Mob Psycho 100 - O que te faz especial?



Vocês já devem ter ouvido falar do ONE, huh?

Aquele misterioso autor de traços pitorescos, humor bem encaixado e dono da mente criativa "em alta" mais ponderada e objetiva em satirizar os clichês do "SHOUNEM POWER" sorrateiramente, ao mesmo tempo que os utiliza, nos entregando aquele fantástico combo de ação e emoção que esse gênero é tão capaz de proporcionar, entretanto do seu próprio e original modo.



ONE é habilidoso na criação de realidades fantasiosas de seres munidos com poderes escalafobéticos em conflito, adicionando problemas totalmente atuais e mundanos do dia à dia na sequência como principal pilar de seus personagens principais, e em Mob Psycho 100 isso é ainda mais evidente.

E o melhor de tudo, ele faz com que você se importe mais com esses problemas do que com todo o resto, justamente usando o tipo de narrativa que mais me agrada na terra, aquela união de reflexão e humor non sense quebrador de expectativas. Ele não é só um excelente quadrinista, mas ótimo em criar personagens e conceitos de universo.




Publicado em meados de 2012, a obra narra a história de Mob, um jovem garoto de cabelo de tigela totalmente introspectivo e sem talento algum, exceto pelas suas abundantes capacidades que o caraterizam como o ser psíquico mais cool-overpower do entretenimento desde o Mewtwo dublado pelo Guilherme Briggs, contrastando absurdamente com sua aparência e, pelo menos inicialmente, personalidade medíocre, que acaba por se desenvolver cada vez mais, seja pela sua experiência ao lidar com espíritos malignos, seus amigos e família de bom coração, e principalmente pelo picaret... digo, seu mentor, Reigen, grande moldador do caráter do nosso adorável protagonista de emoções recessivas.

Um mentor que deixa bem claro que ter qualidades paranormais, assim como qualquer outra qualidade excepcional, não faz ninguém especial, o que define isso é outra coisa.


O maior mentor do entretenimento, pra ser mais exato.

Reigen é um canastrã... paranormal ativo na cidade, dono de um escritório focado em trabalhos que ajudem as pessoas e seus problemas supostamente sobrenaturais. Dá pra dizer que Mob é o estagiário do escritório que faz todo o trabalho psíquico como parte do seu "treinamento"...

Eu disse "faz todo trabalho"? Eu quis dizer, AUXILIA no trabalho de Reigen.

É claro.

Os trabalhos os levam para peripécias pela cidade em busca de exorcizar espíritos malignos, reverter maldições ou simplesmente massagear clientes, afinal como bons trabalhadores, eles vivem um dia de cada vez. Nessas situações, certamente as mais perigosas, vocês terão a chance de ver Mob expondo seu "poder oculto de protagonista", que ocorre quando estresse do personagem atinge seu nível máximo, afinal ele é tão comicamente recessivo com seus sentimentos, que se, somente se ele for realmente forçado emocionalmente, é que suas habilidades, que já são enormes normalmente, ganharão um aspecto "titânico super sayajin 3".

Mas não pensem de forma nenhuma que Mob seja meramente um "personagem que se enfurece e fica irrealmente fortão", NÃAAO, longe disso, por favor.


Imaginem  que toda situação boa, ruim ou inconveniente que as pessoas ou a vida preguem na gente gere uma emoção específica, certo? Mob é uma pessoa que restringe tanto esses sentimentos diários, graças ao medo consciente ou inconsciente que o mesmo tem de perder o controle de sua tamanha força, que numa hora ele chega no limite, e esse emaranhado de estresse, ansiedade e pressão acumulados transbordam e se tornam poder, geralmente direcionado pela última emoção forte que ele teve, seja tristeza, raiva etc.

Eu sei, tem pessoas que se identificam com isso de restringir sentimentos, né? Exceto que felizmente ninguém sai voando soltando hadoken por aí.

Ou infelizmente...

E temos mais outro grande e excelente detalhe! A narrativa CONSTRÓI essas camadas sentimentais do Mob, ela mostra como ele se sente com bastante cuidado, com a porcentagem de seu momento de explosão crescendo ou subindo, criando expectativa do que vai rolar, fazendo a gente perceber o que afeta ou não o garoto.

Literalmente, Mob é um "mob" de joguinho sem individualidade com funções pré-estabelecidas, mas que vai ganhando seu devido rumo com passar da obra. E isso deve ser totalmente intencional.

Enfim, é uma dinâmica bem legal que inevitavelmente me arranca elogios.

E não se esqueça que mesmo nesses grandes momentos de DEUS EX MACHINA,  expectativas podem ser quebradas.
Mas do jeito mais positivo possível.


A trama possui aquela leveza invejável de caráter episódico, mas possui seu linear compromisso de manter  o elo não só com as experiências e personagens passados, como também inserir um grande destino envolvendo todo o mundo em uma batalha psíquica sem precedentes liderada por um chefão final fodão, até porque isso ainda é um shounen de porrada.

