God of War - Kratos como ele é


O que vocês lembram quando pensam em God of War?

Violência?

Peitos?

Nostalgia de ps2?

"ZIIIIIIIIIIIIIIIIIUS, YOUR SON HAS RETURNED!!"?

Bom, realmente são características que fazem dessa série bastante famosa por aí.

E quando o mais novo God of War foi lançado, o qual irei me referir como GoW4, todo mundo percebeu que sua narrativa havia mudado, que um tom de sensibilidade havia chegado, supostamente pela primeira vez, na sua história, revertendo muitos olhares tortuosos de pessoas que consideravam Kratos um mero bárbaro gerador de violência gratuita.

E olha, fico verdadeiramente feliz com o corajoso tom que adotaram nesse novo título, criando provavelmente uma das "transmutações narrativas" mais bem vindas ao se "reviver uma clássica franquia" que já devo ter observado no entretenimento desde...

sempre.

Também fico feliz que GoW4 tenha angariado novos fãs, mas ainda acho que a maioria tinha uma ideia bem errada sobre esse notável "anti herói.".



God of War sempre foi, e ainda é, uma série de enredo com causa e consequência bem direta.

Seu protagonista, marcado por sua origem incerta, abrupta perda de seu irmão e um crescimento "rigidamente espartano", (o que significa que ele encara a violência e o desespero das batalhas desde molequinho) de fato são parte da soma que fazem de Kratos um guerreiro habilidoso e extremamente putasso.

As habilidades cruelmente mortais, porém práticas, em batalha que este desenvolveu logo o fizeram famoso e temido entre guerreiros, resultando num espartano de coração, motivado pela conquista e poder, logicamente chamando atenção até mesmo das divindades para suas peripécias.

Deveras um personagem perfeito pra se colocar num  "Greek Hack'n Slash" hein?

Mas o careca carrancudo possuía sentimentos, sintetizados por sua esposa e filha, as únicas pessoas do mundo que o olhavam sem medo, com amor, e que mostravam, apesar de tudo, que o mesmo ainda mantinha alguma gentileza em seu coração, do seu próprio modo, é claro.

Como sabemos, a roda do destino de Kratos atinge seu primeiro ápice na famosa batalha em que bárbaros, em maior número, subjugam não só seu exército de espartanos treinados, como ele mesmo, que juntos nada podem fazer contra a investida brutal dos seus inimigos.

Fato esse que leva nosso protagonista, encarando o medo do fracasso, da morte e consumido pela sede de vitória, a apelar para o Deus da Guerra, Ares, oferecendo sua alma em troca de poder para derrotar quem estivesse em seu caminho.

Pela cara do bárbaro, alguém usou cheat.

Assim, um soldado ainda mais bestial é criado, que em nome do deus que agora serve, acaba por se tornar ainda mais letal e cada vez mais desumano. Entretanto, sua humanidade fragmentada por atos vis e sua vontade completamente voltada para Ares e seus interesses, acabam por leva-lo ao caminho mais destrutivo e desesperador em sua vida até então.

Kratos, seguindo as ordens de seu deus e embriagado pelo poder, ataca uma vila indefesa, os matando cruelmente sem pestanejar, até perceber que, acidentalmente no calor da barbárie, havia assassinado o último resquício de humanidade que ainda possuía, a sua família, os únicos capazes de manter algum elo com seus sentimentos.

E eu não sei, cara, desde novo até hoje isso sempre foi extremamente pesado pra mim.



Lembram desse comercial? Ele resumia bem o feeling do impacto.

Ele sempre foi um monstro em batalhas? De fato, ele foi criado pra ser assim, a sua época, sua cultura e sua realidade o direcionavam para ser uma máquina de combate, não é? O direcionavam para temer e louvar os deuses também. Numa atitude ignorante de consequências, ele vendeu sua alma, e pagou um preço tão alto que o desvinculou de suas conquistas e ambições irreversivelmente.

Eu sempre percebi que a  série, com o passar dos anos, evidenciou cada vez mais esse background traumático que mostrava objetivamente o que ele era e o que tornou a ser, eu nunca entendi porque poucas pessoas comentavam sobre isso. Em todos esses anos, eu mesmo só conversei sobre com o Vann.

Enfim, depois de uma década de arrependimentos, sofrimento, pesadelos e tentativa de suicídio, a descoberta que sua sina havia sido moldada e orquestrada por Ares, a fim de criar um guerreiro perfeito totalmente livre de humanidade, finalmente desperta a vingança sangrenta e ensandecida de Kratos, que se desenvolve não só para com o Deus da Guerra, mas eventualmente pra tudo que entrar em seu caminho, e isso inclui pessoas boas, más e todo o panteão divino dos responsáveis por manipular e aterrorizar não só o seu destino, mas também o de seus entes queridos, graças as tramoias do famoso embate por poder e hegemonia que circunda essas criaturas de características tão humanas, que são os deuses.

