o tema dele é política), colocando eles em locais estratégicos e tendo como núcleo econômico algo que seja coerente com sua função dentro da rota comercial, Fallout 2 por outro lado não tenta criar tal ideia. Como em um mundo devastado, onde o que mais existe é pobreza e são poucos aqueles que possuem dinheiro pra esbanjar, pode haver uma cidade que sobreviva de jogos de azar? Eu francamente acho absurda essa ideia, mas talvez seja só eu sendo resmunguento.

New Reno também é o lar desse rapaz de extrema boa índole, e que vai contribuir para um grave problema de continuidade feito pela Bethesda em um certo game futuro.
Fallout 2, como visto pelo próprio centro de depravação mencionado acima,  tem um forte humor negro e possui várias cenas e situações pesadas, indo muito além do primeiro nesse quesito, aqui você pode ser um escravista e vender a própria esposa, ganhar fama de Zé do Caixão abrindo túmulos em busca de loot, virar ator pornô, e uma das cenas que achei mais chocantes durante o game: Você pode dar uma arma descarregada pra uma criança em troca de informação, mas a mesma encontra munição se você o fizer e ela brinca de tiroteio com seus irmãos, podendo ser observado o resultado depois.

Essa imagem quase foi para a versão final.
Muitos fãs não gostaram dessa nova abordagem, achando demais forçada e fora da essência do Fallout original, eu considero bem-vinda, trazendo um grande diferencial em relação a outros RPGs.

O vilão da vez é o Enclave, um grupo de descendentes de figuras militares e de alto poder político do EUA pré-guerra, os mesmos acham que são os verdadeiros donos do país e buscam através de tráfico e outras práticas juntar recursos para seu plano de expansão. O Enclave possuem a melhor tecnologia conhecida, tanto científica quanto militar, e se acham superiores às pessoas da wasteland, já que diferente deles, eles são seres humanos “puros”, que não sofreram nenhuma influência da radiação e do FEV (Forced Evolutionary Virus), um ponto de vista quase que contrário ao do vilão do primeiro game.

O grandão ai é Frank Horrigan, um exemplo de soldado do Enclave com pureza de DNA.

O Enclave vive no passado e pouco se esforça para aceitar as mudanças que o mundo sofreu, um tema que vai ser muito explorado em New Vegas, com vários pontos de vista, o regime fascista e xenofóbico do grupo é claramente baseado em muitos de nossa realidade.

Não posso deixar de citar o Enclave sem mencionar a tentativa que tive de consertar um robô que acabou resultando numa ligação de trote para a facção, o momento mais engraçado que vivenciei nessa série.



Fallout 2 é considerado o melhor da série por muitos, eu sinceramente prefiro o New Vegas, porém é inegável que os diálogos de Fallout 2 sem dúvida são os melhores da série, mas como disse anteriormente, existem várias quests confusas e bagunçadas no game, e o jogo possui mais bugs e glitchs que os games da Bethesda, felizmente esses problemas não impediram o game de se tornar um clássico.

É válido mencionar que a GOG fez um excelente trabalho em trazer os dois jogos da série (junto do spin-off, Fallout Tactics) para os computadores mais modernos e também o esforço considerável dos fãs em trazer conteúdos extras que foram originalmente cortados e consertos para os mais diversos bugs, trabalhos como o genial Restoration Project para o Fallout 2 provam que a série tem uma das fanbases mais dedicadas dos jogos.


Curiosidade PERTINENTE: Apesar de ter sido deixada de lado pela Interplay tempos atrás, Wasteland não morreu. Após ela ter parado nas mãos da Konami, a série foi comprada por uma empresa indie alguns anos atrás, e após uma angariação de fundos no Kickstarter, Wasteland 2 foi lançado em 2014 com vários desenvolvedores de Wasteland e dos Fallouts clássicos na equipe.


O que estamos vendo é um "renascimento" do gênero surgindo nos cenários indie e kickstarter, o que é muito bacana. Games como esse e o recente Tides of Numenera provam que nada impede um gênero de permanecer na ativa, desde que eles possuam uma fanbase viva e um grupo de desenvolvimento comprometido a trazer o que era de bom na experiência original.