Na real, isso aí é uma sacada bem interessante, o ONE criou todo um conceito de universo onde lutas de paranormais envolvesse mais músculos e porrada do que todas as sagas de Cavaleiro dos Zodíaco juntas! O que não é difícil, eu sei.

E isso atingiu um nível ainda mais incrível quando o IMPECÁVEL, INVEJÁVEL e IN...fi...nito (?) estúdio BONES ficou encarregado da adaptação pra anime, que teve sua temporadas lançadas em meados de 2016 e agora em 2019, vencendo o mundialmente famoso prêmio de "grande anime da temporada do Blog MIL" todas as vezes!




Dá pra ver que o anime é experimental, cheio de iluminações alucinógenas e explosões de cores que combinam habilmente com a proposta da trama, e o melhor de tudo, honra bastante as características da arte do ONE, que unidas ao seu exímio "passing" de humor, dão toda uma carga ainda mais cômica pra esse trabalho, coisa que o Murata felizmente honra em One Punch Man, às vezes, e sempre fica muito bom.

A adaptação é consideravelmente fiel ao original, e realmente deve ser, afinal a quadrinização do ONE é ótima. E mesmo o anime tendo suas devidas "rushadas" e "cortes" de praxe em comparação ao mangá, não afeta em nada na primorosa experiência final. É de longe uma daquelas adaptações que merecem bastante amor, e estará garantida no meu hall de animes favoritos por toda a vida.

Eu acredito que possa haver uma terceira temporada com o que ainda falta "cobrir" da obra, ou quem sabe eles tragam o conteúdo em OVAS. De qualquer forma é algo que espero ver.

Pra quem não conhece o estúdio BONES, saibam que eles são os responsáveis por belezinhas como Full Metal Alchemist, Eureka Seven, Soul Eater, Wolf's Rain, Space Dandy e Boku no Hero,  entre outros, só coisa da god tier da animação.

Pena One Punch Man ter SE FODIDO com a Madhouse abrindo mão dele né? Estou em um luto eterno por isso.

LUTO ETERNO.

Pois bem, dá pra dizer que Mob Psycho 100 é uma daquelas maravilhosas lufadas de ar fresco pro gênero.

Bem diferente de Boku no Hero, que não é só completamente o oposto, mas basicamente o maior bordel de clichês cantarolando em uníssono de todos os tempos. O que não faz de Boku no Hero ruim, não me entendam mal, eu mesmo adoro essa série, não sei como, mas adoro. Só queria ilustrar e provocar algum questionamento aos infelizes que não enxergaram essa... OBVIEDADE ainda.

É, eu sei que vocês existem e vão me olhar torto quando... se...  lerem isso.

MAS REFLITAM!

Enfim, o que eu quero dizer é: se ainda não viram, vão ver Mob psycho 100 de uma vez, suas toupeiras moribundas, não vão se arrepender!

E não se esqueçam do mangá também, ONE realmente o leva à sério, dá pra ver o quão sua arte é detalhada aqui, e eu pessoalmente gosto muito dela. Quando for falar de OPM contarei mais sobre o porquê de admira-lo tanto como autor e artista.

Mas em outra hora! Porque agora iremos papear com spoilers! 


Apesar de mínimos, na verdade, tão mínimo que você não precisa ter terminado a 2º temporada pra ler.



O que te faz especial?




Certamente, se eu fosse dizer qual a grande mensagem de Mob Psycho 100 pra o seu público, seria "seja alguém gente boa".

O que basicamente engloba todos os temas sociais do mundo, eu diria.

Mas o que é ser "gente boa"?

O grande "gente boa" da série é aparentemente e ironicamente o maior canastrão dela, Reigen, o rapaz que cresceu razoavelmente bem em sociedade, reconhecendo seu próprio carisma e lábia naturais para lidar com as adversidades do dia à dia, mas que apesar das aparências, mostra-se deveras solitário e ainda infeliz com suas conquistas de vida.

Até dá pra notar que ele parece estar há muito tempo sem nem pensar sobre isso.

É um clássico caso de personagem identificável, afinal ele é um adulto lidando com as responsabilidades da idade, lidando com a pressão de um trabalho que não acrescenta em absolutamente nada na sua vida, e largando tudo pra fazer o que realmente gosta, o que realmente quer fazer.

Que é... acredito eu, pelo que observei, fazer algo de útil e relevante pras pessoas, ser lembrado por isso.

Mas ainda assim, apesar de tudo, momentaneamente se perdendo no caminho.



