Shin Megami Tensei: Digital Devil Saga - Transcendendo a realidade com... metralhadoras e criaturas do além

Esses títulos bobõe... digo, títulos LEGAIS sobre games da Atlus já tão virando tradição aqui, hein?

Como já estamos cansados de saber, a Atlus gosta de trabalhar com jogos no mínimo exóticos, seja pelo gameplay ou simplesmente pelos temas religiosos e culturais que se entrelaçam em tramas quase sempre simples, mas diretas e eficazes em atingir seu público cativo. 

Já tivemos aqui no blog alguns poucos exemplos que dão certo contexto sobre o que essa notável empresa curte fazer com seus joguinhos eletrônicos, como Catherine e Persona 5, que eu recomendo ler antes desse artigo, por sinal.

Pois hoje é dia de falar de Shin Megami Tensei: Digital Devil Saga: Avatar Turner, spin off obscuro de "nome pequenino" lançado em 2004 para Playstation 2, mais um título que foi resultado da expansão criativa que começou desde a clássica série Megami Tensei.


E apesar deste ser o jogo com o maior enredo (o que não é difícil, convenhamos) de toda a franquia, e ser a síntese do que eu acho de melhor quando falamos de SMT, (que é o gameplay de SMT3 e narrativa cheia de nuances de SMT2) Digital Devil Saga não é um dos colegas mais populares dessa turminha.

Ou pelo menos creio que ele merecia mais atenção...

Eu consigo compreender as razões por trás disso, mas espero que esse texto mude um pouco esse quadro, talvez para os infelizes aleatórios que gostam de RPG e entraram nesse recinto por acidente.

Sim, é com você que tô falando, não olhe pros lados.

Agora, sem mais enrolações e explicações que ninguém pediu, vamos começar, sim?

Primeira parte sem spoilers, e depois partimos pra eles.


"Rend! Slaughter! Devour your Enemies! There is no other way to survive!"

Pra quem quer ouvir a música toda, cliquem AQUI, tem um sax "sensaçonal".
                                                           
Introdução


Num cenário cyberpunk pós apocalíptico, assumindo realmente a vibe "SMT" característica, Digital Devil Saga tem seu início. Jovens de cabelos coloridos, que já saíram da puberdade, estão guerreando entre si com fuzis, metralhadoras e... estratégias militares avançadas, até que de repente, um artefato não identificado explode, espalhando feixes de luz que não só acabam abruptamente com essa empreitada digna de Rio de Janeiro, como também transforma todos os envolvidos em feras demoníacas que literalmente devoram uns aos outros de forma grotesca no meio da batalha, sem explicação alguma.

                                    Digno para se jogar no domingão junto com a família, ein? 


Não sabemos BULHUFAS do que está havendo, afinal essa é... A  INTRO do game. Mas o legal é que os personagens também não sabem, e assim podemos ter alguma esperança de procurar a resposta junto com eles. No final da esbórnia, uma moça de cabelos negros misteriosa e desacordada também surge sem explicação nenhuma no campo de batalha, e sobra para os nossos protagonistas, que não se lembram bem que se transformaram em diabos canibais, terem alguma empatia e leva-la para um lugar seguro.



O jogo começa narrativamente cheio de ação, o que é algo positivo pra um JRPG, e sem dúvida  aguça a curiosidade.

Daqui partimos não só para entender o acontecido, mas também para compreender sobre esse mundo caótico que fomos apresentados, formando a "aventura" mais complexa, viajada e cheia de reviravoltas da série  SMT e seus spin-offs.

É um "Matrix otaku hinduísta com transcendência de realidade e demônios entusiastas de fast-food"...

Lógico que é algo único no mundo dos games, carambolas!

Conceitos do universo

Design foda1

"Junkyard", a terra estéril, cinzenta e chuvosa que somos inseridos, é o grande palco dos primeiros atos da história. Seus habitantes estão divididos em 6 tribos, que travam batalhas territoriais entre si aparentemente há anos. Cada tribo está responsável por um setor da região, e toda a região está sob a jurisdição do "Templo do Karma", controlada por uma entidade que se auto intitula "Anjo" e que manipula os líderes das tribos com objetivos particulares em mente.

Design foda2

Embryon é a tribo dos protagonistas, e Serph, o personagem de cabelos brancos que vivenciamos, é seu líder. O objetivo geral de todas as tribos é atingir o "Nirvana", uma espécie de "iluminação ao paraíso" que os que habitam esse mundo deprimente tanto almejam.