A queda da Black Isle, o falecido Van Buren e o surgimento da Bethesda na história

Para um CRPG da década de 90, Fallout construiu uma fanbase sólida, não grande, mas fiel, e isso foi razão suficiente pra se pensar em um terceiro game, o tão lembrado Projeto Van Buren, um jogo que seria feito com um motor gráfico totalmente novo e em 3D, engine essa que ia estrear com esse game e outro carro-chefe do gênero, Baldur’s Gate 3.

O jogo contaria a história de um prisioneiro (acusado injustamente ou não, o player decidiria sobre isso) que acabaria dando de cara com uma guerra entre a Brotherhood of Steel e a New California Republic.

A Brotherhood of Steel, explicando de uma forma bem simplória, são cavaleiros templários do novo mundo, dispostos a proteger e guardar em lugar seguro toda tecnologia que em sua concepção possa vir a causar algum mal à sociedade, um motivo que a primeira vista parece nobre, principalmente se levarmos em conta o que a tecnologia fez com o mundo na guerra. Mas tal nobreza é ofuscada por um grande extremismo e egoísmo, o grupo nega tecnologia que pode favorecer as pessoas e passam por cima delas se for necessário pra recolher tal apetrecho ou sistema que esteja sendo buscado.

Triste fim de Jiraya que não quis entregar seu Tamagotchi.
Fatores externos a essa guerra (que até onde eu sei, não teve o motivo revelado) iriam existir, de exemplo haveria Caesar’s Legion e um cientista motivado a criar um segundo holocausto, provavelmente o vilão final do jogo.

No que tange ao gameplay, ele continuaria sendo em perspectiva isométrica, mas os combates em turno poderiam ser substituídos por um estilo Action RPG (que só colocaram porque a Interplay ficava enchendo o saco), o game por ter gráficos totalmente em 3D, permitia ver os locais de vários ângulos diferentes invés de imagens estáticas, os personagens também eram bem melhor modelados obviamente, com uma movimentação mais natural e menos travados, e também pelo que foi mostrado, haveria pela primeira vez customização do personagem.

Este Fallout 3 estava aparentemente quase terminado, mas graças a uma crise financeira enorme, Black Isle fechou as portas sem levar o jogo as prateleiras, antes disso, a publisher Interplay já tinha prostituído a marca a bel-prazer, a título de exemplo temos o infame Fallout The Brotherhood of Steel para PS2, um action-RPG raso, com personagens fracos (e gráficos extremamente feios, puta que pariu), musica teen edgy e plot bobo, algo que ninguém pediu e nem era necessário, mas a Interplay tava louca pra fazer um game semelhante ao sucesso Baldur’s Gate: Dark Alliance. Eles pretendiam fazer uma sequência, que foi iniciada antes mesmo de acabar o primeiro game e acabou cancelada junto de Fallout 3. Há quem diga que o natimorto Brotherhood of Steel 2 foi o verdadeiro responsável pelo fim prematuro de Fallout 3, as razões eu desconheço, mas a Interplay deve ter gastado dinheiro além da conta com o jogo, e o lucro do primeiro Brotherhood of Steel não deve ter fechado esse lacuna como esperado.

Após essa tempestade de bosta problemas, Bethesda acaba comprando os direitos de Fallout depois de Black Isle fechar as portas, transformando a série num bicho parecido, e... Totalmente diferente do que se conhecia.

Usando o mesmo motor gráfico de Morrowind e Oblivion, Bethesda transformou Fallout em um misto de FPS e RPG, baseado em muita exploração, deixando o enredo um pouco de lado.


Eles tentaram aqui adaptar vários elementos de RPG pro novo cenário como o SPECIAL e o V.A.T.S. e conseguiram muito bem, mas deixaram muitos desses elementos de fora, como reputação em locais e traits, algo que não comprometeu a transição para o cenário open world 3D.