A questão é que Reigen tem ciência da sua "charlatanisse" em lidar com seu trabalho, tem ciência de que engana, ou acha enganar o Mob, mas em contra partida tem a visão mais prática, bonita e sensata sobre a vida que alguém poderia ter, e ele consegue passar isso habilmente pro seu discípulo e pras pessoas ao redor, seja pela sua lábia, situações adoidadas ou simplesmente pela sua irônica sinceridade, afinal quando o assunto é ser alguém gente boa, Reigen fala de coração e nem percebe.

Não que eu esteja querendo defender sua charlatanisse, mas é fácil notar também que Reigen não considera a maioria dos problemas paranormais como algo real, ele meio que entra nessa com a mentalidade de fazer dinheiro fácil (que não é muito, pelo que observamos) com pessoas aparentemente de cabeça fraca, complexadas muitas vezes por mera "hipocondria espiritual", afinal muitos dos seus clientes são curados com uma boa massagem. De certa forma ele ainda está ajudando essas pessoas que "inevitavelmente acreditam nesse tipo de coisa".

Ainda assim, aliando-se a Mob, ele acaba ajudando não só esse tipo de pessoa, como realmente quem está passando por problemas sobrenaturais REAIS.



Então temos um caráter absurdamente duvidoso que se contrasta com um bom coração e cria um dos personagens mais tridimensionais que me lembro encontrar no gênero em muito tempo, de fato.

Sim, episódio 7 da segunda temporada, você é meu favorito.

Do outro lado, dividindo os holofotes, temos o incrível telepata Mob, que apesar do seu senso de responsabilidade com seu trabalho, possui singelos anseios  das coisas mais mundanas que um garoto da sua idade poderia ansiar: a garota bonita da escola, manejo social, amigos, aptidão física ou pelo menos algo tão simples como senso de diversão, que o mesmo raramente é capaz de ter, e que felizmente vai mudando com o tempo.

Levando em consideração que ele é quase UM DEUS, ver esses tipos de vontades nele, e ver que o mesmo trocaria seus poderes por tudo isso, é de fato algo muito interessante de observar.

E ONE se encarrega de deixar engraçado também.

Mas é intrigante perceber que Mob se vê como uma bomba relógio e, por medo de si mesmo, acabou enterrando inconscientemente sua personalidade a fim de não machucar ninguém.

É verdadeiramente satisfatório vê-lo mudar.

Pessoalmente meu episódio favorito de Mob, o personagem, é o primeiro da segunda temporada, com aquele final sensacional dele recolando o livro da sua colega/ex namorada de mentira. Eu disse que ver os personagens lidando com seus sentimentos é o grande ás dessa história pra mim, e olha que eu sou o viciado em lutinha aqui.


Contrariando  esses personagens tão bem intencionados, temos o grupo dos vilões paranormais que se acham superiores graças às suas habilidades paranormais e tem como objetivo a dominação mundial munida de razões obscuras que, em sua grande maioria, se resumem ao cômico, ridículo e egoísta pensamento de se acharem especiais por conta de suas "vantagens naturais", e é fácil observar que estes são compostos de pessoas desajustadas que preferem odiar o mundo em vez de compreende-lo.

Não duvido que existam paranormais da Garra que se acham "ISPEXIAIS" por gostarem de joguinhos/filminhos/livrinhos cultzinhos undergrounds por aí, julgando os outros, ein? Pois é.

Ok, ok, parei.

Muahaha como sou cultxi!

ENTRETANTO,  essa é a minha analogia boba e leviana meramente provocativa, vocês sabem quantas podem ser encaixadas aqui, certo? Mogami e sua vida desesperadamente miserável e algum senso de poder e ego criaram de longe o personagem mais assustador da obra, por exemplo.

De qualquer forma, gosto como nossos protagonistas conseguem, com caráter, compreensão e um "pouquinho de força" conquistar a amizade e admiração dos antagonistas durante a trama, bom, pelo menos a maioria deles.

Pra concluir, eu acho que a grande sacada de Mob Psycho 100 está aí, em criticar as armadilhas do ego, em colocar a mentalidade das pessoas de "volta nos trilhos", tão ligado? Reigen sensatamente observa que qualidades humanas se expandem de diversos meios, inclusive na sensibilidade e compreensão, que é certamente o maior formador de bom caráter que existe em nossa humanidade.

Felizmente Mob, além de aprender, também amadurece, sendo a grande força motriz apta o suficiente a combater vilões tão poderosos de valores tortuosos.



É aquele papo de respeito e empatia mútua da sociedade, o que convenhamos, é algo bonito e necessário pra viver. Mas parece tão óbvio, clichê e brega falar sobre o assunto, que acredito que é justamente por isso que esse raciocínio perde o impacto quase sempre.

Enfim, é tão bom encontrar uma obra que nos traga esse tipo de mensagem com toda a leveza e despretensiosidade bem humorada que ele deve conter.

Achem vocês mesmo a resposta pra a pergunta inicial nesse texto e não se esqueçam...

"O verdadeiro encanto é a gentileza. Virem alguém gente boa, só isso."




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