Os acontecimentos da trama mudam completamente quando Atma, um vírus originado do artefato, começa a se espalhar entre os habitantes que eventualmente se transformam em demônios canibais, seres que agora precisam devorar uns aos outros a fim de suprir a sua fome insaciável e garantir a sobrevivência. Logicamente, nossos mocinhos, ou pelo menos a maioria deles, encara isso como um impasse, resolvendo seguir um caminho onde a esbornia não seja o objetivo, (apesar de ainda acontecer) e de bônus começam a se questionar sobre o lugar onde vivem e como viveram todos esses anos, o que misteriosamente não parece algo natural para nenhum deles.



Eu não sei quais são mais bizarros, esses ou os demônios de arte esquisita de SMT IV.
Ao mesmo tempo, o "anjo" do Templo do Karma dá o ultimato aos chefes das tribos, dizendo que aquele que derrotar todas as outras tribos e trazer a moça de cabelos negros, a Sera, terá acesso ao "Nirvana".

E é assim que a primeira parte da grande trama engrena.

Sim, apenas a primeira, porque esse enredo se desenvolve bem mais profundamente em seguida.

Conceitos técnicos

Como já mencionei, Digital Devil Saga 1 foi lançado em 2004, num disco com aproximadamente 40 horas de gameplay, e teve sua continuação menos de um ano depois, DDS2, que tem mais umas 40, sequência direta que responde basicamente todas as pontas soltas que obviamente o primeiro jogo nos deixa, adicionando pequenas mudanças de gameplay, personagens e lugares totalmente novos.

É como se fosse o "segundo disco", que foi lançado separadamente, alguns meses depois.  É por isso que eu sempre me refiro a Digital Devil Saga 1 e 2 como uma coisa só.

Então deixarei os spoilers pra quando eu tiver falando do 2 mais à frente, afinal, é impossível falar do dito cujo sem revelar os seus acontecimentos.



Voltando ao "disco 1", que apesar do início tão direto e cheio de ação em cutscenes, honra o padrão de JRPGs da Atlus de começar consideravelmente lento, com diálogos e andanças errantes pelos cenários, que nesse caso são propositalmente cinzentos, exóticos e com alguns NPCs que abrirão diálogos para conhecer um pouco mais do contexto desse pitoresco universo. 


A trilha sonora de Digital Devil Saga remete bem ao que já estamos acostumados dessa empresa, grooves de qualidade e na maioria das vezes, simples. Mas um ponto notável é que todas as áreas tem seu próprio som particular, e cada um consegue acentuar a vibe estapafúrdia e por vezes inquietante que essas localidades sem vida e de design legais foram feitas para passar.

A única trilha que você irá ouvir por vezes até se tornar repetitiva, como sempre, será a de batalha. 

Ou a de algum cenário que você se perca e fique andando por horas sem saber o que fazer...

Algo que nunca acontece comigo em RPGs porque... errm... eu sou um profissional!

...

Por... por que estão me olhando assim?

Eu... nunca me perco.



Ora bolas!


Falando do sistema de combate, podemos dizer que é a grande característica positiva de DDS. Não vou me alongar nesse tópico, mas em resumo, posso dizer que o jogo tem grande foco em batalhas, e faz isso bem, nos dando opções específicas para gerir os turnos das lutas, o gridding tão recorrente do gênero com pontos de distribuição, sistema de classes, equipamentos e os "mantras", dezenas de habilidades especiais que nós podemos evoluir, dominar e usar em uma boa gama de estratégias durante as INÚMERAS batalhas que encontraremos nas empreitadas, afinal, esse é um daqueles joguinhos com encontros aleatórios bem intensos, sim.

Ridiculamente intenso, por sinal.

E isso só não incomoda mais graças ao ótimo sistema de batalha que nos oferece opções boas o suficientes para transformar os inimigos em patê de forma eficiente e rápida, seja pela boa interface ou simplesmente pela experiência que nos permite identificar as fraquezas dos inimigos.

Mas ainda enche o saco.

Eu diria que esse é o meu maior ponto negativo com ele.

Se perder nesse jogo não é legal, acreditem.

Em DDS, não recrutamos demônios como no SMT clássico, afinal toda party já é composta por personagens que se transformam em tinhosos.
Mas mesmo assim, ainda encontraremos os "bichinhos" da Atlus como inimigos pelas andanças, não se preocupem.