A exploração aqui é divertida e pode te proporcionar várias horas de jogo, se você é fã de um Elder Scrolls da vida, Fallout 3 é perfeito, disponibilizando várias dungeons, na forma de locais como vaults perdidas, super-mercados e hotéis abandonados. Já fica evidente  por essa variedade de locais, que o game não pecava em nada na ambientação, sendo bastante semelhante a dos outros jogos, mas agora por se passar nas ruínas de Washington DC, você se depara com vários conjuntos de entulho jogado e construções largadas pelos cenários, há bem mais vestígios de uma civilização passada agora, abandonado um pouco as cidades reconstruídas e os vastos desertos dos primeiros games.

Essa pequena mudança incomoda alguns dos fãs mais fervorosos da duologia, já que se considerar que em suas duas antigas encarnações a sociedade já estava começando a se organizar, um jogo que passa em uma época semelhante como Fallout 3 mostrar um mundo tão as avessas assim acaba sendo uma inconsistência. Em minha opinião isso é muito crível, já que Fallout 3 se passa em outro extremo do país do qual se passava esses jogos, a sociedade poderia muito bem ter se movido de forma mais vagarosa pelos destroços de Washington.

O jogo em pouco te pune por ir atrás de explorar locais novos logo no início do game, pois possui um nível de scalling, que faz com que os inimigos gerados possam ser enfrentados pelo nível atual do personagem, algo que já é de praxe na Bethesda. Alguns dizem que o limite de nível nesses jogos (20/30 no Fallout 3 e 30/50 no New Vegas) são pra você não criar uma build especializada em tudo, na verdade é nada mais que preguiça das desenvolvedoras pra não trabalhar mais no scalling de inimigos, que devia acompanhar os níveis maiores do jogador, algo que fica bastante evidente no level 30 de Fallout 3, onde certos inimigos são irritantes pela alta quantidade de life, se você tem medo dos Deathclaws, é porque nunca deu de cara com uma infestação de Ghouls com mais de 8 Ghoul Reavers no meio, mas isso felizmente, são detalhes que raramente atrapalham de verdade a experiência.

O grande amigo da galera.
O jogo incentiva e recompensa o jogador a explorar,  fazendo com que ele encontre itens, vilarejos e quests novas pelo caminho. Pra ficar mais bacana a jornada, agora existe fast travel e uma rádio que toca Jazz e Blues clássicos e outra apenas com música clássica orquestral.

O game conta com uma variedade enorme de armas, desde facas a shotguns, armas a laser, rifles de plasma e o famoso Fat Man (lançador de mini ogivas), a transição para o 3D não afetou em nada a variedade de estilos de armas e de formas de se combater, na verdade até melhorou consideravelmente as duas coisas.

A história desse game não tem vínculo direto com os outros jogos, por se passar em um local muito longe do dos dois primeiros, nessa história, o protagonista chamado comumente por Lone Wanderer deve ir atrás de seu pai James, um cientista que deixou a Vault sem deixar notícias. Enquanto acontece a busca, um perigo antigo tenta ressurgir e a Brotherhood of Steel, cujo o capítulo está sendo comandado pelo velho gente boa Elder Lyons, está tentando dizimar o grande número de Super Mutantes que infestou a Washington DC e está assombrando a população (o fato da Brotherhood ter se desvirtuado tanto de seus ideias fez até mesmo que alguns membros se desvincularem da mesma).

Não esperem nesse game uma retratação profunda dos Super Mutants como ocorreu em Fallout 2, aqui são apenas genocidas imbecis, servindo apenas para aumentar a lista de inimigos do jogo e para resgatar elementos dos jogos anteriores, eles serão os primeiros vilões que você enfrentará no jogo, e não espere nada demais deles.