E devo mencionar aqui que God of War sempre foi e ainda é hábil demais em retratar os deuses, suas pessoalidades e até mesmo os mitos totalmente interpretativos que formam suas lendas com uma linguagem bem própria e única.

Realmente é algo pra se tecer elogios.

Observação especial para Hades e seu design de açoitador extremamente insano.
E perceberam? Um Hades de importância bem amena num enredo de Mitologia grega é deveras curioso e diferente, quem diria.



Kratos é por si só, um símbolo de vingança, e ele carrega suas "feridas" literalmente na pele, as marcas e as cinzas daqueles que amou e foram tirados dele.

Como Godo diria: "o ódio é o lugar para onde o homem vai quando não aguenta a tristeza." e temos uma síntese perfeita dessa epifania aqui.

Eu sempre achei completamente injusto a classificação de "brucutu sem causa" pra um personagem que, por mais simples que fosse, ainda mantinha sua trágica profundidade. O que não quer dizer que concorde ou aprove os pretextos de Kratos, apenas que os reconheço.

Mas convenhamos, é fato que God of War se tornou um sucesso sendo a excelente fusão de um bom hack'n slash, cenas de ação interativas e violentas batalhas contra guerreiros, divindades e criaturas sinuosas do tão aclamado setup da mitologia grega. Ver os elementos que fazem dessa série famosa, de certa forma, explicam um olhar superficial do público sobre ela, mas não o justifica, é claro.

Foi aí que, depois de anos, nosso anti-herói deu novamente as caras em uma "hyposa" conferência, como é de costume, nos deixando cheios de perguntas sobre o que se sucedeu com o aftermath subjetivo que levou ao "fim do mundo grego", após sua vingança ser concluída.

Agora seriamos introduzidos num novo "universo", o nórdico pra ser mais preciso, com novas localidades, criaturas e deuses para se conhecer e explorar.

NORDICAGEM HYPE AS FUCK
Mas mais importante e intrigante do que isso, uma nova roupagem na narrativa, no gameplay e no Kratos, que agora está mais velho, mais sereno e maduro, com um semblante arrependido, envergonhado com o passado, tentando, em uma jornada, viver o luto de perder alguém que amava mais uma vez, treinar o seu filho e quem sabe, aos tropeços, criar uma boa relação com ele, ao mesmo tempo que ironicamente encara um trágico destino divino em sua vida e na daqueles que ama, mais uma vez.

"Um jogo focado num Kratos sereno e na sua relação com um FILHO... peraí, ele conseguiu refazer sua vida amando uma nova mulher?!

Uow, realmente algo que eu queria ver em vida."

Foi o que pensei quando bati o olho no anúncio.

E se me perguntam o que achei do jogo, digo que GoW4 de cara já merece "um salto de fé" pela coragem de mudar, abandonando os divertidos combos aéreos de porradaria hack'n slash que tanto amamos e moldaram essa série como ela é, pra apresentar algo totalmente diferente.

Porém é notável que ele se rende as características dos grandes AAA's da atual geração, sendo um action RPG com aquela péssima e famosa câmera no ombro, assistência em combate e até mesmo caça, particularidades tão genéricas que confesso ter tido um medo ABSURDO antes de jogar.

É, The Last of Us fez "barulho" mesmo.

Eventualmente vejo pessoas comparando o gameplay com "Soul's like", uma comparação da qual eu não faria jamais.

Apesar da inspiração confessa, é apenas inspiração, a experiência de Souls está FELIZMENTE bem longe de GoW4, quem mantém resquícios de sua origem "hack'n slashiana"... lá no fundo.

Ps: felizmente porque eu não aguento mais ver cópias de Souls por aí.



Na realidade, eu gostei e me diverti bastante, em combate, exploração e principalmente interação com ambiente e personagens.

Artreus foi uma grata ótima surpresa, se mostrando um verossímil pirralho com qualidades e defeitos que o tornam bastante cativante.

"Sabe, às vezes você me dá medo" - Artreus, comentando de forma calma, porém cômica, ao observar o pai partindo um inimigo em dois com as mão nuas, são alguns dos vários momentos de conversa entre pai e filho durante a jogatina que me divertiram demais.

E a maioria dos comentários mais engraçados dos dois não rolam em "quick time events", não. Eles rolam enquanto exploramos ou batalhamos aleatoriamente, o que torna tudo mais natural e interessante.