Algo a se ressaltar, tudo ainda é bem mais "carrancoso" e pouco dinâmico que um Persona, entretanto, é o melhor caminho pra vocês que quiserem COMEÇAR a explorar esse outro lado dos jogos da nossa querida Atlus, afinal esse jogo foi criado para trazer novos players pra esse mundo bizarro que eles felizmente criaram.

Recomendo, se é o seu caso.

Se não for, recomendo também.

Sobre a dificuldade, sendo felizmente bem semelhante em design e gameplay (apesar de mais fácil) ao Shin Megami Tensei 3: Nocturne,  é um pouco arisco, exige alguma paciência e dedicação, mas que nem de perto pode ser considerado impossível, acho que sequer "difícil", principalmente depois que você pega o jeito das mecânicas.

EXCETO quando falamos de seu irreverente chefão opcional, Demi Fiend, protagonista de SMT3 e o personagem principal de RPG mais "porra louca" que existe!

Sr. Hitoshura pra vocês.

O infeliz combate demônios, anjos ou criaturas do além apenas usando as mãos nuas, pontapés, insetos dolorosos por de baixo da pele e uma bermuda genérica daquelas que você usa pra comprar pão.

Isso que é char, meus amigos, isso que é char!!!

E como se não bastasse, é um dos, senão o chefão mais difícil que enfrentei em joguinhos de RPG nessa minha vida de jogatina JRPGistíca.

Eu diria que esse é aquele chefe que arranca a pele do seu dedo em cima da unha, tá ligado? Aquele que mete seu dedo mindinho na quina da cama, tipo isso. E antes de você poder ir chorar para sua mainha, você ainda vai ter que estar ligado nos amigos que ele invocará para chutar o seu saco no processo.

Não importa se você for mulher, eles chutarão seu saco espiritual também.


Melhor protagonista da Atlus e TEJE dito.

Todas as batalhas e explorações são geridas em terceira pessoa, com gráficos 3D que envelheceram muito bem, afinal foram baseados no estilo de arte supimpa de Kazuma Kaneko, que mesmo criando personagens com uniformes militares cinzentos, consegue dar alguma personalidade pra cada um deles.

Os cabelos coloridos ajudam, eu acho.

Err... quem sou eu pra julgar uniformes militares?

E já que estamos falando dos personagens, vamos discorrer um pouco sobre nossos protagonistas.


O já citado Serph, de cabelos brancos, é o líder quase silencioso do grupo, o único que realmente gerimos no upgrade de habilidades durante a jogatina. Ele é o que podemos esperar de um "silent hero" pelo menos a priori, porque temos uma trama aqui que foge bastante dos muitos padrões do gênero.

Depois temos o rapaz de cabelo vermelho, Heat que forma uma dinâmica curiosa de amizade, insubordinação e ao mesmo tempo raiva do protagonista, o que terá um desfecho mais do que interessante nos últimos momentos do game. Principalmente porque envolve Sera, a já citada moça misteriosa que gerou... digo, gerará o atrito entre esses 2 personagens.

Também temos Gale, o rapaz de cabelos verdes que desenvolve um "arco pessoal" narrativo que irá nos deixar com cara de tacho por uma boa parte do game, até finalmente começarmos a entender do que diabos esse enredo se trata.



Não podemos esquecer da Argilla, a moça de cabelo rosa que tem uma... "singela" interação com "Jinana", aquela semi nu... digo, a militar de cabelo verde que ilustrei antes do tópico. No mais, é uma jovem inteiramente centrada na sua equipe e...  tem peitos que MORDEM...

Ok, você não tem mais o direito de ficar surpreso por isso...




E por fim falemos do Cielo, o rapaz de cabelos azuis... ou roxos, que pode parecer irrelevante no começo, mas protagoniza bons momentos, principalmente ao ajudar sua equipe.

Como eu mencionei antes, Digital Devil Saga é "dividido" em dois discos, e o primeiro foca-se mais em deixar perguntas do que respostas. Apesar de ter um boss final e uma luta sinceramente emocionante ao final do disco, ele acaba de forma abrupta, nos deixando encafifados com o que realmente aconteceu.

Eu diria que isso é um charme de disco 1.

Porque realmente esse é um DISCO 1.

Toda a historia é desenvolvida e focada em mostrar nossos protagonistas questionando sua realidade, buscando transcende-la de uma forma mais convencional e literal do que "espiritual", se é o que vocês estão pensando. Porque todos esses conceitos de hinduísmo só servem para aumentar a carga exótica que estamos tão acostumados da Atlus, (e criar simbologias muito bacanas de bônus).