Assim como nos outros jogos, se manteve nesse game as várias comunidades ao longo da wasteland, com vários encontros únicos, desde uma cidade construída em volta de uma bomba nuclear que não explodiu até uma vila que escolheu o canibalismo pra sobreviver, você através das side quests, novamente vai definir o futuro de cada uma delas, porém de forma muito fechada e que dificilmente atinge outros grupos, uma pegada mais do Fallout 1 do que do 2. Infelizmente as escolhas morais que você faz nesses locais são incrivelmente binárias, sendo simplesmente classificadas de forma escrachada entre "bem e mal". Na cidade da bomba que mencionei, você pode escolher ativar a bomba e matar todos, ou... desativar a bomba! O que você vai escolher, hein? É simples assim, enquanto nos antecessores as escolhas que normalmente seriam ruins ainda possuem certos benefícios para aquela comunidade para poderem ser vistas como opções plausíveis, aqui a única diferença é se você quer que seu personagem seja um bom samaritano, ou um grande filha da puta.
Colocaram tanto esforço na NPC Moira Brown, que deixaram ela acessível mesmo após a cidade explodir.
As side quests desse game são ótimas no entanto, por mais que as escolhas não tenham a profundidade de antes, a Wasteland sempre tem situações e lugares bizarros que vão te surpreender, impossível não rir ao visitar a Republic of Dave, um governo que possui.... SEIS HABITANTES, onde Dave sempre ganha as eleições. Apesar disso, como a Bethesda gosta de perder a mão, as vezes o jogo erra demais nisso. Em certo momento, o game tenta mesmo te convencer que um grupo de crianças podem estabelecer uma cidade com prefeito, médico e policial, sem nenhum contato com outras cidades, além de morarem ao lado de nada mais nada menos que os amigões da vizinhança, os Super Mutants!

Esse aqui se chama Osvaldo, veja como é amigável!
Mas acredite, apesar de forçarem a amizade em momentos assim, no geral o jogo consegue ser bastante divertido nessas side quests. Vale citar que, graças a nenhuma menção de rota comercial ou troca de suplementos entre as cidades, fica mais uma vez difícil de crer que as cidades consigam se manter sozinhas.

O voice acting dos NPCs é muito bom, seguindo o exemplo dos jogos anteriores,  pena que os modelos e reações dos personagens humanos não seguem esse padrão, é algo que deve ser comum nessa engine, pois infelizmente foi um problema passado para o jogo seguinte. O motor gráfico usado como nem precisa dizer, é abarrotado de bugs e glitches, alguns insignificantes e outros sérios que podem foder seu jogo quando você menos espera, nenhum game da série que saiu após esse se safou desse estigma.



O jogo contou com cinco DLCs ao todo, muitas delas trouxeram coisas interessantes, mas possuem seus defeitos (Operation Anchorage é muito linear e com exploração de menos, Mothership Zeta apesar de explorar um dos maiores mistérios da série, faz de forma horrível e de cereja no bolo, tem todos os defeitos da DLC mencionada acima elevados à quarta potência), mas não vou me focar muito mais nesse game, então não vou aborda-las aqui.

Fallout 3 carrega consigo o peso de ser o game que dividiu a série em dois grupos, um que acha que a série é baseada em exploração e elementos de RPG e outro que vê ela como um RPG de gameplay complexo e com escolhas morais significativas. Apesar de cada fase ter várias semelhanças, é inegável que em gameplay e forma de conduzir o enredo, Fallout 3 segue mais a linha da série Elder Scrolls que a própria, é até um tanto quanto incômodo ver que abandonaram e muito da premissa do “várias formas de se resolver um conflito”, sendo presente quase somente em side quests do game e as vezes de forma bem limitada, principalmente nas que se referem ao final do jogo.

Cabe ao jogador decidir o que ele acha desse destino, se foi uma salvação, uma criação de uma série completamente nova, ou se você é mais purista, um verdadeiro desastre (o que seria um baita exagero da sua parte, amigão).

Pra facilitar, imagine que a Bethesda é o protagonista e a série Fallout é aquele vilarejo em crise que ele acaba visitando na sua jornada.

Considerações finais

Pelo que foi exposto até aqui, já deu pra se ter uma ideia clara sobre a caminhada conturbada que essa série trilhou, começando como um jogo de nicho até mudar totalmente sua abordagem e pegar carona em sucessos como Oblivion, tudo isso graças aos problemas financeiros, divergências entre produtora e desenvolvedora e até mesmo as novas tendências que estavam dominando o mercado, até que houve sua consequente mudança para novas mãos. Este é o fim da primeira parte, a segunda irá tratar das duas últimas obras da série: New Vegas e 4, games que na minha opinião são diferentes igual água e vinho, vai ficar visível aqui as consequências de se agir com esmero e amor pela fanbase e a de visar apenas um público maior, algo que vocês já devem estar cansados de saber também.

Voltamos dia MIL!

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