Nem tudo é legal, é claro. O menu para melhoria de itens ou linha evolutiva dos nossos protagonistas é tão poluído quanto o rio tietê, e eu o evitava tanto que só fui ter coragem para desvenda-lo depois que os mobs mais fracos do jogo começaram a me dar hitkill.

Pois é, acho que foram 5 horas de jogatina sem up.

A odiosa câmera no ombro, como já disse, é o grande ponto fraco do gameplay, e pra ser sincero, não temos o mesmo impacto de inimigos que tínhamos nos outros GoWs. Os chefes são vergonhosamente, em sua maioria, versões meramente modificadas de monstrengos que já enfrentamos por todo jogo, uma repetição sem carisma, inclusive na finalização do mesmos,  uma marca tão exalante da série que foi nerfada pra caramba.

Isso me decepcionou consideravelmente, afinal estamos falando de um "AAAAA de 2018", huh?

Pelo menos, dá pra dizer que o combate exige uma perícia tática específica que muito me alegra e que tornam tudo uma experiência nova pra série.

Tá na cara que GoW4 é um jogo experimental e que veremos uma evolução soberba no próximo título, algo semelhante ao que aconteceu com AC1 e AC2, Uncharted 1 e 2, ou até mesmo GoW 1 e GoW 2.

Pelo menos essa é minha aposta, espero que esteja certo, pois se esse título tivesse mais variedade de mobs, chefões e finalizações, com certeza seria meu third person favorito da geração.

E que mudem essa câmera, pelo amor de deus!

Achei que ia estranhar o machado, mas não, ele é legalzão.

Também devo mencionar que, como esperado, fazem um ótimo trabalho em explorar e desenvolver as complexas e ambíguas lendas, criaturas e divindades da mitologia Nórdica. Diria até que é de longe a visão desses mitos que mais gostei em obras do entretenimento pop, na vida, e eu possuo exatamente a mesma opinião sobre os GoWs passados.

Eles respeitam o setup completamente confuso e subjetivo da mitologia em questão. Você observa como os deuses possuem características físicas tão mundanas, "bárbaras" até, eu diria, que é exatamente o que eu espero quando estamos falando de "nordicagens" por aí, contrastando absurdamente com os obrigatoriamente GLORIOSOS deuses Gregos, o que é bacana demais de se observar.

Destaque especial para a(s) lutas sensacionais contra Baldur ao melhor estilo Dragon Ball Z, com certeza o boss responsável por levar a ação de GoW4 além dos seus padrões.

A jornada de inicio aparentemente simplório se desenvolve para uma grande e profética trama, do jeito que deve ser quando falamos de enredos com divindades e destino. Mas é fácil observar que o grande tema que o jogo carrega é sobre a relação de pais e filhos, família em geral, erros e arrependimentos.



No mais, ver Kratos se esforçando para manter a calma enquanto repreende seu filho, reconhecendo que a vingança não leva a nada, se abrindo sobre seu vergonhoso passado, o ensinando a viver e pensar com o coração e mente humanizados, mesmo sendo um deus/gigante/jiraya, tendo momentos de socialização descontraída e até mesmo fazendo honrados amigos em sua jornada, ao mesmo tempo que encara os demônios de seu passado em cenas fodásticas embaladas com o poderoso novo tema do personagem, realmente me fizeram, como um fanboy, bastante feliz.

INCLUSIVE, é notável vermos como o eterno Deus da Guerra se porta para consolar seu filho, muitas vezes "se contendo" em fazer um simples carinho no garoto, afinal ele está, até hoje, constantemente se repreendendo pelas suas monstruosidades do passado.


Pra mim, de longe, a cena mais tocante do jogo é observa-lo tremer ao se "conectar" de novo com as Lâminas do Caos.

Que cena, meus amigos. Que cena.

Eu sinceramente não faço ideia como seria esse jogo para um "novato", afinal tudo que há legal nele se sustenta nas experiências passadas. Não recomendo ninguém joga-lo antes dos clássicos, de fato.

Pra concluir, lidar com esses novos deuses e criaturas aos olhos de uma deidade espartana tão diferente é de longe o ponto alto da jogatina, saber sobre os personagens me fazia parar no barco só pra ouvi-los, e com certeza foi uma excelente pedida para meus dias de férias.

Fiquei bastante feliz com GoW4 e espero que vocês fiquem também, afinal, aqui, temos a chance de observar Kratos mostrando o que ele é, e o jogo vai te pegar pela mão dessa vez para fazer enxergar os detalhes de sua humanidade.

Humanidade que ele há muito tempo já mostrou, na verdade, mas que ficou embaçada em pequenas linhas de um passado remoto manchado com tantas desgraças.


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