Como disse antes, Matrix otaku hinduísta define essa obra, um combo no mínimo... ESQUISITÃO, mas sério, bem legal mesmo assim.

Sem duvida algo que recomendo pra qualquer fã de RPG.


Agora vou falar um pouco do disco 2, teremos spoilers, mas vou tentar maneirar porque espero fazer algum ser vivo ir jogar esses jogos.

Vamos lá!

Disco 2- Transição de realidade 

Eu adoro como a intro do segundo disco nos entrega MIL perguntas e nenhuma resposta.

Ela me lembra Megaman Zero 2 também...

Ah, como eu amo Megaman Zero...

Eu tenho que escrever sobre Megaman Zero uma hora, sério...

Ok, deixemos de enrolar.

                                             
 
Vamos recapitular, Junkyard era realidade virtual que acabou servindo para experimentos de novas tecnologias e armas militares, algo que quase nenhum de seus habitantes sabia. As coisas começam a mudar quando o gerente do projeto militar adiciona um vírus ao programa, transformando os soldados em criaturas canibais do tinhoso e consequentemente gerando o questionamento e a conscientização dos que estão lá dentro sobre a sua própria realidade.

É inteiramente fascinante ver os personagens se perguntando porque estão guerreando ou tentando "acessar" suas memórias antigas e não vendo nenhum sentido para o que eles tem feito durante tanto tempo. Afinal, eles eram apenas "inteligencias artificais", mas finalmente estão adquirindo "alma".

"Atma" (ou Atman), o nome do vírus que os afeta, também é um conceito hinduísta, ou uma ideia abstrata do "eu próprio", em outras palavras, "alma".

Isso nos leva ao desfecho do primeiro disco, resultando nos nossos protagonistas adentrando o mundo real, ou atingindo o "nirvana", se preferirem assim.

Enquanto o primeiro disco nos trazia o mundo cibernético (falso) de Junkyard, o segundo disco nos traz o mundo real e...

design foda3

é... mais uma vez, temos um mundo apocalíptico...


Oh, you, SMT! Você fez de novo!

A sociedade é dividida entre os rebeldes, que são pobres, de várias etnias e vivem basicamente em escombros. A outra parcela da população, a "elite", é formada por cientistas e pessoas ricas, que subjugam os mais pobres de formas REALMENTE distópicas, afinal aqui realmente rola canibalismo de capiroto não cibernético.

Percebem porque jogos assim não fazem sucesso com o grande público?

A "elite" mencionada está situada literalmente numa bolha limpa e próspera, a Karma Society,  regida pela Margot Cuvier, cujo o propósito é "estudar deus".

E por sinal, foi nessa empreitada de "estudar deus" unida a ambição humana de controlar esse poder, que levou o planeta ao eminente apocalipse.

Lembra que eu falei como a coisa ficava mais profunda?

Pois é.

Dá pra dizer que esse é o "Xenogears" da Atlus.

Sem forçar, dá mesmo.


No mundo real, nossos penosos protagonistas descobrem que foram criados à partir de pessoas reais que já morreram, são apenas um produto de conhecimentos e memórias fragmentadas.

Sim, memórias fragmentadas, ISSO É UM JRPG, O QUE ESPERAVAM?

E assim eles saem em busca de saber a razão das suas existências, entender o que diabos aconteceu com o mundo, ajudar Sera em seu drama, e por fim desafiar o ser supremo que controla a roda do destino no universo de DDS!

Dá pra sentir o feeling do game com tudo isso que eu disse? Pois acreditem, eu não falei nem da metade dos acontecimentos do game. Digital Devil Saga foi o jogo que me fez olhar pra os títulos da Atlus com outros olhos, quando falamos de roteiro. Ele não é meu jogo favorito da empresa, mas acredito que é o que sintetiza o que há de melhor nela, nesse aspecto.

Vai servir para os fãs aficionados de rpgs, enredos complexos, referências do além ou simplesmente os curiosos.

E aqui termino mais uma INDICAÇÃO/ARTIGO/REVIEW  do blog MIL!

Numa hora oportuna, talvez, eu atualize esse texto com uma análise dos seus conceitos mais profundos. Na verdade, esse é o plano em todos meus reviews, uma hora eu os atualizarei.

Provavelmente o de Persona 5 será o primeiro.

Enfim, nos sigam no twitter ou na página do face pra ficarem ligados nas atualizações e...

ATÉ DIA MIL procês!

Transformações parciais FTW.

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